Gens Cariocas: Queremos Carmen (Mayrink Veiga)

7 de setembro de 2011 1 Por Giancarlo Zeni
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Gens Carioca feita por Giancarlo Zeni* comenta sobre a genealogia de algumas das famílias mais importantes ou conhecidas do Rio.

Carmen Terezinha Solbiati Mayrink Veiga nasceu em 24 de abril de 1929 em Pirajuí, cidade no interior do Estado de São Paulo. Considerada a “papisa” da alta-sociedade brasileira, é casada desde 25 de junho de 1956 com Antonio Alfredo Mayrink Veiga, filho do senador Antenor Mayrink Veiga e de Nya Ribeiro Mayrink Veiga, e é mãe de Antonia e Antenor. Carmen vive em um elegante apartamento na Avenida Rui Barbosa, no Flamengo, endereço de onde, antigamente, 9 em cada 10 sobrenomes estrelados constavam.

Fundadores de São Paulo

Estrela de revistas como a Vanity Fair, retratada por Portinari, Picasso, Romero Britto, Warhol e Di Cavalcanti, Carmen tem entrelaçamentos genealógicos bastante interessantes. Filha de um italiano de Milão e de uma paulista “quatrocentona”, os avós maternos de Carmen foram o Coronel Herculano Leite do Canto e D. Maria Emília Teixeira de Andrade, ambos primos entre si e descendentes de fundadores da cidade paulista de São Pedro, desmembrada de Piracicaba. Ancestral comum de ambos, entre outros, foi Manoel Morato do Canto; fazendeiro na região, era descendente de Anna Mattoso Morato e Manoel de Lemos Conde. Manoel, português, foi o descobridor de minas de prata em Paranaguá, atual Estado do Paraná, em meados do século XVII, sendo um dos homens mais ricos da Capitania em sua época. Preso e sequestrado, se degolou com as próprias mãos em 1681. Por este e outros ramos, Carmen descende ainda de duas figuras míticas da povoação do Centro-Sul do Brasil: João Ramalho e o cacique Tibiriçá.

JOÃO RAMALHO E TIBIRIÇÁ

João Ramalho era natural do distrito de Viseu, em Portugal, onde nasceu por volta de 1493. Segundo estimativas de historiadores, teria naufragado na costa da capitania de São Vicente por volta de 1513. Foi acolhido pela tribo dos Guaianases, e se casou com a filha do cacique, Bartira (ou Mbicy) – batizada como Isabel Dias. Ramalho foi, possivelmente, o primeiro povoador branco do litoral paulista, e facilitou muito a vida dos primeiros colonos trazidos por Martim Afonso de Sousa em 1532, uma vez que tinha grande prestígio com os índios do litoral e do planalto.

O Cacique Tibiriçá, sogro de Ramalho, foi o primeiro índio catequizado por José de Anchieta. Foi batizado como Martim Afonso Tibiriçá, em homenagem ao capitão-donatário. Em 1554, acompanhou Manuel da Nóbrega e José de Anchieta, padres jesuítas, na fundação da cidade de São Paulo, estabelecendo-se com sua tribo no local onde hoje está o Mosteiro de São Bento. Tibiriçá deu aos jesuítas a maior prova de fidelidade a 09/07/1562, quando, levantando a bandeira e uma espada de pau pintada e enfeitada de diversas cores, repeliu o ataque à vila de São Paulo efetuado pelos índios tupis, guaianás e carijós, chefiados por seu sobrinho Jagoanharo, filho do cacique Piquerobi. Sua neta Susana Dias foi fundadora da fazenda que deu origem à cidade de Santana de Parnaíba. Os restos mortais de Tibiriçá, grande patriarca dos clãs paulistas, descansam na cripta da Catedral da Sé.

MARQUESA DE SANTOS

Manoel Morato do Canto, ancestral de Carmen, era neto de Inácio do Canto e Castro, natural da Ilha Terceira. Inácio era irmão de Jerônimo do Canto e Castro e este, bisavô de Domitila de Castro do Canto e Melo, agraciada em 12 de outubro de 1826 com o título de Marquesa de Santos. Domitila se tornou célebre personagem histórica por ter sido amante do Imperador Dom Pedro I. Ela residiu no casarão onde hoje funciona o Museu do Primeiro Reinado, na Av. Pedro II, 292, São Cristóvão, e reza a lenda que um túnel ligava a Quinta da Boa Vista à casa da Marquesa. Domitila teve cinco filhos com Dom Pedro I, sendo que apenas duas chegaram à idade adulta – D. Isabel Maria, duquesa de Goiás, e D. Maria Isabel, duquesa do Ceará. A primeira se casou com o conde Ernesto Fischler von Treuberg e foi residir em Munique, Alemanha, e a segunda se casou com Pedro Caldeira Brant, Conde de Iguaçú, fiho do Marquês de Barbacena.

Curioso é que Maria Benedita de Castro Canto e Melo, Baronesa de Sorocaba por seu casamento com Boaventura Delfim Pereira, Barão de Sorocaba, irmã de Domitila, também foi amante de Dom Pedro e teve dele um filho, Rodrigo Delfim Pereira (registrado como filho de Boaventura mas assumido por Dom Pedro I no fim da vida), com descendência no Brasil e em Portugal.

MARÍLIA DE DIRCEU

O marido de Carmen, “Tony” Mayrink Veiga, nasceu de uma tradicional família carioca de raízes mineiras, donos da afamada Casa Mayrink Veiga, fornecedora de suprimentos das Forças Armadas brasileiras por mais de cem anos. O tetravô de Tony, Henrique Ferreira Mayrink descendia do Coronel Francisco de Paula Mayrink, oficial do Regimento de Cavalaria de Minas que viveu de fins do século XVIII até meados do século XIX em Vila Rica, atual Ouro Preto-MG. O Coronel Francisco de Paula, por seu turno, era irmão de Maria Dorotéia Joaquina de Seixas Brandão, nascida em Vila Rica no ano de 1767, e conhecida como Marília de Dirceu.

Maria Dorotéia visitava com frequência as primas; conta-se que uma manhã, quando todas colhiam rosas no jardim, ela feriu-se num espinho e, vendo o sangue, gritou apavorada. O vizinho pulou o muro e foi acudi-la, enrolando o lenço em volta da mão da moça. O cavalheiro era Tomás Antonio Gonzaga, português do Porto que exercia em Vila Rica o cargo de Ouvidor. Apaixonado, escreveu célebres poemas de amor para Maria Dorotéia, quem chamava de Marília; a si mesmo, denominava Dirceu. Aos poucos, Maria Dorotéia cedeu e também se apaixonou por Tomás, a contragosto da família. Demorou dois anos para que o importante clã permitisse o casamento, entretanto o noivo foi preso oito dias antes por participação ativa na Inconfidência Mineira. Ficou encarcerado no Rio de 1789 até 1792, quando foi deportado para o Moçambique. Nunca mais se viram.

Tomás se casou em 1793 com com Juliana de Souza Mascarenhas, filha de um comerciante português, e teve vários filhos dela, falecendo cerca de 1810. Maria Dorotéia jamais se casou e morreu em 1853, aos 86 anos.

Carmem gosta de se gabar de suas origens norte-italianas; porém, quem diria, tem suas raízes bem fincadas na história brasileira.

 

* Giancarlo Zeni, matogrossense naturalizado carioca, é advogado e genealogista. E-mail para contato (inclusive pesquisas): [email protected]


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