Empresas ainda estão buscando a política ideal de trabalho, aponta pesquisa inédita

Segundo o estudo, 64% dos brasileiros trabalham na modalidade híbrida e 94% dos trabalhadores não querem voltar ao modelo presencial 100% do tempo

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A pesquisa inédita Tendências e Perspectivas do Trabalho – Report WeWork LatAm 2023, divulgada em parceria com a Page Outsourcing e com o apoio de Reconnect | Happiness at Work e Exboss, traz dados reveladores sobre a evolução dos modelos de trabalho. Segundo o relatório, houve uma notável mudança nos padrões de trabalho em comparação com pesquisas anteriores.

Os dados destacam que 64% dos profissionais agora adotam um esquema de trabalho híbrido. Em contraste, 18% trabalham exclusivamente no local de trabalho, enquanto outros 18% optam pelo trabalho remoto. Essa distribuição reflete uma transformação em relação aos resultados de pesquisas anteriores. O modelo 100% presencial aumentou de 10% em 2022 para 18% em 2023, ao passo que o número de profissionais aderindo ao modelo 100% remoto também cresceu, passando de 12% para 18%. Simultaneamente, houve uma redução de 14% no modelo híbrido, que diminui de 78% para 64%.

Quando analisamos a quantidade de dias presenciais que compõem o modelo híbrido, fica evidente que as políticas de cada empresa desempenham um papel importante. Atualmente, 64% das pessoas frequentam o escritório de duas a três vezes por semana. Em seguida, encontramos aqueles que trabalham presencialmente uma vez por semana (21%), quatro vezes (10%), e apenas 3% vão ao escritório cinco vezes por semana. No entanto, os dados também revelam que a grande maioria dos entrevistados preferiria ir ao escritório de um a dois dias, no máximo (63%).

“Embora pesquisas com colaboradores sejam comuns, a decisão sobre o modelo de trabalho, a quantidade de idas ao escritório e os dias específicos, no caso de esquemas híbridos, permanecem predominantemente nas mãos das empresas e líderes, que são responsáveis por 60% das determinações”, observa Bruna Neves, diretora-geral da WeWork Brasil. Cerca de 27% dos profissionais têm autonomia para decidir – o que é mais do que a média latino-americana de 18%.

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Nesse cenário, dados e ferramentas são necessários para organização da dinâmica de dias e horários. No entanto, a pesquisa mostra que as pessoas não sabem o que usar dada a dispersão das ferramentas internas. Por exemplo, Teams, Slack e Trello representam 25%; ferramentas externas da empresa, 21%; e-mail, 20%; planilhas compartilhadas, 10%, entre outras maneiras não especificadas. Dentre os aplicativos externos de mensageria, o WhatsApp é usado por 88% das empresas e profissionais.

Diante disso, as empresas seguem em busca do híbrido ideal, sem saber qual é. Cerca de 55% dos entrevistados no modelo híbrido relataram ter experimentado mudanças nos requisitos de presença no escritório nos últimos seis meses. As empresas seguem promovendo experiências e tentando atender os conflitos entre as expectativas da corporação e dos colaboradores.

Epidemia de insatisfação

Entre os resultados da pesquisa está a identificação de uma epidemia de frustração corporativa, tanto no nível macro latino-americano como no recorte brasileiro. A principal fonte do descontentamento é a falta de flexibilidade nas políticas de trabalho impostas pelas organizações. Pela primeira vez no contexto empresarial, a flexibilidade não é mais apenas um modelo híbrido (combinado de dias de trabalho presencial e remoto), mas também envolve jornadas flexíveis e participação na definição das políticas de trabalho.

A insatisfação com o trabalho é uma realidade para 55% dos profissionais brasileiros. Entre os três principais motivos identificados por eles estão:

  • falta de flexibilidade (25%);
  • salário (14%);
  • falta de processos (11%).

No contexto geracional, os Baby Boomers lideram em insatisfação (60%), seguidos pelas Gerações X (52%), Z (46%) e Millennials (42%). A ordem de importância dos fatores para o descontentamento é consistente entre todas as gerações, menos para os Baby Boomers. Os dois maiores fatores de descontentamento são salário e falta de reconhecimento.

Na hora de avaliar uma proposta de emprego, 87% das pessoas consideram a modalidade de trabalho e 88% a flexibilidade de horários. O salário continua sendo o fator de maior relevância na tomada de decisão (94%), mas muito próximo do segundo fator. Em uma visão geral, o salário é o item mais relevante para as pessoas, mas os outros critérios têm mudado nos últimos anos.

2018- 202120222023
Salário competitivoSalário competitivoSalário competitivo
Metas desafiadorasFlexibilidadeFlexibilidade de horário
Plano de carreira definidoEquilíbrio pessoal/profissionalModalidade de trabalho  
Qualidade de vidaBenefíciosBenefícios

Qualidade de vida

A importância crescente da flexibilidade não é por acaso. O modelo de trabalho afeta não apenas a vida profissional, mas também a qualidade das relações fora do trabalho. Todas as gerações concordam que uma política 100% presencial tem um impacto negativo na felicidade e satisfação.

mulheres no escritorio wework Empresas ainda estão buscando a política ideal de trabalho, aponta pesquisa inédita
Jovens trabalhando em uma das unidades WeWork (Foto: divulgação)

“Após a pandemia, as nossas prioridades se deslocaram e o trabalho deixou de ser o único, ou o principal, foco de nossas existências. Para 68% dos entrevistados, a pandemia fez com que eles valorizem mais o bem-estar e a qualidade de vida”, afirma Bruna Neves, diretora-geral Brasil

Nas entrevistas qualitativas, quando questionados sobre quais benefícios são inegociáveis, a grande maioria dos entrevistados respondeu flexibilidade/modelo de trabalho híbrido ou remoto (46%), muito à frente de plano de saúde (24%) e vale-alimentação ou refeição (19%). Bruna complementa: “é incrível observar que a flexibilidade já é mais lembrada que o plano de saúde para o trabalhador do mundo contemporâneo a tal ponto que 81% das pessoas gostariam de ter ou já possuem um um benefício destinado à flexibilidade”.

Desafios do RH

Para atender as necessidades das empresas e as expectativas das lideranças e dos subordinados, os profissionais de Recursos Humanos enfrentam diversos desafios. Segundo eles, os maiores são:

  • 48% insatisfação em relação ao modelo de trabalho imposto pela empresa;
  • 48% disseminação da cultura;
  • 31% aumento nos gastos com retenção e lealdade das equipes nos últimos dois anos.

“Um desafio inédito é atender as políticas de trabalho exigidas pelos profissionais já no processo de candidatura, uma vez que eles chegam buscando modelos de trabalho específicos”, comenta Bruna Neves. “A tensão entre expectativa e realidade se torna cada vez mais forte, já que a base da pirâmide ganhou força e não aceita mais decisões unilaterais das empresas. No final do dia, são os profissionais de RH que fazem o trabalho diplomático de conciliar expectativas não apenas dos candidatos perante as empresas, como vice-versa”, afirma a executiva.

“Ao perceberem que muitos profissionais estão abertos a oportunidades mesmo estando empregados, as empresas vêm tomando medidas para se adaptar e ter sucesso, como investir no desenvolvimento e na progressão de carreira de seus colaboradores atuais”, aponta Lucas Toledo, diretor-executivo do PageGroup. “Um diferencial para a área de RH é estar preparada para atuar em temas concretos e, principalmente, desenvolver a escuta ativa, a fim de entender o que mais importa para as lideranças e funcionários, e se adequar conforme a realidade de cada empresa”, completa.

Produtividade não está somente no escritório

Desde a pesquisa anterior da WeWork, já era observado a transformação na percepção dos profissionais, que agora enxergam os escritórios como espaços de conexão. Entre os principais objetivos para ir ao escritório citados na pesquisa atual, estão integração de equipes e relacionamentos interpessoais (48%); obrigatoriedade (29%); aumento na produtividade (12%) e 7% pela infraestrutura.  Além desses tópicos, outros foram citados nas  entrevistas de aprofundamento, são eles: resolução ágil de problemas, eficiência na tomada de decisões, comunicação e contato pessoal,e networking . “Todos eles têm a ver com relacionamentos”, observa Neves.

Diversidade geográfica e de perfis

Quase 63% dos entrevistados consideram que a flexibilidade é altamente favorável para promover a diversidade nas equipes de trabalho. Se antes os candidatos ficavam restritos a grandes centros urbanos ou às cidades onde a empresa se localiza, hoje a fronteira geográfica já não é mais fator que elimine os candidatos em caso da possibilidade de estarem remotos.

Pessoas com filhos também declaram o impacto positivo do modelo híbrido: 58% dos respondentes com filhos preferem esse esquema de trabalho e 54% gostariam de ir ao escritório, no máximo, duas vezes por semana. A satisfação e felicidade no trabalho desses pais e cuidadores é de 72% e o efeito positivo na saúde mental é de 70%.

“O híbrido gera mais oportunidades para pessoas que são mães e para quem mora em outras regiões fora das grandes capitais”, sintetiza Bruna Neves.

Saúde mental

Outro ponto importante que afeta diretamente a produtividade é a saúde mental do colaborador. Com o tema no centro das conversas hoje, com índices de absenteísmo por conta de síndrome de burnout aumentando e níveis de depressão alarmantes, falar em felicidade é muito mais estratégico do que parece. O modelo híbrido é o que tem maior impacto positivo na saúde mental, segundo os próprios entrevistados: 63% afirmam isso, enquanto o impacto positivo do modelo remoto foi identificado por 41% e do modelo presencial, 28%.

Semana de quatro dias

Projetos-pilotos recentes para estudar a semana de quatro dias de trabalho em diferentes países, incluindo o Brasil, continuam sendo temas de destaque no mercado de trabalho.

Frente a 83% dos colaboradores que gostariam de trabalhar quatro dias na semana, há 17% que têm preocupações, como a dependência da presença física em algumas posições, como as comerciais, e a distribuição da carga de trabalho. Aproximadamente, 77% das pessoas acreditam que seriam mais produtivas em um esquema de quatro dias de trabalho. Quando questionados sobre o que fariam com um dia extra, as principais respostas foram organizar a casa, descansar e relaxar, estudar e

se capacitar, realizar atividades com a família, viajar e fazer trâmites burocráticos e pessoais.

“A semana de quatro dias se apresenta como uma das tendências mais discutidas atualmente, mas ainda está sendo testada a nível global. Trata-se, sobretudo, de mudança de mentalidade, com melhora de eficiência e em processos. Estamos vivendo um período com transformações em uma velocidade sem precedentes, o que tem causado muito temor aos gestores. Essa insegurança é natural, uma vez que estamos em contato com mudanças de comportamento para as quais não fomos preparados. Com base em dados, como os das nossas pesquisas, é possível tomar decisões mais acertadas em direção a um equilíbrio sustentável entre as necessidades por colaboração, produtividade e lucro de uma empresa e a busca por qualidade de vida, bem-estar e a reordenação de prioridades na vida dos colaboradores”, conclui Bruna Neves.

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Renata Granchi
Renata Granchi é jornalista e publicitária com mestrado em psicologia. Passou pela TV Manchete, TV Globo, Record TV, TV Escola e Jornal do Brasil. Escreveu dois livros didáticos e atualmente é diretora do Diário do Rio. Em paralelo, presta consultoria em comunicação e marketing para empresas do trade.
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