Felipe Lucena: Os tempos são outros, os erros os mesmos

Há décadas o Rio de Janeiro aplica um modelo de segurança pública que resulta em muitas mortes e o domínio de regiões do estado por grupos armados só aumentou

Viatura da Polícia Civil nos arredores da Vila Cruzeiro, na Penha, Zona Norte do Rio
Viatura da Polícia Civil nos arredores da Vila Cruzeiro, na Penha, Zona Norte do Rio - Foto: Fabiano Rocha/Agência O Globo

Há 20 anos, na Vila Cruzeiro, o jornalista Tim Lopes foi morto por traficantes. Ele estava preparando uma matéria para mostrar o domínio da região por grupos fortemente armados, entre outros crimes. Há bem mais de 20 anos a segurança pública do estado Rio de Janeiro lida com o problema da ineficaz forma de sempre. A situação se repetiu nesta terça-feira, 24/05, na mesma Vila Cruzeiro. É um eterno enxugar gelo. Gelo cheio de sangue.

A operação policial desta terça deixou (até o momento da publicação deste artigo de opinião) 21 pessoas mortas e outras feridas. Uma das vítimas foi uma mulher atingida por uma bala perdida. Ela não estava envolvida no conflito. De acordo com a Polícia Militar, agentes do Batalhão de Operações Especiais (Bope), da Polícia Federal e da Polícia Rodoviária Federal foram atacados quando iniciaram uma “operação emergencial” para prender traficantes que estariam escondidos na comunidade. Moradores relatam tiros na região ao longo de todo o dia. Escolas e unidades de saúde tiveram os serviços suspensos. O Ministério Público disse que vai apurar a ação.

Há quem defenda este tipo de ação, inclusive aqui no DIÁRIO DO RIO. Contudo, a história do Rio de Janeiro mostra que este modelo de segurança pública não é eficaz. Se funcionasse, considerando as décadas que este tipo de estratégia é aplicada pelas forças de segurança, estaríamos vivendo no paraíso. Mas quem mora em favela no Rio sabe que até do purgatório estamos longe. Principalmente em dia de operações do tipo.

Estas ações, em muitos casos, terminam em mortes. Seja de inocentes, policiais, traficantes ou milicianos. No dia seguinte, os mortos são enterrados e a vida continua. Inclusive com os mesmos grupos tomando conta dos mesmos lugares, com outras pessoas nos lugares dos que morreram. Também em muitos casos, o saldo de apreensões de armas e drogas das operações é baixo em relação ao que poderiam alcançar caso a tática fosse diferente.

As maiores apreensões de fuzis da história do Rio de Janeiro não foram feitas em operações dentro de favelas. Elas foram realizadas no Aeroporto do Galeão e em uma casa, no Méier, que pertencia a um amigo de Ronie Lessa, acusado de ter assassino Marielle Franco e Anderson Gomes

Essa política de segurança baseada no conflito, dando o mínimo de prioridade à tecnologia, investigação e estratégia para combater o crime organizado tem esse resultado: vivemos em uma das metrópoles mais violentas do mundo. Segundo o Atlas da Violência de 2020, o Rio de Janeiro tem o segundo maior número de homicídios do Brasil.

Os policiais também sofrem com esse modelo de segurança pública. São eles quem vão para a linha de tiro matar e morrer. Secretários e governadores seguem blindados em seus gabinetes. Falando em governadores, em julho do ano passado, de acordo com dados do Fórum de Segurança Pública publicados na coluna do jornalista Guilherme Amado, no site Metrópoles, as gestões de Wilson Witzel e Cláudio Castro não investiram um centavo em informação e inteligência na segurança pública.

Ainda de acordo com o texto de Guilherme Amado, em 2020 e 2021, as despesas empenhadas foram apenas no policiamento, defesa civil e demais subfunções, que não são especificadas pela pesquisa. O dinheiro gasto foi apenas para manter a máquina funcionando, e não para pensar em um plano para uma das áreas mais necessitadas do estado, a segurança pública.

Esse modo de tocar a segurança pública se repete no Rio de Janeiro há bastante tempo. Somente com outra forma de combater o crime organizado somada a ações em outras áreas, como educação e geração de empregos, por exemplo, poderemos imaginar um futuro diferente e melhor. Este ano, temos eleições e já passou da hora de discutirmos novas estratégias para que um novo modelo de gestão neste campo seja aplicado. Caso contrário, viveremos para sempre nesta rotina de erros, medo, insegurança e mortes.

Este é um artigo de Opinião e não reflete, necessariamente, a opinião do DIÁRIO DO RIO.

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2 COMENTÁRIOS

  1. Lamento muito pelo discurso com falta de dados, isso, em minha visão, é falta de caráter e querer ensejo para uma narrativa, pois o Rio, está em 16 de 24 estados no ranking da violência no Brasil, pois o caráter vital são mortes por 100mil habitantes… esse é o principal critério! Se fizesse uma mega operação que sufoque a Vila Cruzeiro… você acha que sairiam menos de 200 fuzis?! Já foi lá, na grota, por exemplo… nunca, né?!? Então não fale de papéis enquanto a realidade não bate na porta do seu carro com uma pistola apontada para sua cabeça, como foi meu caso que possuo até hoje a cicatriz de 6 pontos por levar uma coronhada gratuita depois de avisar que soltaria meu cinto… todo cidade de bem, sem passagem pela polícia, após teste psicológico e exame prático, deveria ter uma arma de fogo fornecida gratuitamente pelo governo… duvido que aqui no Largo do Machado por exemplo, mais de 100 pessoas passando ao mesmo tempo, 30 estivessem armadas, aconteceria um assalto qualquer… nunca mais teria… quem quiser tirar suas dúvidas sobre armamento civil, leiam o livro do Bene Barbosa – Mentiram pra mim sobre o desarmamento. Nele possui DADOS INSTITUCIONAIS como da OCDE, Governos… não de ONGS ou meras opiniõesde quem vive em uma bolha… dados verídicos… enquanto o pseudojornalista permanece em seu ar condicionado, sentado, se imaginando um formador de opiniões, cabeça “pensante”… se armas fossem o problema, o maior número de homicídios não seriam causados por facas… vão
    proibir elas também?!? Pessoas morrem todos os dias porque pessoas ruins já estão armadas e o cidadão de bem, não…

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