Por André Delacerda

silvana2 Silvana é uma escritora de origens gaúcha, mas com uma alma carioca, pois foi criada no bairro da Tijuca. Durante a entrevista, ela nos conta um pouco das suas recordações tijucanas e de seu parentesco com Getúlio Vargas. Silvana fala ainda, sobre o Rio e em especial de Ipanema, que são suas fontes inspiradoras. Tendo as ciências humanas na sua formação, ela chama atenção para importância do constante aprendizado e o intercambio de informações. A escritora também comenta sobre sua participação em um livro em alusão aos 200 anos de chegada da Família Real ao Rio e outros, que poderão ser conhecidos durante a entrevista que mescla pinceladas poéticas e filosóficas.

Diário do Rio – Uma curiosidade inicial. Seu sobrenome é Vargas, existe ai algum parentesco com o Presidente Getúlio Vargas? Já que você também é gaúcha.

Silvana Vargas – É verdade, André. Também sou gaúcha. É curioso o peso de um nome. Ao longo de toda a minha vida esta pergunta é recorrente. Acho que é pelo fato de Getúlio Vargas ter sido um grande gaúcho e um presidente que não só despertou paixões mas também alguns desafetos. Na verdade, meu pai era gaúcho primo dele pelo lado paterno. Com ele aprendi a ter orgulho disso, mas sem excesso de vaidade. Tenho um livro escrito sobre o cotidiano da nossa família que se chama Nos Caminhos da Terra do Lobo.

Diário do Rio – A senhora passou a sua adolescência no Bairro da Tijuca, o que a senhora lembra desta fase de sua vida sobre a cidade? Há algo marcante? Um local?

Silvana Vargas – Para mim existiram duas Tijucas. A Tijuca antes da chegada do Metrô e a outra que se desenvolveu depois de sua inauguração. Na primeira, o tijucano vivia num ambiente familiar e bucólico. As crianças brincavam na Praça Saens Pena ,o comercio era próspero,havia o Armazém Sol (antecessor do Supermercado) situado na Rua Conde de Bonfim de propriedade de um simpático português, Seu Souto, onde os clientes compravam fiado. Eu aprendi a andar de bicicleta nas ruas desta Tijuca e freqüentava o Tijuca Tênis Clube. Estudei no Instituto La-Fayette Feminino. São minhas melhores lembranças. Depois da chegada do Metrô o bairro perdeu muito de sua identidade. Recebe gente demais e ficou muito descaracterizado.Tenho amigos que se mudaram para a Zona Sul e mantém seus apartamentos fechados por lá por falta de interessados na compra do imóvel.É uma pena!

silvana1 Diário do Rio – Como foram seus primeiros passos no mundo literatura? Quais as primeiras produções literárias?

Silvana Vargas – Comecei a escrever desde a adolescência. Era uma poesia aqui outra acolá que, infelizmente, se perderam pela vida afora. Em 2000 reencontrei o mundo literário investindo como contista, inicialmente, em algumas oficinas literárias itinerantes. Inicialmente publiquei contos em Antologias e Jornais de Literatura.

Diário do Rio – E o bairro de Ipanema onde entra nessa história?

Silvana Vargas – Foi aqui que realmente encontrei o estímulo necessário para me desenvolver cada vez mais como escritora. A vida cultural rica oferecida em Ipanema é um estímulo para o ofício do escritor. Viver em Ipanema é um eterno susto, uma exclamação e uma emoção.

Diário do Rio – Por ser psicóloga, a senhora diria que tem uma visão mais aguçada, e isso facilita na composição do personagem?

Silvana Vargas – Sem dúvida, a formação humanista direciona uma visão de mundo. No entanto, acredito que o processo criativo se dá a partir da visão particular de cada escritor. Comigo não foi diferente. Meus personagens estão no mundo e são acessíveis a qualquer um. Basta olhar para eles. Olhar e ver.

Diário do Rio – Apesar de já ser uma escritora com livros publicados, você ainda hoje faz parte da oficina de Ivan Proença. O que você destacaria de importante em uma oficina como esta?

Silvana Vargas – Repito as palavras do Professor Ivan: ”Oficina não faz escritor.” Mas reconheço que o convívio com as técnicas só aprimora o exercício da escrita. Além do convívio com as novidades no campo da Cultura e os outros escritores, que me traz imenso prazer. Pela editora da Oficina publiquei meu primeiro livro decontos: O Certo Sempre Incerto.

Diário do Rio – Você tem alguns contos dedicados ao Rio. Como você se inspira na cidade para compor seus contos e personagens? O Rio dar um bom samba, rs… ou melhor um bom enredo para a literatura?

Silvana Vargas – Meu primeiro trabalho sobre o Rio foi numa Antologia patrocinada pela Casa Cruz, tradicional papelaria do Rio com mais de dez filiais no Estado. Era uma publicação comemorativa pelos 100 anos de inauguração. Recebi uma menção honrosa por uma crônica cujo título fala por si: Os encantos de Ipanema. Desde então faço da cidade um tema recorrente. Como dizem os entendidos no futebol (outra paixão dos cariocas), em time que está ganhando não se mexe.

capa do livro Silvana 002 Diário do Rio – Estive sabendo que você acabou de escrever alguns contos, em alusão aos 200 anos da chegada da Família Real ao Rio? Do que se tratam? E quando serão publicados? Há alguma historia pitoresca neles?

Silvana Vargas – Este é um projeto ainda em andamento com um grupo de amigos escritores, prosadores e poetas com livros já no mercado e, como eu, também apaixonados pela pesquisa histórica. Trabalhamos com seriedade no sentido de transportar-nos para a ambiência daquela época, tudo rigorosamente alheio ao nosso mundo. Não posso adiantar mais detalhes. O livro, à conferir, sairá em breve, ainda dentro das comemorações da Chegada da Família Real.

Diário do Rio – Tem muita gente que escreve, mas se auto censura. O faz por timidez, ou até as vezes por medo de ser criticado por terceiros. O que a senhora tem a dizer a estas pessoas? Qual o conselho daria a quem estar começando?

Silvana Vargas – Difícil dar receita nessa hora. Lembra do que falei de visão de mundo? Gosto de Spinoza. Filósofo protestante. Que nos ensinou que na vida podemos optar e assumir duas atitudes: Ativos ou Passivos. O Ativo é aquele que age com prazer e tira alegria de tudo o que faz, já o Passivo é o triste, o deprimido, o culpado (censurado). Acho que as opções do filósofo já falam por si. Dito de outro modo, quem sabe faz a hora, não espera acontecer.

Diário do Rio – A senhora é filiada em alguma entidade representativa de escritores que funcione em nossa cidade? Qual?

Silvana Vargas – Sim, no momento sou membro da União Brasileira dos Escritores presidida pelo escritor Edir Meireles e secretariada desde sua fundação pela consagrada poeta Stela Leonardo. A entidade completará, em Agosto próximo, 50 anos. Por lá, já passaram nomes de peso na Literatura Nacional, e considero o convívio nas reuniões mensais muito salutar para minha trajetória como escritora.

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