Ediel Ribeiro: O haicai de Goga

Lendo Millôr, cheguei a Masuda Goga, meu haicaísta preferido. Entre os brasileiros, sou fã de Paulo Leminski

Advertisement
Receba notícias no WhatsApp

Confesso. A primeira vez que ouvi (ou li) a palavra ‘haikai’, foi em um texto do Millôr Fernandes, no ‘Pasquim’.

Millôr foi um grande artista. Tudo o que ele se propôs a fazer fez bem feito. Como cartunista, jornalista, dramaturgo e tradutor.

O que muita gente não sabe é que Millôr escreveu – e bem – diversos haikais, a sintética poesia japonesa. Escreveu, inclusive, um haikai de despedida:

Passeio aflito,

Advertisement

Leia também

Pedro Paulo cada vez mais certo como vice de Eduardo Paes – Bastidores do Rio

10 coisas que só quem anda de ônibus no RJ vai entender

Tantos amigos

Já granito

Lendo Millôr, cheguei a Masuda Goga, meu haicaísta preferido. Entre os brasileiros, sou fã de Paulo Leminski.

Amar é um elo

Entre o azul

E o amarelo

(Leminski)

Bastante difundido no Japão, seu país de origem, o haikai – poema conciso, formado de 17 sílabas, ou melhor, sons, distribuídas em três versos (5-7-5), sem obrigação de rima nem título – surgiu originalmente pelo mestre Matsuo Bashô, há quatro séculos atrás. Discípulo de Bashô, o japonês Masuda Goga emigrou para o Brasil, em 1929, e difundiu o haikai entre nós.

Hidekazu Masuda, mais conhecido como Goga, nasceu na província de Kagawa, no Japão, em 08 de agosto de 1911. Foi agricultor, comerciante, jornalista, escritor, pintor e poeta.

No Brasil, especificamente em São Paulo, Goga trabalhou em atividades ligadas à agricultura até dedicar-se inteiramente ao jornalismo e a poesia.

Durante esse percurso, conhece, em 1935, o mestre Nempuku Sato (1898-1979), que o orientou sobre o haikai japonês até a sua morte. Foi um discípulo dedicado, colaborou com seu mestre na divulgação do haicai entre os imigrantes.

No Brasil, Goga manteve contato com intelectuais e poetas brasileiros, dentre eles, Jorge Fonseca Júnior, com quem iniciou suas pesquisas sobre o haikai no país e Guilherme de Almeida.

Em 1948, depois de publicar seus primeiros haicais em língua portuguesa, Goga muda-se para São Paulo. Torna-se jornalista no diário nipo-brasileiro “Jornal Paulista”.

Naturalizou-se brasileiro em 1962 e aposentou-se em 1973. Em 1999, mudou-se para um sítio no interior de Minas Gerais, mas nunca abandonou as atividades de escritor e divulgador da arte do haicai.

Tio da poeta Teruko Oda, Goga escreveu vários livros dedicados ao haicai e recebeu em 2004 o Grande Prêmio Internacional do Haiku, Masaoka Shiki, pelo seu trabalho de difusão internacional do haicai. O poeta faleceu em São Paulo, em 28 de maio de 2008.

Abaixo, alguns haikais de Goga:

Em cima do túmulo

cai uma folha após outra.

lágrimas também…

Primavera alegre

os namorados com walk-man

percorrem o parque

Paineira em flor:

casa-grade abandonada,

sem telha nem porta

Uma aldeia pobre

ao pé da serra de inverno

mina antiga de ouro

Advertisement
Receba notícias no WhatsApp
entrar grupo whatsapp Ediel Ribeiro: O haicai de Goga

Avatar photo
Jornalista, cartunista, poeta e escritor carioca. É colunista dos jornais O Dia (RJ) e O Folha de Minas (MG) e Diário do Rio (RJ) Autor do livro “Parem as Máquinas! - histórias de cartunistas e seus botecos”. Co-autor (junto com Sheila Ferreira) dos romances "Sonhos são Azuis" e “Entre Sonhos e Girassóis”. É também autor da tira de humor ácido "Patty & Fatty", publicadas nos jornais "Expresso" (RJ) e "O Municipal" (RJ), desde 2003, e criador e editor dos jornais de humor "Cartoon" e "Hic!"
Advertisement

Comente

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui