O Diário do Rio começa hoje a coluna Gens Carioca do Giancarlo Zeni* com a genealogia de algumas das famílias mais importantes ou conhecidas do Rio. Para começar não poderia deixar de ser da Família Marinho.

Irineu Marinho Coelho de Barros, jornalista niteroiense fundador do maior grupo de mídia do Brasil e pai do magnata Roberto Marinho, nasceu em 19 de julho de 1876. O pai, João Marinho Coelho de Barros, era português de Celorico de Basto; a mãe, Heduwiges de Sousa Barros, era filha de uma família tradicional de Rezende. João era empreiteiro e contador e D. Heduwiges, "do lar" – os Marinhos (nome principal da família – Coelho de Barros – vinha da linha feminina e era apenas um "floreio" muito apreciado pelos portugueses) eram uma típica família fluminense de classe-média.

Aclamação de Amador Bueno, óleo de Oscar Pereira da Silva (1909)

 

O Bandeirante e o Rei de São Paulo

Se os pais de Irineu eram personagens medianos, o mesmo não acontecia com seus ancestrais – muitos deles foram construtores da história do Brasil. Vejamos o trisavô, o Guarda-Mor Antonio Bueno Freire; natural de São João del Rei, exercia nas minas de ouro do sul de Minas o cargo que hoje seria correspondente a fiscal de tributos. O Guarda-Mor descendia dos Buenos, uma das famílias mais ilustres de São Paulo, grande fornecedora de bandeirantes; era primo de Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhangüera, e descendente de Amador Bueno, filho de nobres sevilhanos que em 01/04/1641 foi aclamado Rei de São Paulo por fidalgos castelhanos insatisfeitos pelo rompimento da União Ibérica. O historiador Afonso de Taunay diz que Amador Bueno recusou a honra, e com a espada desembainhada, deu vivas, como leal vassalo, ao rei de Portugal. Ameaçado de desacato, Amador Bueno tinha se refugiado no mosteiro beneditino, pedindo a intervenção do abade e seus monges. No dia 03/04/1641, todos resolveram reconhecer D. João IV como soberano e a confusão terminou bem.

 

O Capitão Antonio Bueno Freire era, ainda, genro do Sargento-Mor Francisco do Rêgo Barros. O posto de sargento-mor designava um oficial superior das Ordenanças, uma espécie de força militar aristocrática existente em cada vila do Brasil Colônia; o pai de Francisco, por sua vez, era o Capitão-Mor Cosme do Rego Barros. Esta era a maior patente militar que alguém que não fosse integrante do exército poderia almejar; Cosme, de família nobilíssima, era Capitão-Mor de Recife – era, portanto, o chefe militar da cidade e uma espécie de prefeito, exercendo sua jurisdição inclusive sobre os vereadores e demais funcionários civis.

 

Chico Buarque, Imperador Carlos Magno e o Fundador da Nação Portuguesa

Cosme descendia da família Holanda (que alguns dizem descender de uma irmã do Papa Adriano VI), a mesma de Chico Buarque, e de dois personagens emblemáticos do Nordeste colonial: Filippo Cavalcanti e Jerônimo de Albuquerque. O primeiro era um nobre florentino, filho de um rico comerciante que vendia sedas orientais para Henrique VIII; não se sabe como, veio parar no Brasil e se casou com Catarina de Albuquerque, filha de Jerônimo de Albuquerque com uma índia. Na primeira visitação do Santo Ofício (a inquisição) ao Brasil, Filippo, de setenta anos de idade, foi acusado de sodomia. Não foi, contudo, processado, devido aos seus grandes cabedais.

 

Jerônimo de Albuquerque, sogro de Filippo, era português. Sobrinho do navegador e governador da Índia Afonso de Albuquerque, descendia de reis diversos, inclusive de D. Afonso Henriques, o fundador da Nação Portuguesa, e do Imperador Carlos Magno. Jerônimo veio para Pernambuco com seu cunhado Duarte Coelho, primeiro capitão-donatário, e logo na sua chegada foi flechado por um índio tabajara em uma luta. Perdeu um dos olhos e ficou conhecido como o Torto. Foi feito prisioneiro dos tabajaras e condenado à morte; salvou-lhe a pele a filha do cacique Uirá Ubi, Tabira, que se apaixonou por ele. O casamento selou a paz entre os tabajaras e os portugueses. Tabira foi batizada e recebeu o nome de Maria do Espírito Santo Arcoverde – é a mãe de D. Catarina, mulher de Filippo. Jerônimo, entretanto, não se contentou com esse conto de fadas tupiniquim; uma carta de 1562 de D. Catarina de Áustria, rainha de Portugal, menciona que Jerônimo mantinha trezentas concubinas. Teve tantos filhos – naturais, bastardos e legítimos – que ganhou dos historiadores um apelido emblemático: o Adão Pernambucano.

 

Voltando ao Capitão-Mor Cosme do Rego Barros, este era casado com a prima Isabel Acha de Albuquerque. Ela também descendia, pela linha varonil, do Adão Pernambucano; e pela sua avó paterna, Leonor de Vedra, descendia de Albert Gerhard Wedda, um dos comandantes da Companhia das Índias Ocidentais holandesa e assessor do Príncipe Maurício de Nassau.

Plim-plim.

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* Giancarlo Zeni, matogrossense naturalizado carioca, é advogado e genealogista. E-mail para contato (inclusive pesquisas): gwmzeni@gmail.com

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