Filipi Gradim: Maiqueljequear o que há de bom 

A celebração aos 40 anos do álbum Thriller de Michael Jackson

No ano de 1985, a Beija-Flor de Nilópolis desfilou na Marquês de Sapucaí com o enredo A Lapa de Adão e Eva, consagrando-se vitoriosa com o vice-campeonato. O divertido samba, composto por Carlinhos Bagunça, Carnaval, H.O., Patrício e Zé do Cavaco, tem como estribilho um verso que dá título ao presente artigo e que diz assim: “vem lourinha, vem sambar/o crioulo só quer michael-jequiar”. Não fosse o curioso jogo de palavras que sintetiza a disjunção de imagens formada pelos pares lourinha/crioulo e sambar/michael-jequiar, o samba não seria tão incrível do ponto de vista criativo, já que a cadência acelerada e marcheada e a letra pegajosa depõem contra a qualidade compositiva e musical do hino da agremiação de Nilópolis. 

Como consequência óbvia que correlaciona samba e desfile, a Beija-Flor apresentou uma alegoria em que a figura icônica de Michael Jackson aparecia como um boneco articulado, tendo à testa o destaque da apresentadora Xuxa Meneghel, portando enorme peruca loura. O delírio produzido pelo carnavalesco Joãozinho Trinta tomou carona na onda pop que assolava o mercado da música naquela primeira metade dos anos 80. E como Joãozinho era antenado a tudo o que acontecia no cenário cultural, empreendeu o recurso antropofágico de assimilar a potência artística de Michael Jackson e de introduzi-la no baticumbum do samba. Obra de gênio. 

Em 1985, era inevitável não se pensar em Michael Jackson, já que naquele momento o artista estadunidense colhia os frutos do sucesso das vendas de Thriller, seu último disco. Segundo as fontes, “o álbum ranqueou no posto Número Um, em fevereiro de 1983, se manteve em primeiro no ranking durante o tempo recorde de 37 semanas e vendeu em torno de 50 milhões de cópias em todo o mundo”[1]. Proeza dificilmente alcançada por qualquer artista até então, já que “no mundo como o de hoje, em que as vendas caem e os públicos se fragmentam, é quase impossível imaginar até que ponto esse disco dominou e unificou a cultura”[2]

Felizmente, pude adquirir uma das 50 milhões de cópias de Thriller, quando certo dia meu pai entrou em casa com um embrulho peculiar que eu já reconhecia ser o de um disco de vinil. Tinha 6 anos de idade – a mesma que a de Michael por ocasião de sua ascensão musical com o quinteto Jackson 5. Aquele disco imediatamente despertou fascínio em mim, em meus irmãos e primos. Como muitas famílias pretas do subúrbio, acostumadas ao som da black music, confraternizávamos e comungávamos daquela alegria domingueira: cantar e imitar os passos de dança do astro pop, maiqueljequeando como se não houvesse amanhã. Áureos tempos! 

A obra-prima Thriller foi lançada em 30 de novembro de 1982, pela Epic Records. A bela capa trazia Michael, com semblante sério, elegantemente vestido com um terno branco incandescente sobre um fundo preto. Apenas na capa o disco parece sisudo; talvez pela emergência que Michael tinha de ser reconhecido como um artista sério em relação ao passado infantil. O intenso conteúdo musical do álbum, no entanto, contradiz expectativas negativas, sendo o trabalho mais maduro do artista. Apesar dessa evolução, Michael não poderia prever o estrondo que causaria seu mais novo trabalho, já que a insegurança costumava perturbá-lo.  

A criação de Thriller se deu em meio a um sentimento de frustração que quase devastou o artista. Na premiação do Grammy de 1980, Off the wall (1979), seu álbum anterior, “só foi indicado em duas categorias. A música Don´t stop to get enough levou Melhor Performance Vocal de R&B”. Michael, que sofria de “inabilidade infantil de não conseguir lidar com rejeição”, trancou-se durante semanas dentro de casa, abatido por uma forte depressão[3]. Cristalizou-se em seu pensamento a certeza de que o fato de ter sido esnobado pelo Grammy teria sido por uma questão racial, já que dificilmente artistas negros conseguiam galgar um alto patamar como conseguiam os artistas brancos. Mesmo nos anos 80, o apartheid musical ainda persistia.  

No entanto, análogo ao mito de Fênix, “das cinzas surgiu a determinação” de responder à altura aquela fase depressiva[4]. Por isso, “para apagar a mágoa do Grammy, da brutalidade de seu pai e as dores da infância perdida, ele teria que fazer algo realmente extraordinário”[5]. Michael, então, buscou forças para se reestruturar, reavaliando seu passado, suas dúvidas e inseguranças, agarrando-se àquilo que o fortalecia. A primeira decisão foi manter a feliz parceria  com o produtor Quincy Jones, com quem trabalhou em Off the wall. Quincy, além de experiente no ramo da música, era um mentor diferenciado em relação a Joseph Jackson, pai de Michael. “Onde Joe era dominador e crítico, tentando conter o talento de Michael, Quincy era encorajador, colaborativo, ajudando Michael para que ele tomasse seu processo criativo”[6].  

 Em 1982, aos 24 anos, Michael caminhava, cautelosamente, passo a passo, reforçando sua necessidade de emancipação, e se aproximando do que seria o definitivo reconhecimento de sua genialidade. Dois anos antes, porém, já havia se enfronhado no estúdio caseiro de sua mansão na Califórnia, compondo suas próprias canções, logo após o lançamento de Off the wall. O material produzido nessa época serviu de base para o disco sucessor. Mas a construção de Thriller só se realizou a contento entre os meses de abril e novembro de 1982, quando Jacko, Quincy Jones, Rod TempertonBruce Swedien e Eddie Van Halen se dividiram entre três estúdios, na cidade de Los Angeles, para dar cabo daquele projeto ambicioso. Quincy declarou que “Thriller não é uma criação de Michael. É preciso toda uma equipe para gravar um disco”[7]

A produção de uma obra-prima não resulta fácil; ela é sempre um ponto de inflexão que exige os maiores esforços. “Trabalhávamos dia e noite, sem dormir, e houve um momento em que os alto-falantes pegaram fogo”, revelou Quincy[8]. Então, nos últimos dias de outubro de 1982, os envolvidos no projeto corriam contra o relógio para finalizar com maestria o produto. Antes disso, porém, em abril, Michael aproveitou a ocasião para lançar o single da canção que ele havia preparado, ainda no final da década de 70, a saber: The girl is mine, em que ele faz um dueto com Paul Mc.Cartney, e que figuraria anos depois no repertório do álbum Thriller.  

 A pedido de Quincy, Michael compôs The girl is mine, uma balada pop que narra a disputa entre dois homens, um branco e outro negro, pelo amor de uma mulher. O dueto funciona bem e transmite o clima descontraído de amizade entre os dois cantores, fortificado depois com outra parceria: Say, say, say (1983), para o álbum Pipes of peace de Paul Mc.Cartney. Na letra, Michael escreve: “não entendo esse jeito que você pensa/dizendo que ela é sua e não minha/mandando rosas e seus sonhos bobos/realmente uma perda de tempo/a garota é minha”. “Apesar de não estar à altura dos melhores momentos de Thriller, The girl is mine tem um encanto casual” graças ao esforço envidado para se imprimir uma sonoridade pop.  

 Desde Off the wall, Michael e Quincy sabiam como abrir um álbum. Em Thriller, a canção que dá início aos trabalhos é a empolgante Wanna be starting something que, da mesma maneira que The girl is mine, é herança da fase de transição entre os anos 70 e 80. Por isso, a canção guarda algumas semelhanças com a disco music. Mas, apesar da inspiração vir da década anterior, a linha de baixo de Wanna be starting something é bem mais eletrizante e já abre precedentes para o que seria uma estética pós-disco. Além disso, a canção recebeu influências do ritmo makossa, típico da república dos Camarões, pais africano visitado por Michael Jackson, em 1979. Michael retirou um trecho de Soul Makossa, de Manu Dibango, e introduziu-o na canção de abertura. E quando ouvimos o coro feminino cantar ma ma se, ma ma sa, ma ma coo as, o registro tradicional africano é harmoniosamente assimilado pelo mais moderno som.   

 Em seguida, a segunda faixa é a deliciosa Baby be mine, composta por Rod Temperton. A canção contém igualmente elementos da disco music, porém, de forma sintética, exime-se de fazer uso de toda a parafernália do estilo. A canção-título é a quarta faixa, disposta depois do dueto Jackson-Mc.Cartney. Thriller foi composta por Rod Temperton visando escrever uma canção teatral que conseguisse conciliar duas grandes paixões de Michael: o cinema e a música. Na introdução da canção, nota-se a intenção cênica: ouve-se uma porta rangendo, o som de um trovão, de ventos, de passos e cães uivando. Piano, sintetizador, bateria eletrônica, guitarra e saxofone formam a massa sonora, o plano de fundo da canção ritmada por uma incrível linha de baixo funkeada. A canção segue assim, nesse embalo, até o final apoteótico, acompanhada da sequência falada pelo ator de filmes de terror Vincent Price e por sua gargalhada indefectível. 

Depois da “noite de terror” promovida por “criaturas da noite” e “carniças pálidas de cada tumba”, vem a canção Beat it, composta por Michael Jackson. Beat it partiu da tentativa ousada de gravar um rock. Quincy então recrutou o guitarrista Eddie Van Halen, que esbanja potência e virtuosismo no solo que executa. Com ritmo “matador, com seu sabor de rock convincente e nada forçado”, a canção “demonstrou a maturidade de Michael como compositor”[9]. Bebendo da fonte de West side story, o cantor deu azo outra vez à paixão pela sétima arte e, na letra da canção, usou o meio narrativo para falar sobre a violência das gangues de ruas. “Você quer durão, melhor fazer o que puder/então, caia fora, mas você quer ser mau”. 

Outra composição de Michael, Billie Jean complementa a sequência poderosa de hits do álbum. Uma bem marcada linha de baixo de Louis Johnson tece o fio harmônico e melódico da canção, enquanto pulsa a bateria de Ndugu Chancler, causando o efeito dançante do funk. Por sua vez, o canto em falsete de Michael narra o drama de um homem acusado de falsa paternidade por uma mulher. Inspirada no assédio constante que alguns astros da música sofriam das groupies que se aproveitavam da fama e do dinheiro, Michael escreveu: “Billie Jean não é minha amante/é só uma garota que diz que sou o cara/mas o garoto não é meu filho”. Apesar de Quincy não ter aprovado a canção, Billie Jean provou o mérito de integrar o álbum, e de, consequentemente, impulsionar Thriller ao prêmio de Melhor Album no Grammy de 1984.  

As três últimas canções são as joias preciosas do álbum. A começar por Human nature, composição de Steve Porcaro e John Bettis que evoca atmosferas noturnas e é cantada de forma bastante intimista e quase sussurrada por Michael; é o conteúdo poético da canção que o induz interpretá-la assim, já que trata das inquietudes do homem urbano, inclusive bastante afinada à experiência pessoal de Michael quando precisou viver sozinho em Nova York: “olhando para a noite lá fora/a cidade pisca um olho que não dorme/ouço sua voz sacudir minha janela/doces suspiros de sedução”; ou então “me leve para a noite lá fora/quatro paredes não irão me segurar essa noite/se essa cidade é apenas uma maçã/então me deixe dar uma mordida”.  

Pretty Young Thing (PYT) chama-se o funk composto por James Ingram e Quincy Jones que segue a mesma fórmula dançante produzida pela inteligente soma de uma forte linha de baixo com riffs de guitarra, como encontramos em Billie Jean. Michael canta e fala, alternando os volumes da voz, em forte oposição ao charme da canção seguinte que encerra o álbum: The lady in my life. Composta pela mão romântica de Rod Temperton, Lady nos envolve em sua trama melodiosa de teclado e sintetizador. “Eu a manterei aquecida/através das sombras da noite/deixe-me tocá-la com meu amor”. Essa canção que nos arranca o fôlego com sua beleza, representa o momento em que, seguindo um arranjo sofisticado, impregnado de influências do jazz, Michael tem seu melhor desempenho vocal. Transitando da sensualidade para o arrebatamento, podemos disfrutar do canto cristalino de um impressionante intérprete.  

Com a mesma maestria com que abriu o trabalho, Michael encerra o disco provando em Lady in my life que não é mais o mesmo cantor engessado pelo formato da Motown. O disco encerra com uma elegância e uma maturidade tão evidentes que só podemos concluir que o artista superou de uma vez por todas não só as barreiras do racismo que esnobou seu talento, bem como as barreiras que o limitavam ao  paradigma da criança-prodígio. Então, não há mais o que dizer sobre aquele que considero o disco dos discos, o diamante verdadeiro da música.  


[1] LIGHT, Alan. Dançar até a eternidade. In: ORTELLI, Juan. Michael Jackson – edição especial de coleção, 1ª ed. Buenos Aires: La Nacion, 2014, p.46.  

[2] Idem, ibidem.  

[3] Documentário Man in the mirror. Direção: Ben Mole. Produção: Simon Ardizzone. ITV Studios, Limited, 2017.  Disponível em: Man in the Mirror | Doc. Completo e Legendado – YouTube 

[4] Idem.  

[5] Idem. 

[6] Idem.  

[7] LIGHT, ALAN. Op.cit., p.46.  

[8] Idem, ibidem.  

[9] Idem, p.51.  

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