Foto: Divulgação

A memória é uma afetividade permanentemente recuperada. Em épocas como o Natal me vejo confirmando a tese bergsoniana de que quando nos recordamos de algo, na verdade, não retornamos ao que perdemos; mas, antes, recuperamos o que nunca deixou de nos acompanhar. Dezembro carrega a marca de muitas lembranças, mas a mais viva e latente delas é a lembrança do Filipi menino que folheava a Bíblia ilustrada que ficava aberta, sob a mesa da sala, à disposição de quem quisesse vê-la. Todo Natal eu era tomado pelo encantamento cristão, mergulhando nas cenas da natividade de Jesus, que só depois atinei que eram pinturas de gênios da arte, como Rembrandt ou Coreggio. Amava ser cristão porque esse amor representava a entrega a certo universo de mistério e de luz. Não compreendia Jesus; eu o adorava, apenas.

Hoje, adulto e distanciado do catolicismo – todavia não menos distante do cristianismo – ainda me surpreendo emocionado com as mesmas pinturas. Cristo vive em mim cada vez que recupero o cristão que ainda sou. Trata-se de uma armadilha da memória que, num deslize da atenção, nos fisga e nos coloca novamente diante de nós mesmos. Meu afeto por Jesus era e ainda é o amor. Mas, enquanto a afetividade, no campo da religião, configura essa disposição de ânimo chamada fé, no campo da filosofia, a afetividade dá lugar à necessidade de compreensão e de razão. Por isso, mais envolvido com o pensar do que com o crer, é importante pôr às claras quem é Jesus e porque ele nos encanta e nos enreda com sua aura de divindade.

Nas obras do filósofo alemão Hegel encontro algumas definições pertinentes ao que pretendo defender nesse artigo. Mas é também nas parábolas narradas pelos evangelistas que podemos confirmar o que a filosofia analisa com distanciamento emocional e sem fantasias de qualquer ordem. Pela ordem lógica, não podemos abordar conceitualmente o filho, sem antes falarmos do pai. Logo, é de vital importância compreendermos quem é Deus.



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Na visão de Hegel, Deus é Espírito. Espírito, por definição, “é a essência absoluta real que a si mesma se sustém”, ou seja, espírito é uma substância, um ser consistente, denso e intenso que age e pensa por si. Sendo substancial, o Espírito é ação diretiva e consciência livre. Além do mais, Espírito é “essência universal”, quer dizer, a verdade que amplifica e que é sempre “igual a si mesma e permanente”; é uma substância “inabalável e irredutível” que fornece o “fundamento e ponto de partida” para tudo o que existe, existiu e existirá. Logo, Deus é Espírito e, sendo assim, é o próprio universo em ação, em torno do qual funda e move uma História.

Deus em nada é estático. Pelo contrário, ele é uma substância ativa; sua dynamis é “o movimento do pôr-se-a-si-mesmo”. Quer dizer, ele próprio é o universo que cria e quando cria, cria a si mesmo. “Deus”, afirma Hegel, “possui os atributos da unidade e da universalidade”. Enquanto ele se encontra aí, universal e substancial, ele é pura independência e abstração. No entanto, “por sua natureza” ele “é também essencialmente determinado e, subtraindo-se por isso à abstração, torna-se acessível à intuição e à representação figurada se presta.” O que Hegel quer dizer é que, mesmo sendo unidade, o Espírito, que é Deus, também se torna diverso.

Para Hegel, Deus se decompõe e se deflagra, por isso, não se limita a ser uma abstração, um isolamento ou qualquer ideia de distância transcendente. Para impedir qualquer suspeita de sua existência, Deus, ao agir, cria a si mesmo e dá a si mesmo uma representação figurada. Ou seja, Deus cria a si mesmo como um espelho, oferecendo ao mundo físico e terreno uma demonstração da substancialidade e da grandeza desse Espírito. Logo, Deus não é uma suposição, mas se faz presente; e sua presença é marcada na carne. Deus se manifesta de forma determinada e nos prepara uma realidade espiritual que, por ser assim, está afinada com seu ser pleno e indestrutível. Cristo é, então, a efetividade dessa passagem que Deus promove, transitando do mundo universal da substância para o mundo particular da realidade viva.

Deus, envolto na espiritualidade ativa e consciente de suas próprias forças, apresenta-se como “particularidade da realidade humana”; e ele o faz no intento de transbordar de si para si, de evanescer sua autossatisfação, para se introduzir no âmbito da história. Na história, com seus movimentos imprevistos e conflitantes, com seus devires, suas idas e vindas, Deus se manifesta como o Cristo que, numa determinada época e local, cristaliza a substância divina entre os homens.  Na pele de Jesus, Deus se encarna “em tudo o quanto o homem sente e sofre, quanto quer e realiza”. O santo encarnado é o ser-histórico “que o espírito de Deus anima”.

Jesus é, então, o Deus que caminha na terra e, por essa razão, que entra em ação e sofre a violência das paixões. Mas, apesar disso, não interessa se deter apenas na trajetória desse Deus peregrino, porque sua história se resume em uma série de fatores externos e circunstanciais que só dizem respeito à encarnação do Espírito. O que vale em Jesus é o Espírito em si mesmo e não o espírito encarnado, por mais que a carne tenha sido fundamental para tornar concreto o agente sagrado de Deus. A carne nos ilude; ela é somente o efêmero de Deus e não o próprio Deus. Hegel afirma: “Reconhecemos a Deus em espírito e verdade. (…) o espírito só percebe o espírito”, quer dizer, a consciência, em níveis espirituais, “só percebe o espírito”.

Jesus é o homem individual, um ser carnal, determinado, nascido em Belém e criado em Nazaré, numa situação de exílio forçado. É o unigênito do carpinteiro José e de Maria e representa a mais alta herança da longa genealogia que remete a Abraão. Mas, quando Hegel diz que Deus é reconhecido apenas em espírito e verdade, ou seja, apenas como ser substancial, inabalável e autossuficiente, significa que, para além do homem temporal, para além do Jesus caminhante, há o espiritual que é o Cristo; ou, como diz São Mateus, há o “Emanuel: que é traduzido Deus conosco.” Ser Jesus representa ser este homem, com as demandas normais de um homem natural; mas ser Cristo é ser outro homem: representa ser o Deus encarnado no mundo.

A consciência da vinda do Deus peregrino pelos reis magos do oriente é a confirmação do que Hegel nos fala a respeito do que seria a religiosidade. A religiosidade é consciência “expressamente dirigida ao coração e ao sentimento” que entra na “esfera da subjetividade” e que resulta em uma revelação. Em tal situação, o espírito fala ao próprio espírito imediatamente e lhe comunica a presença de Deus. Foi tão poderosa a consciência religiosa dos reis magos que, diante da manjedoura, eles brindaram o Filho do Homem com dádivas espirituais já presentes no caráter espiritual de Cristo, a saber: o ouro (a radiação e a riqueza de consciência), o incenso (o poder de elevação e de encantamento) e a mirra (o poder de purificação e benção).

Da manjedoura à morte, Jesus peregrinou pela terra exercitando suas dádivas divinas com o propósito de expandir o território da cristandade, ou seja, expandir a verdade do Espírito. A verdade do Espírito é o que diz Hegel: “conhecer a Deus”; conhecer a Deus, porém, quer dizer reconhecer que o espírito “patenteia-se a si mesmo enquanto se produz, enquanto dá testemunho de si e enquanto se manifesta”. Por isso, a missão do Messias é dar prova da substancialidade do pai, usando seu expediente divino que, na verdade, é a religião do amor.

São duas as formas que Cristo tem para dar testemunho amoroso da verdade. A primeira é pelo batismo, em que a luz divina desce do céu à terra, “como uma pomba”, para jorrar seus eflúvios de calor e de vida; e a segunda forma é  o testemunho pela palavra, com a qual o Espírito se faz Verbo. Pela boca de São Mateus, João Batista nos anuncia Cristo: “eu vos batizo em água, na base do arrependimento; mas aquele que vem após mim é mais poderoso que eu; (…) ele vos batizará no Espírito Santo, e em fogo.” Depois São João diz: “e o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória.”

Cristo deu testemunho de Deus, o Espírito absoluto do mundo, o fundamento reinante de todas as coisas. Mas, como Deus é seu pai ele não pode negar sua carga genética, se Cristo é o filho do verdadeiro, ele também é o verdadeiro. No que podemos concluir que ele deu testemunho da verdade e ele próprio é a verdade que se fez testemunhar. No sermão da montanha, em que Jesus eleva a voz e entroniza a palavra, entendemos com distinção qual é a missão do “Cordeiro de Deus”: anunciar o “reino dos céus”. Para isso, Jesus tornou-se o pescador de homens. Conforme diz São Mateus, ele “percorria toda a Galileia, ensinando nas sinagogas, pregando o evangelho do reino, e curando todas as doenças e enfermidades entre o povo.”

Visando incrementar a cristandade, Jesus fez-se irmão dos desajustados, desassistidos, “endemoniados”, “lunáticos” e “paralíticos”, a fim de pescá-los contra todo o materialismo vigente. A pescaria era a cura contra o mal, a benção sagrada. Contra o Estado romano e toda opressão que ele infligia no povo, Jesus aclamou pelo Reino dos Céus, em que a justiça e a liberdade estariam garantidas em nome de Deus e para todo sempre, vencendo as contingências e limites da realidade física e terrena. As leis que governam os homens são leis do pecado e o pecado é a subserviência total ao domínio da matéria. “Arrependei-vos”, clama Jesus, pois “vosso Pai celestial vos perdoará a vós”. O Espírito é soberano em tudo, inclusive na misericórdia.

“Abri os olhos para o que os olhos não veem, mas o que a coração sente e cobiça”. Jesus reúne os homens em detrimento da bestialidade que o materialismo protela. Por isso, ao ouvir o chamamento de Deus, não pelo ouvido, que é carnal, mas pela fé, que é espiritual, o homem se liberta. Ao se libertar, ele será um bem-aventurado, gozando de riquezas substanciais e verdadeiras, ajuntando “os tesouros no céu, onde nem a traça nem a ferrugem consomem, e onde os ladrões não minam nem roubam” e assim será consolado, purificado e restaurado.  

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