Eu costumo dizer que o combate à corrupção no Brasil é como subir uma escada rolante que está descendo: se pararmos de subir os degraus, nós descemos até cairmos de bunda no chão. Aqueles que buscam criar ou retomar mecanismos para se beneficiarem em esquemas de corrupção ou se protegerem da justiça não param um só minuto. Então cabe a nós – agentes públicos, imprensa, entidades e sociedade – trabalharmos diariamente em prol do combate à corrupção.

A Operação Lava Jato nos fez pensar que havíamos chegado ao topo dessa escada rolante. Foram inúmeros políticos, empresários e gestores de empresas condenados pela justiça. Vários bilhões de Reais desviados em esquemas de corrupção foram recuperados. Personagens poderosos, que pareciam inalcançáveis, como Sérgio Cabral, Marcelo Odebrecht e até Luiz Inácio Lula da Silva foram presos. Parecia o clímax de um filme com final feliz para o povo brasileiro. Tudo isso de fato aconteceu, está em nossa memória, precisa estar nos livros de história e lá deve permanecer para sempre.

Infelizmente a história não acabou ali. As engrenagens do mecanismo da escada rolante continuaram a girar na surdina e a sociedade, achando ter chegado ao topo, parou de subir. Devagar, sem que a maioria percebesse, o combate à corrupção foi perdendo força e fomos descendo a escada. O caso mais simbólico, mas longe de ser o único, é o do ex-presidente Lula. Decisões recentes do STF, anulando suas condenações no caso do triplex do Guarujá, foram a expressão mais visível de como esse mecanismo é forte e resiliente.

Hoje o STF deverá confirmar uma decisão já consolidada na última quinta-feira, que o ex-juiz Sergio Moro foi parcial no processo em que condenou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no caso do Triplex do Guarujá. A maioria já está formada, já são 7 votos favoráveis à tese da parcialidade contra 2. Com os dois votos que faltam ser conferidos não há como reverter tal decisão, mas nada disso apaga a importância e o trabalho feito pela Lava Jato. Não torna Lula inocente, não apaga todas as provas e não pode esmorecer a sociedade.

Se o mecanismo é forte e resiliente, nós temos que ser mais. Se eles venceram dessa vez, nós já vencemos inúmeras outras e venceremos muito mais. Mas, para isso, precisamos avançar em medidas importantes para que a operação Lava Jato não seja mais um suspiro de esperança no meio de tantas derrotas. Pautas importantes tramitam no Congresso Nacional, como a Prisão em Segunda Instância, o Fim do Foro Privilegiado, o novo Código de Processo Penal, o Pacote de Projetos de Lei baseados nas 70 medidas contra a corrupção e a PEC do STF (PEC 225), e precisam avançar. A sociedade tem um papel decisivo nisso. É justamente quando estamos mais perto do fundo do poço que precisamos encontrar ainda mais forças. Cobrar, fiscalizar, dar voz ao que realmente importa, às pautas que são importantes para o Brasil avançar. Nesse sentido, para auxiliar a sociedade a amplificar seus anseios, divulguei um abaixo-assinado para fazermos a PEC do STF (225/2019) tramitar. A discussão proposta tem o objetivo de garantir maior distanciamento entre a corte e aqueles que são julgados por ela ao alterar os pré-requisitos dos indicados, a forma de indicação e o prazo de mandato dos ministros do STF. Os parlamentares são movidos pela voz das ruas, das redes, do povo. Cabe a cada um de nós fazermos a nossa parte, ou melhor, mais do que a nossa parte

Assine agora o abaixo-assinado em apoio à PEC 225/2019: bit.ly/pec225já

4 COMENTÁRIOS

  1. Num país sério bandidos que são Sérgio Moro e Deltan Dalahol estariam cumprindo pena de prisão perpétua. Você Paulo Ganine faz parte do sistema passando o pano para esses corruptos e dando uma de falso moralista. O seu partido de Novo não tem nada,defende essa elite corrupta que está no poder a 520 anos!

  2. Constituição do caos, da impunidade e do desmando monocrático…

    A “colcha de retalhos” de 1988 foi o resultado de uma mistura explosiva de interesses populistas e presidencialistas do tetra-presidente Ulisses Guimarães e dos interesses parlamentaristas de Tancredo Neves, o único primeiro-ministro da República.
    Com o falecimento de Tancredo Neves, o saco de gatos deveria ter a boca amarrada e ser entregue logo à população, inconsequentemente, enquanto os parlamentares (e o judiciário) festejavam o início dos “direitos sem deveres” …
    Assim, inaugurou-se a era em que todas as autoridades(?) tinham direito a tudo e não havia mais hierarquia na liderança da nação.
    Agora, mandava mais quem estivesse de posse do Tesouro Nacional e comprasse mais consciências com o dinheiro público.
    O comércio de votos pelos tribunos mercenários virou regra, enquanto as diretrizes e planos de qualquer novo presidente somente valeriam se muito bem pagas…
    Vive-se atualmente a impossibilidade de implantação de qualquer programa de governo que não contemple a corja dos viciados no toma lá dá cá.
    E isto é evidente na mídia, quando se observa que não havendo o contumaz suborno e a corrupção generalizada, NADA SE CONSEGUE FAZER NO PAÍS, por mais bem intencionado que se esteja, por mais benéfica que seja a iniciativa.
    Para os corruptos e interesseiros, o caos significa oportunidade de conquistar mais poder e derrotar, custe o que custar, qualquer indício de ordem e honestidade.
    Principalmente, quando se é apoiado pelo poder judiciário, cujos supremos representantes foram praticamente todos eleitos para amparar quem os elegeu.
    Está evidente, portanto, a necessidade de uma RENOVAÇÃO COMPLETA E URGENTE, respaldada por uma nova Assembleia Nacional Constituinte, em que se crie uma INFRAESTRUTURA REAL DE LIDERANÇA, capaz de verter para todos os níveis hierárquicos inferiores uma proposta, onde o povo passará a ser beneficiado pelo imposto que paga, em vez de observar indefeso, o seu dinheiro ser transformado em cobiça dos canalhas e degradação material e moral do seu país…
    Enquanto se joga o jogo dos adictos nos podres bastidores da politicagem, o Brasil se afunda em esforços vãos e resultados pífios, por conta de uma governança sem liderança patética, desmandos consecutivos, atitudes monocráticas e aumento do banditismo apátrida nas instituições e nos poderes constituídos(?).
    Sem uma atitude ENÉRGICA, onde se exponha a podridão reinante e um programa de recuperação da soberania nacional, continuaremos a ver o protecionismo derrotar a produtividade, a mãe da riqueza de uma nação, enquanto as oligarquias clientelistas e assistencialistas se sucederão no jugo do povo, sempre submisso pela ignorância, enquanto a tão falada democracia só é ressuscitada no dia do voto, revelando uma nova cepa daqueles que se servirão dos seus cargos, em vez de servir ao país.
    Acontece que um país somente pode se desenvolver quando o seu povo for desenvolvido…
    E neste caos, criminosamente engendrado, justamente por quem deveria ser responsável em assegurar o desenvolvimento, o que resta ao povo é o vitimismo, a dependência e a mendicância do que é dele por direito.
    Isto sim, é que é genocídio fascista…
    Na verdade, a tragédia ainda é maior, porque esses criminosos que se aboletam no poder, produzem o caos, em nome de interesses internacionais, tornando-se fantoches deploráveis, tanto aos olhos do país, como para quem os manipula.
    Senhores líderes de bom senso, o povo aguarda o final deste engalfinhamento futriqueiro, por meio pacífico…

  3. Caro batalhador Paulo Ganime,
    Desde sua entrevista ao Café Brasil, de Luciano Pires, sigo a sua trajetória e me admira a sua clarividência para as questões que tanto afetam a vida de todos os brasileiros.
    Acredito que a indicação para o STF NUNCA poderia vir do chefe do Executivo, mas sim, deveria ser o ápice de uma carreira jurídica, aprovada por toda a classe.
    Vemos um jurista do nível de Ives Gandra Martins ser preterido para o STF, enquanto advogados de partidos políticos, do MST e até do PCC, serem eleitos para este cargo tão importante, exatamente pela politização generalizada de todos os poderes.
    Está claro também que se o dirigente máximo da nação, o chefe do Poder Executivo, é o chefe de uma gangue e passa a subornar os outros dois poderes com dinheiros e ofertas de cargos públicos, não haverá instituição, estatal ou liderança política que resista a tal oferta.
    A Constituição de 1988 inaugurou a era em que todos têm direito, sem precisar cumprir qualquer dever e este foi o início do caos da liderança no país.
    A ausência de hierarquização na liderança, associada à invasão de comparsas nas instituições, destrói qualquer tipo de ética no serviço público e implanta a corrupção institucionalizada.
    Imagino que desmantelar o enquadrilhamento montado ao longo de 131 anos de oligarquias republicanas, bem como reeducar um povo viciado em viver de esmolas populistas, dadas por um Estado obeso e dominador, é tarefa para MUITOS homens bem intencionados, além de um processo educativo muito longo.
    Por isto mesmo, admiro ainda mais o seu trabalho e abomino ainda mais aqueles que se servem dos seus cargos, em vez de servir ao país.

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