A Idade Antiga consagrou Jorge da Capadócia um dos maiores santos do altar cristão. Nascido na região da Capadócia, na Turquia, entre os anos de 275-280 e morto no dia 23 de abril de 303, também na Turquia, na região da Nicomédia, Jorge nos regala com uma história que mesmo em tempos hodiernos nos provoca fascínio. Quando, por curiosa busca, acessamos tal história, havemos de atentar para o seguinte fato: a vida de Jorge se situa num estreito que se divide entre o real e o fantástico, a evidência e o simbólico, a verdade de fato e a verdade oral.  No que compete ao real, os livros de história dão conta da biografia de Jorge. De sangue turco, Jorge era dotado de força física e espiritual exemplares. Não poderia ser diferente para alguém que nasceu na Capadócia. Etimologicamente, Capadócia [Katpadukya, no vocábulo hitita], significa “terra de cavalos de raça”. Herdando atributos comuns aos cavalos de raça, como a garbosidade, a bravura e a resistência, Jorge não era só o grão dessa terra, mas também um desses cavalos poderosos que ousou enfrentar a opressão e a violência de um estado militar.

 Órfão de um pai morto em batalha, na infância Jorge mudou-se para a Palestina, a fim de morar com Lida, sua mãe, que o proveio com afetividade e com uma boa base educacional. Tal qual Alexandre, o Grande, teve seu preparo espiritual orquestrado pela força materna e feminina. Na adolescência, Jorge encaminhou-se para a vida militar, sendo rapidamente reconhecido por seu talento combativo e promovido a capitão do exército romano. Respeitado pelos altos comandos, aos 23 anos foi agregado à corte imperial na Nicomédia, região dominada pelos romanos. Lá assumiu a patente de Tribuno Militar, uma espécie de magistrado ordinário que possuía uma função executiva de grande porte que exigia, acima de tudo, perícia equestre.

Assim se firmou o cavaleiro Jorge: convivendo com a rotina militar romana. Desse modo, testemunhou as mais diversas barbaridades do exército ministradas à comunidade cristã. Atordoado com as perseguições e crimes pastorados por Diocleciano – queplanejava dizimar os adeptos do cristianismo – Jorge se contrapôs àquele estado de coisas. Por ser abastado com as riquezas deixadas por sua mãe, Jorge começou a ajudar os cristãos oferecendo-lhes seus bens. Também influenciado por Lida, o cavaleiro se enfronhou com o cristianismo que a mãe lhe ensinou, tornando-se um de seus adeptos e disseminador do discurso evangélico.

Jorge brincou com a sorte ao se recusar a aceitar o decreto genocida do senado. Manifestou-se na tribuna, considerando absurda a proposta persecutória da corte imperial, que dizimaria os cristãos. Desafiou o senado admoestando que o império romano deveria aceitar o cristianismo em vez de expatriá-lo. Sendo questionado por um cônsul do porquê daquela advertência pública e afrontosa, Jorge justificou: “eu sou servo de meu redentor Jesus Cristo e, Nele confiando, me pus no meio de vós para dar testemunho da Verdade.” Dali em diante, foi torturado diversas vezes, a mando do imperador, a fim de dissuadir de sua fé, mas sem êxito. A cada nova sessão de tortura, sua fé se fortalecia. Até que, em 23 de abril de 303, foi degolado. 

Pela evidência histórica, deduz-se um sentido ético profundo da vida do destemido e fiel Jorge. Como um bom cavalo de raça, Jorge alternou seu espírito entre o “sangue quente” e o “sangue frio”, entre o ímpeto e a prudência. Arrostou inimigos e acolheu pobres e oprimidos. Todavia, pelo simbolismo, deduz-se, ao contrário, um sentido religioso, um significado transcendental que alimenta a fé daqueles que se inspiram em sua imagem, como podemos notar na Oração de São Jorge: “eu andarei vestido e armado com as armas de São Jorge, para que meus inimigos, tendo pés, não me alcancem, tendo mãos, não me peguem, tendo olhos, não me vejam e nem em pensamentos eles possam me fazer mal.”

O poder da imagem é o que fermenta a fé. Já havia assinalado essa questão no artigo “Noites de Getsêmani”, publicado nessa mesma coluna. Se não acessamos à vida de deuses e santos, se algo resultou insondável, pelo mistério, o que nos cabe é a imagem que deles ficou como legado. As imagens que o cavaleiro Jorge suscita (a couraça, a lança, o cavalo, etc.) causam impacto no imaginário popular, atraindo devotos e consolidando a fé em Cristo. Mas quero destacar aqui a imagem que creio ser a mais fascinante, posto que envolve Jorge numa redoma romântica que extrapola os limites da religião, a ponto de aí haver também um sentido erótico.

No evangelho de Mateus (16:24-26) há uma passagem que diz o seguinte: “se alguém quiser vir após mim, que renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me”. Jorge assim o fez: abriu mão do poderio e da honra militares e das benesses materiais para seguir seu coração. Foi o “cavaleiro da fé”, no entender do filósofo Kierkegaard; pois, assim como afirma o padre Jerônimo Gasques, Jorge “foi um Evangelho vivo”. Tomar a cruz e seguir Cristo é enfrentar o peso mais pesado: a morte. Jorge se deparou com ela, na medida em que lutava contra o mal.

No aspecto simbólico da vida de Jorge, o mal é encarnado na imagem do “dragão”. O mal não é somente a morte, mas o que nos mortifica, conforme nos fala São Francisco de Sales, a saber: “o mundo e a carne”, enfim, o pecado; e o pecado é a intolerância, a violência desmedida, a cegueira, o fanatismo. Jorge ousou defender a cidade de Silena, na Líbia, da sangria desatada que foi a campanha anticristã de Diocleciano. Pelo relato da lenda feito pelo arcebispo de Gênova, Jacopo de Varazze, Jorge, ciente de que a filha do rei seria entregue ao sacrífico, para que o dragão se acalmasse e não invadisse as muralhas da cidade, salvou-a do perigo. “Em nome de Cristo” avançou sobre o dragão com seu cavalo e sua lança, derrubando-o no chão.

 Vencido “o sopro do dragão”, capitulou-se a opressão do estado pagão romano e assim o rei se converteu ao cristianismo, levando a cidade de Silena a receber o corpo de Cristo em batismo. A compensação do sacrifício de Jorge, como na maioria dos casos dos finais relegados aos cavaleiros heróis, foi o amor. Na verdade, por amor a Cristo mais amor ele galgou. Reza a lenda que São Jorge se assenhoreou do céu e que habita a superfície esponjosa da Lua. Na Lua, Jorge se entregou novamente ao amor, transpondo o sentido religioso para o sentido erótico.

Na maioria dos relatos, Jorge seguiu até a Lua, pós-morte, mantendo sua luta incansável contra a maldade do dragão. Preferi, no entanto, adotar a perspectiva do imaginário popular, presente na bela canção do paraibano Zé do Norte (1908-1992). Nela enfatiza-se o sentido erótico que me parece curioso quando destacamos Jorge como santo; mas que, no aspecto heroico, me parece bastante justo, haja visto que, entre outros heróis, o sacrifício – como no caso de Perseu – foi compensado não só com a glória, mas também com o amor da donzela.

Zé do Norte, um dos maiores nomes da música nordestina, compôs em parceria com Zé Martins “Lua Bonita” em 1953, um xote delicioso, acompanhado de flauta e de um coro de vozes.  A letra da canção é de um lirismo tocante e versa sobre a relação de Jorge com sua donzela, a Lua. É o poeta, olhando de baixo para cima, quem revela nuances do amor insólito entre o homem e o céu. O poeta não tecerá comentários sobre aspectos físicos da amada. Pouco importa se a Lua de São Jorge é “soberana”, “nobre porcelana”, se é “mãe, irmã e filha de todo esplendor”, como canta o lirismo de Caetano Veloso. O que está em jogo não é envaidecê-la.

O poeta nordestino se desfia em outros afetos. O primeiro deles é o amor: “Lua bonita/ se tu não fosses casada/eu preparava uma escada pra ir no céu te buscar/ se tu colasses teu frio com meu calor/ Eu pedia ao nosso senhor/ pra contigo me casar”. Em seguida, sem transições, sabemos que o poeta se enciúma e entendemos o porquê: “Lua bonita/ me faz aborrecimento/ ver São Jorge no jumento/pisando no teu clarão”. A canção de Zé do Norte nos mostra que a Lua ultrapassa a condição de simples satélite a serviço do Sol; que, antes, a Lua é a estrela feminina do universo, a donzela cósmica por quem poetas e heróis se arrefecem de amor.

Na opinião do poeta, mesmo merecendo, Jorge não é sensível à majestade e à liberdade de sua noiva. A grandiosidade do cavaleiro toma conta do espaço inteiro da Lua, absorvendo-a toda para si. Jorge é a mancha tatuada no corpo lunar, como prova de fidelidade conjugal. Mas o poeta questiona: “por que casasses com um homem tão sisudo/ que come, dorme, faz tudo, dentro do seu coração?/ Lua bonita/ Meu São Jorge é teu senhor/e é por isso que ele ‘veve’ pisando teu esplendor”. Depois o poeta apela em vão: “vem cá para o meu lado/ pra gente viver sem dor”. Apesar dos esforços, o poeta será sempre um apaixonado pela Lua, à distância, sem tocá-la; quem a conquista e a assedia é o cavaleiro da fé, sobre a qual ergue morada eterna.

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