Foto: Leandro Neumann Ciuffo - Câmara dos Deputados

Nos últimos anos, mesmo que por vezes de forma atabalhoada, vemos um crescimento do interesse da população pela política. Temos infindáveis discussões nas redes sociais, “textões”, “lacrações”, “mitagens” e todo o gosto de posicionamentos e verdades absolutas sobre o tema. É óbvio que o debate e os posicionamentos são importantes, mas essa é de fato a melhor participação que a população pode ter na política?

A parte da população que hoje não acompanha a política não faz ideia da força que possui com os políticos. Um parlamentar, seja ele federal, estadual ou municipal, ao contrário do que muitos pensam, está preocupado com a percepção de seus eleitores e da população em geral sobre seu trabalho. Tanto que vemos hoje uma atuação muito grande dos parlamentares nas redes sociais, dando explicações, criticando posicionamentos, insuflando movimentos, definindo votos e realizando debates. Óbvio que parte disso está ligada à corrida à reeleição, mas também à prestação de contas ao eleitor e ao acesso que estes têm hoje às notícias e informações. Não que esta preocupação tenha mudado de uns anos para cá, mas ficou mais presente e intensa com o aumento do interesse pela política.

Sendo assim, acompanhar o trabalho de um político a quem você confiou o voto pode gerar muitos resultados. Pressionar sobre votações, cobrar posicionamentos, entender os gastos parlamentares, verificar se a fiscalização está sendo feita são atividades que a população pode fazer facilmente, já que temos vários canais disponíveis para isso, e que podem até mudar, por exemplo, o resultado de uma votação. Por mais convicções que tenha ou influência que sofra, um político nem sempre tem posição fechada sobre determinados assuntos. No jargão conhecido, o Congresso Nacional é a casa do povo e ele pode e deve se fazer presente. 

No entanto, infelizmente, ainda vemos uma atuação muito forte de minorias organizadas nas casas legislativas. Podemos observar grupos de interesse, que não chegam perto de representar a maioria, mas que fazem bem seu papel de pressão e articulação junto aos parlamentares sobre pautas de seus interesses. Essa é uma atividade legítima, que faz parte da política. O problema é que a maioria dispersa não tem a mesma representatividade. Por isso, a importância da população em geral estar mais envolvida com as causas públicas. Todas as decisões tomadas nas casas legislativas ou nos palácios de governos afetam diretamente o dia a dia das pessoas. Não podemos terceirizar esse acompanhamento ou simplesmente achar que nenhum político vale a pena, e deixar isso de lado. A política pode e deve fazer parte do nosso cotidiano.

Falando sobre política no cotidiano, vou além. As pessoas não só podem acompanhar a política, mas também participar mais ativamente dela. Em municípios menores, por exemplo, é possível conhecer secretários, presidentes de assembleias, prefeitos e, de fato, levar as demandas das cidades para serem resolvidas. É possível direcionar problemas destes municípios aos deputados do estado para que usem sua força política junto ao Executivo, seja para fazer um hospital funcionar melhor, reabrir uma universidade, melhorar infraestrutura de estradas vicinais e outros problemas. Nos municípios maiores, é possível conhecer subprefeitos, falar diretamente com vereadores e, novamente, cobrar soluções. A população pode e deve sim fazer política. Mas não falo do tom jocoso, na crença popular, do toma lá dá cá, da troca de favores. Mas sim da política legítima, republicana e saudável. Os cidadãos têm totais condições de serem protagonistas de suas realidades, afinal fazemos política o tempo todo, em casa, no trabalho, no condomínio. Por que não fazer onde há mais relevância? Eu mesmo resolvi ir ainda mais além. Minha insatisfação com a política me fez sair do meu emprego e me candidatar a deputado, onde consegui me eleger. Entendo que é outro caso e não dá para todos fazerem isso, mas é possível e necessário termos a preocupação em quem votamos.

Eu diria que nossa democracia é uma adolescente, mesmo já com seus 37 anos. Desde a redemocratização, política não era um assunto muito presente nas rodas de conversa e hoje sabemos escalar os ministros do STF melhor que a seleção brasileira de futebol. Mas, ainda assim, temos muito a evoluir nesse sentido, ainda mais em tempos de políticos de estimação, debates de pessoas e não de ideias e movimentos orquestrados pela mídia ou pelos próprios políticos. Com a maior participação da população, teremos uma democracia mais madura, participativa e próxima dos reais interesses da população.

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