Bumba-meu-boi. 1974, de Enrico Bianco, um dos artistas mais falsificados do Brasil

Obra de arte falsificada não é novidade para ninguém. O problema sempre existiu. Contudo, com o crescimento dos leilões online, aparentemente, tudo se agravou.

Pela Internet, é mais fácil de obras falsas serem vendidas. O principal motivo é a avaliação precária. Pessoalmente, especialistas em artes e colecionadores mais entendidos conseguem – na maioria dos casos – avaliar se a obra é verdadeira ou não.

Representantes de Di Cavalcanti, Milton Dacosta, Tarsila do Amaral, Frans Krajcberg, Alberto da Veiga Guignard, Rubens Gerchman, Djanira, Roberto Burle Marx e de Enrico Bianco vêm se queixando publicamente de falsificações negociadas em leilões online a preços muito abaixo dos valores corretos. Isso se dá porque são obras falsificadas.

Quadro falsificado de Di Cavalcanti era oferecido em site Antiquário Simões (que saiu do ar) por R$ 28 mil – valor muito abaixo das obras do artista.

“Têm galeristas que vendem obras falsificadas sem saber. Toda semana, eu acho uma obra falsa do meu pai pessoalmente ou na Internet. Sempre digo que 50% do que vendem do meu pai no Brasil é falso. No início dos anos 1980, eu achei a primeira. De lá para cá, vejo sempre. Meu pai tinha uma técnica muito específica, difícil de copiar, mas ainda assim é muito falsificado”, afirma Paulo Bianco, filho de Enrico Bianco.

Paulo Bianco (que é o responsável pelas certificações das obras do pai) diz que já foi até ameaçado de morte por conta de suas críticas às falsificações e vendas das mesmas.

Segundo estudiosos desses casos, este tipo de crime mostra não somente a deficiência ainda presente no combate, mas a falta que faz uma padronização dos atestados de autenticidade emitidos, principalmente em feiras de arte e leilões online.

Um fator de inibição de falsificações e consolidação do mercado de arte seriam certificados emitidos por experts de renome, que realmente conheçam o trabalho do autor – e não somente por herdeiros que, só pelo parentesco, sem especialização, possam eventualmente dificultar a montagem séria do cadastro das obras.

“A batalha contra a fraude no mundo da arte é cada vez mais necessária, não só no Brasil, mas em outras partes do mundo, e por isso, é preciso que as leis acompanhem esse processo se atualizando cada dia mais. Reflexo disso, é a criação de empresas voltadas à investigação de crimes relacionados à arte, como por exemplo, a K2 Intelligence de Nova York. Em matéria para o site creators, os detetives Arnold e Fishstein que trabalham na empresa, citam os avanços tecnológicos como os maiores facilitadores deste tipo de crime, pois eles não só ajudam a criar obras falsas, mas também documentos de proveniência das mesmas. Em suma, há muito ainda que deva ser feito e rápido, visto que a medida que o tempo passa e a tecnologia se torna melhor e mais eficiente, esse tipo de crime também se torna mais fácil de ser executado e em maior escala também”, frisa Gustavo Martins de Almeida conselheiro do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e advogado do Sindicato Nacional dos Editores de livros, além de membro das comissões de direito autoral e entretenimento da OAB-RJ e IAB-RJ.

Menina e Borboletas, 1950, Milton Dacosta, um dos pintores mais falsificados do país

Ainda de acordo com Gustavo, essa padronização é uma maneira de unificar a forma de apresentação das informações do mercado e dar maior segurança aos consumidores por ocasião das vendas públicas. Considerando o aumento do número de colecionadores de obras de arte no Brasil – principalmente arte contemporânea, de autores ainda vivos – e no mundo, muitos deles principiantes, que precisam saber como funciona o mercado.

O presidente da Bolsa de Artes do Rio, Jones Bergamin, explica que são corriqueiros os casos de falsificações que chegam à entidade para avaliação.

Carlos Dale, um dos sócios da galeria de arte Almeida & Dale, fala sobre o crescimento das falsificações de obras de arte vendidas na Internet: “Acho que sempre existiu, mais hoje você tem a internet e tudo é mais possível de se checar, mais sem dúvida também o mercado de arte cresceu e junto com isso as falsificações”, conta ele, que completa:

“Obra de arte tem que ter origem, e essa origem tem que ser possível de ser checada, não existe quadros sem origem, outro ponto seria comprar quadros em galerias e leilões com tradição no mercado de arte, com empresas estabelecidas, que conhecem as obras de arte que estão vendendo. Você tem também comitês e instituições que organizam e emitem certificados de autenticidade, nos podemos citar o Projeto Portinari como exemplo”.

A Polícia Civil do Rio de Janeiro e o Ministério Público Estadual informaram à reportagem do DIÁRIO DO RIO que, no momento, não há nenhuma investigação em curso sobre os casos de vendas de obras de arte falsificadas na Internet. Contudo, eles destacam que sabem da existência do problema e estão sempre atentos à questão.

A Lua, de Tarsila do Amaral, outra artista bastante falsificada

O presidente do Procon-Rj, Dr. Cássio Coelho, disse que o órgão vai abrir uma investigação para garantir que os consumidores de obras de arte não sejam lesados por conta dessas ações criminosas.

Uma forma de evitar cair na fraude de comprar uma obra de arte falsificada é fazer comparações de preços, utilizando sites como o Catálogo das Artes – que mostra os verdadeiros preços das obras – como parâmetro.

Você não vai comprar uma obra de arte rara por um preço extremamente baixo. Isso não é existe. Então, é sempre bom ficar atento aos valores cobrados“, pontuou Marcelo Andrade, colecionador de obras de arte.

1 COMENTÁRIO

  1. Só completaria que preço não é tudo, não se pode julgar por preço, marchands inflam preços e especulam e criam até cartel nesse mercado: A Almeida e Dale investigada na lava jato por quadros comprados a 45 mil e vendidos por 850 mil. Tem quadro comprado em leilão em São Paulo por 200 mil e aparece na SP Arte meses depois por 2 milhões.

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