Tempos nebulosos na Floresta da Tijuca. Avança no Senado Federal um projeto de lei que retira o Alto Corcovado do Parque Nacional da Tijuca, unidade de conservação mais famosa do país, e gerida pela União há 64 anos. Um erro, que tenta ganhas adesões públicas com justificativa sem base na realidade. O que está em jogo, todos sabemos, são os dividendos auferidos pela mundialmente famosa estátua do Redentor. A Igreja Católica, via Mitra Arquiepiscopal do Rio, entidade de direto privado, quer ficar com todas as fatias desse robusto bolo. O caminho, é evidente, passa por parcerias, ajustes de gestão e conversa. Jamais por rompimento.
“Não podemos aceitar que o ícone brasileiro de maior reconhecimento internacional permaneça em situação de precariedade e má gestão”, detona o texto do senador Carlos Portinho (PL), que continua: “Ao mesmo tempo, é inadmissível que a Igreja Católica, historicamente responsável pela construção do monumento ao Cristo Redentor (…) seja alijada de sua administração e até mesmo impedida de acessar o santuário”. Ora, a Igreja Católica jamais foi impedida de acessar o santuário. Ao contrário, tem extrema liberdade para fazer diversos eventos e cerimônias no Corcovado.
Mas é preciso entender que a estátua está localizada numa unidade de conservação de proteção integral, e isso implica alguns cuidados. O Alto Corcovado não pode, em nome de uma fé, se tornar um lounge privado, no qual celebridades fazem festas particulares ou patrocinadoras fincam banners de propaganda a toque de caixa. Ganho pra uns, prejuízo para o coletivo: sem o Corcovado, o Parque da Tijuca perde receitas e fica capenga.
Hoje, cada morador ou turista que usa o trenzinho do Corcovado, que liga o bairro do Cosme Velho, na Zona Sul do Rio, paga R$ 128 (preço cheio). Do total, R$ 70 vão para a concessionária Trem do Corcovado, R$ 52 são destinados ao Instituto Chico Mendes (ICMBio), que faz a gestão da unidade, e R$ 6 vão para a Mitra. Justa ou não, a divisão garante um pedaço das receitas para todos os atores. Há uma governança. E não menos importante: desde dezembro de 2024, metade desses R$ 52 reais endereçados ao ICMBio estão sendo aplicados diretamente em melhorias no parque. Antes, tudo ia para um caixa único da União.
É preciso melhorar a gestão? É evidente. São muitos os problemas de infraestrutura e descuidos com o patrimônio. O Parque Nacional da Tijuca, com seus quase 4 mil hectares e mais de 4,6 milhões de visitantes por ano, exprime as dores, alegrias e complexidades de uma metrópole desigual e violenta. Exprime, inclusive, a miríade de fés do povo carioca. Há espaços onde são realizados cultos neopentecostais, cerimônias de religiões de matrizes africanas, eventos de quem professa a fé budista. O Cristo, assumido pela Igreja Católica, abre brecha para cada adepto de outra religião reivindicar um espaço para realizar suas expressões de fé. Um contrassenso. O Cristo é do parque. E precisa continuar sendo.
Incrível como alguns são tão ansiosos em entregar dinheiro privado nas mãos de órgãos públicos super competentes e ótimos gestores do erário de honra ilibadissima, né mesmo?