Em razão da expansão global do novo Coronavírus e da ameaça de que, a qualquer momento, podemos ser vitimados pelo ataque invisível desse mal, vivo a quarentena. No entanto, vivo esse estado sitiado absolutamente sozinho, sem família e sem animais de estimação. Aos outros que se encontram por aí aquartelados, há algo a mais. Nem é preciso esforço de imaginação para saber que existem milhares de casas inteiramente preenchidas por seus moradores. Em tais casos, a quarentena está sendo compartilhada, diferentemente de mim, que só tenho ao meu alcance, com as pessoas, o contato virtual ou por telefone.



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Quando pensei na hipótese de que esse compartilhamento forçado (em que as famílias, com seus provedores impedidos de saírem para trabalhar e seus filhos afastados da rotina escolar) vem causando um estorvo diário nas relações – e até mesmo aumentando o índice de casos de violência doméstica contra a mulher – me veio de súbito a imagem de um texto dramatúrgico que, para mim, é um dos mais genais já escritos na história do teatro, a saber, “Entre quatro paredes” (1944), do escritor e filósofo francês Jean-Paul Sartre (1905-1983).

Não pretendo esmiuçar a relevância estética e dramatúrgica do texto dentro do quadro histórico do teatro contemporâneo, nem tampouco versar sobre os meandros da história dramatizada por Sartre. Apenas extraio dessa peça o seu conteúdo filosófico que reflete, consequentemente, o bojo do pensamento sartreano, o qual considero um dos mais potentes e mais atuais dentre todos. E, do referido conteúdo, aproveito para relacionar ao momento caótico em que vivemos, compreendendo as bases éticas que fundamentam a quarentena.

 Uma quarentena consiste, em geral, na relação entre o Eu e o Outro. No entanto, essa relação não é determinada, inicialmente, por deliberação, por desejo, mas pelo rigor da necessidade. Na peça “Entre quatro paredes”, os três principais personagens se acham presos dentro de um quarto minúsculo, mobiliado pomposamente, em estilo clássico, sem janelas e sem espelhos. O jornalista e escritor Joseph Garcin é o primeiro a ocupar o quarto. Desde saída ciente de que ali não é qualquer lugar, mas sim o inferno, e de que ele não está vivo, mas morto, então se questiona sobre os signos que simbolizam a imagem tradicional de inferno como o fogo, a grelha, etc. O recepcionista do local, achando patética aquela visão, nega a existência de quaisquer instrumentos de tortura, causando perplexidade em Garcin.

Em seguida, entra no inferno, a jovem funcionária dos correios Inês Serrano, morta por inalação de gás.  Inês entra no cômodo, inquieta, ainda apegada à sua vida terrena, procurando por Florence, sua amada. Questiona a existência de um carrasco, dado o fato de estar no inferno. Ao ver Garcin, Inês supõe ser ele próprio o carrasco, mas se engana. Inicia, desse modo, o primeiro mal-estar da peça, pois Inês, claramente homossexual, se sente incomodada com a presença de Garcin. Este, por sua vez, intimida: “ainda não começamos a sofrer, senhorita”.

Até que entra em cena a terceira e última pessoa confinada no quarto: Estelle Rigault, uma burguesa da alta sociedade francesa, recentemente morta por complicações de pneumonia e perturbada pelo sofrimento dos seus entes queridos. Estelle exibe um tipo apavonado e pedante e, por sua beleza, atrai a atenção de Inês, que a lisonjeia ao seu modo. Garcin lhe é indiferente, pois passa parte do tempo do confinamento tentando colocar “a vida em ordem”. Mas como colocar em ordem a vida em um ambiente fechado, quente e sem circulação de ar?

Por conta desses fatores, juntando-se ao fato de que os três são estranhos e que eles não sabem ao certo porque foram agrupados daquela maneira, a convivência começa a entrar em choque.  Garcin e Estelle acreditam que tudo foi feito ao acaso. Mas Inês, mais determinista, aposta que “tudo é previsto”.  Em certo momento, Inês quase compreende a lógica daquele confinamento: “eu sei porque nos colocaram juntos! (…) Não existe tortura física, não é? E, no entanto, nós estamos no inferno. E não vai vir ninguém. Ninguém. Ficaremos até o fim, juntos, sozinhos. É isso? Em suma, há alguém que está faltando aqui: o carrasco.”

Inês “quase” compreende porque será preciso estar dentro do conflito do confinamento para saber efetivamente (e não supor) do que se trata aquela relação. O que é inferno? O convívio forçado que prevê que “nós poderemos nos acomodar um ao outro”. E quem é o carrasco? O Outro com quem convivo. Mas do que se trata a convivência? A penetração na intimidade alheia. Inês quer saber porque cada um está ali. Estelle replica: “não tenho nada a esconder”. A partir daí cada um relata as razões que os levaram a morrer, abrindo campo para o Outro lhe infernizar, penetrando a intimidade. Estelle morreu por adultério. Garcin, fuzilado por fugir da guerra. Inês, por ter sido assassinada pela namorada Florence, ao inalar gás.

Em todo caso, o “inferno são outros”, como Garcin declara no final da peça. Ou seja, o Outro é aquele em quem estou confinado e para quem sou dependente de alguma forma. Mas que forma? Qual é a estrutura real existente entre o Eu e o Outro? Sartre escreveu a peça “Entre quatro paredes” em 1944, um ano após escrever “O Ser e o Nada”, como uma materialização, uma representação artística de dois conceitos-chave presentes em sua filosofia: o conceito de Outro e o conceito de Olhar, fundamentais para aclararmos as bases da interatividade humana.

Quem é o Outro? Em princípio, Sartre parte de uma negativa. O Outro não é. O Outro não é o Eu. Seu ser inicial se afirma negativamente porque, ao falar dele, partimos da perspectiva do Eu. Assim, o Outro é “o eu que não sou eu”. “O Outro”, afirma Sartre, “é aquele que não é o que eu sou e é aquele que é o que eu não sou”. Mas é preciso deixar claro dois pontos: o Outro, por se posicionar negativamente ao Eu, não está separado do Eu, ou seja, não é um objeto à parte, estranho ao Eu. Também o Outro não se posiciona em relação ao Eu de forma vaga e falsa. O que o Outro pensa ou vê ao meu respeito não é uma mera representação de sua imaginação, mas sim podemos considerar que a experiência do Outro é válida e possui consistência do ponto de vista do conhecimento. O Outro, mesmo fora de mim, me conhece.

Ou melhor: o Outro me reconhece. Ele está fora de mim, como um ser-outro, um Eu diferenciado, mas nunca está distante ou abstraído. O Outro é, acima de tudo, outra experiência e não uma experiência qualquer. A experiência do Outro é uma mediação. Pois, através do Outro, o Eu sabe-se enquanto objeto. Na medida em que estou só, não sou visto, mas basta que me encontre diante do Outro para ser-sujeito, quer dizer, ser alguém para além de mim. Sartre diz belissimamente: “o Outro é o mediador indispensável entre mim e mim mesmo.”

Se o Eu está só, ele não é sujeito, nem objeto. Ele é uma experiência desconhecida de si mesmo. A experiência solitária coloca o Eu diante do mundo, mas não diante dele próprio. A solidão é escoamento de um alguém lançado num deserto ou numa floresta. Lá fora estão as coisas em torno de outra coisa que se desconhece como um alguém. Por isso, é preciso haver o Outro, como necessidade de que o Eu se reconheça enquanto tal. O Outro, ao aparecer, se torna o que diz Gary Cox, comentador de Sartre, um “dreno em meu mundo e uma ameaça à centralização que eu afeto, ele permanece como um objeto em meu mundo”; e, assim, o Eu deixa de reinar sozinho, com sua “gloriosa supremacia divina”. O Outro me reorienta no mundo.

De que forma ocorre essa reorientação? Através do Olhar. Sem o Outro, ou seja, sem esse ser que não sou eu e desse não-ser que eu sou, o Eu submerge em suas próprias ações e sentimentos, então fica condenado ao solipsismo, ao estado vago e misterioso das experiências que não são compartilhadas. Mas dentro de um espaço em que precisa estar confinado junto com o Outro, o reconhecimento se dá, quer dizer, o Eu se vê enquanto sujeito. E daí começa o inferno. É o Olhar do Outro sobre mim, sou eu posto diante de Outro-eu, que me reorganiza.

Afirma Sartre: “o Olhar do Outro, na medida em que o apreendo, vem atribuir ao meu tempo, uma dimensão nova”. Quando o Outro me vê, ao conviver comigo, de início, me angustia, me desarticula, me desarma, enfim, me inferniza. Apenas nesse primeiro momento ele é um confinamento perigoso, invasivo. Estou condenado ao olhar alheio. O Olhar do Outro é o carrasco que me persegue, pois ele penetra no meu tempo. Mas esse penetrar me liberta.

Na medida em que convivo em quarentena, em um primeiro momento, sem reflexão profunda sobre isso, o Outro é um objeto estranho a mim, mesmo tão familiar, mesmo sendo tão consanguínea a relação entre nós. No entanto, se me desloco desse centro e me abro, se me desapavoro porque devo conviver com o Outro, o Outro se torna minha liberdade, já que é através dele, independente do espaço em que convivemos, que podemos experienciar a nós mesmos “como um objeto para o Outro”, como ser-presente fora de mim, de modo a experenciarmos a nós mesmos como sujeitos, como pessoas que somos e que não conseguimos detectar sozinhos, a não ser por esse exercício incômodo e libertador que é o Olhar do Outro.

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