História e Cultura em Passos Professos no Rio de Janeiro

A historiadora Thatyana Sant´Anna fala sobre a história das procissões no Rio de Janeiro, em especial a de Domingo de Ramos, a partir das páginas do Diário do Rio do século XIX

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Fiéis reunidos para a bênção ao relógio, que voltou a funcionar após 101 anos / Foto de Daniel Martins - DIÁRIO DO RIO

As procissões, enquanto ato professo de fé, remontam caminhos de registros e leituras desde a Antiguidade de expressões simbólicas com o divino, inscritas na cultura e história, de diferentes coletivos em terrenos geográficos e tempos plurais. A procissão, sob lentes observadoras, como dimensão de relevante expressão cultural e religiosa, reúne elementos de grande interesse para a análise do coletivo em sua vivência e expressão multifacetada manifestada ao longo do tempo.

As procissões religiosas no Rio de Janeiro, em revisita histórica e cultural, entrelaçam registros, desde discursos oficiais e pitorescos de memória resguardados nas antigas páginas do Diário do Rio de Janeiro, de relevante contribuição para a histórica imprensa carioca, e que ressurge como Diário do Rio, no século XXI, metamorfoseando-se, em acordo aos revezes múltiplos e complementares dos diferentes contextos sociais, pelos caminhos do digital.

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As procissões de fé, na antiga capital do Império do Brasil, contemplam, de forma majestosa, o cotidiano carioca e aportam grande riqueza cultural fazendo-se presente em diferentes formas de expressão. Bailando entre a sacralidade caminhante pelas ruas e as representações artísticas sob diferentes percepções expressas da procissão.

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Navegando pelo acervo da hemeroteca digital, oportunizada pela reconhecida legitimamente, enquanto instituição de guarda, restauro, pesquisa e produtora de conhecimento, Biblioteca Nacional. Neste acervo, encontram-se registros das procissões no Rio de Janeiro resguardando memórias e que o Diário do Rio de Janeiro contemplava em sua pauta propiciando percepções do cotidiano e costumes da cidade nos fazeres dos citadinos. E, em oportuno momento, em tempo de Semana Santa, no florescer do Diário do Rio de Cultura, caminharemos por alguns selecionados registos prodigiosos.

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Em 23 de Abril de 1860, o Diário do Rio de Janeiro, que recebia colaborações, anúncios e reproduzia, registrou uma colaboração de um cidadão que remeteu fato relativo à, então, realizada Procissão de Ramos e a percepção própria sobre apontamentos realizados sobre a utilização de gastos públicos:

   O povo está tão curioso de saber como se esbanjam os dinheiros públicos que até quer se importar com o que se gastou em palmas e fitas na capella imperial, no Domingo de Ramos. Dizem alguns (…) que esta despeza sahio da verba Eventuaes – pelo ministério da justiça! Será verdade? Supômos que anda nisto ou muita exageração ou muita…devoção.

E, se em 2024, os cariocas foram comunicados e orientados pelas autoridades sobre fortes chuvas, nos dias 22 e 23 de março, antecedendo ao Domingo de Ramos e procissões de fé previstas, em 28 de março de 1822, há 202 anos, o Diário do Rio de Janeiro, anunciava estratégias para a programada procissão, em virtude de possível chuva na cidade: “Sexta-feira, 29, do corrente, a nossa Procissão do Triunfo, logo às 3 horas; e cazo chova que não possa sair fica para Domingo de Ramos”.

A Procissão do Triunfo, à época, simbolizava, nos ritos da fé caminhante pelas ruas, os sete passos em rememoração, na Semana Santa, da passagem vivida por Cristo. Sequenciavam as passagens de Cristo no horto, Cristo na Prisão, Cristo da flagelação, Cristo da coroação de espinhos, Ecce Homo, Cristo com a Cruz carregada nas costas e o ato de crucificação. A Procissão do Triunfo, em representatividade, era o anúncio do fim do tempo da Quaresma, um dos cinco tempos do calendário litúrgico católico, e acontecia na sexta-feira anterior ao Domingo de Ramos.

As procissões na capital imperial também orientavam sobre meios de transitar, persuadindo a avaliar como as procissões interferiam na ordenação do espaço público, como registrado no Diário do Rio de Janeiro, em 24 de março de 1842, fazendo referência ao funcionamento das “barcas de vapor”: “AVISA-SE ao respeitável público que (…) largará da ponte para Nietheroy uma barca de vapor (…) na sexta-feira da Paixão meia hora depois de se recolher a procissão do Enterro (não chovendo muito)”.

Os trajetos programados a serem percorridos pelas procissões no Rio de Janeiro e a orientação sobre a decoração, com a finalidade de contribuir para o embelezamento aos olhos, também fizeram parte do cotidiano destas datas. Em 11 de abril de 1842, o Diário do Rio de Janeiro contribuía publicando avisos da mesa administrativa das Irmandades:

A procissão (…) tem de transitar pelas ruas da Cadeia, Quitanda, seguindo pelas ruas de D. Manuel e Misericórdia, por isso convidam-se os moradores das mencionadas ruas a ornarem as frentes de suas casas, a fim de tornar este acto mais pomposo, bem como roga-se aos moradores da freguesia queiram iluminar as suas janelas nas noites, d’aqueles dias.

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Anjo voltando da procissão. Uma serva negra trazendo de volta a palma de seu senhor no Domingo de Ramos. Ange revenant de la procession. Um domestique Nègre rapportant la palme de son maitre, le dimanche des rameaux. J. B. Debret

Debret, notável artista da arquitetada Missão Francesa e relevante entusiasta da expressão do cotidiano do Rio de Janeiro, também retratou, em suas obras, o ato da procissão, conforme a obra “Anjinho Voltando da procissão” . Nas páginas impressas do Diário do Rio de Janeiro, encontra-se: “Rogo, outrossim, a todas as pessoas a quem se pediram anjos, de os mandarem à Igreja às 3 horas da tarde” e reforça que “os irmãos comparecerem na Igreja revestidos de hábito para acompanharem a mesma procissão”. A procissão, expressão de fé caminhante pelas ruas, é corroborada, por registros de expressões culturais diversas, como importante simbolismo da memória na História. Fica a suposição se os ditos “anjos”, registrado na edição do Diário, seriam crianças vestidas de anjos retratadas paralelamente por artistas nos traços refinados das obras que representavam as procissões da época.

 Em “Reminiscências de Viagens e Permanência no Brasil”, disponível no acervo digital da Biblioteca do Senado Federal, onde há o registro de Daniel P. Kidder, missionário metodista norte-americano, sobre o cotidiano das viagens no Brasil, há referência e ilustração sobre a procissão, reiterando a representação de anjo e do negro neste cenário:

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As imagens passavam pelo meio da rua entre alas de homens que levavam tocheiros com velas de cera. (…). À frente de cada grupo de imagens ia um anjo conduzido por um padre e espalhando pétalas de flores pelo trajeto. (…) Meninas de oito a dez anos em geral. Contrastando com a pompa e o aparato desses anjos, caminhava ao lado o escravo servil, levando sobre a cabeça uma caixa ou cesta cheia de flores para, de vez em quando, suprir a salva de prata de onde o anjo as tirava para espargir sobre o chão.

Daniel P. Kidder ainda, em seus registros, empresta sua percepção e vivência das procissões no período imperial observando o comportamento dos que viviam na cidade, redigindo sua pluralidade cultural, social e da identidade:

Nenhuma outra classe se entregava com maior devotamento a tais demonstrações religiosas que os negros, particularmente lisonjeados com o aparecimento, de vez em quando, de um santo de cor ou de uma Nossa Senhora preta. “Lá vem o meu parente”, exclamou certa vez um negro velho que se achava perto de nós (…).

Em 1717, iniciou-se uma grande devoção à Nossa Senhora Aparecida que se expandiu rapidamente por todo o território nacional, podendo levar a hipótese de que a imagem sacra, registrada no relato de Daniel P. Kidder, referia-se a tal devoção. No século XX, Nossa Senhora Aparecida foi declarada e proclamada Rainha e Padroeira do Brasil e, desde então, movimenta milhares de fiéis em procissões e peregrinações.

Machado de Assis, icônico literato brasileiro, em redação de crônica, permitiu o legado de sua percepção sobre a procissão do Domingo de Ramos, já no final do Século XIX, em 1892, na crônica A Semana:

A Semana foi Santa, mas não foi a semana santa que eu conheci, quando tinha a idade de mocinho nascido depois da guerra do Paraguai. As semanas santas de outro tempo eram, antes de tudo, muito mais compridas. O Domingo de Ramos valia por três. As palmas que traziam das igrejas eram muito mais verdes que as de hoje, mais e melhor. Verdadeiramente já não há verde. O verde de hoje é um amarelo escuro. A segunda-feira e a terça-feira eram lentas, não longas; não sei se percebem a diferença. Quero dizer que eram tediosas, por serem vazias. Raiava, porém, a quarta-feira de trevas; era princípio de uma série de cerimônias, e de ofícios, de procissões, sermões de lágrimas, até o Sábado de Aleluia, em que a alegria reaparecia, e finalmente o Domingo de Páscoa que era a chave de ouro.

A procissão, ao longo dos séculos e dimensões geográficas, ratifica seu imperioso lugar simbólico, sendo inferida por modificações, não somente pelos diferentes contextos históricos e sociais, bem como nas múltiplas formas de expressões artísticas interpostas ao subjetivo criativo, ao tempo e ao espaço. No entanto, as procissões resguardam o simbolismo da fé professa por seus caminhantes e por seus observadores.

O samba, enquanto estilo musical emblemático surgido no Rio de Janeiro, no início do século XX, canta a procissão e sua expressão da relação dos citadinos com o sagrado. Em 2017, o samba enredo Império em Procissão, de composição de Jeferson Lima, Toninho Professor e Victor Alves, registra em sua letra:

Olhai por nós
(Oh, meu senhor)
Na procissão imperiana
Que mantém acesa a chama
Da comunhão universal
(…)
Fiéis em devoção
Os pés no chão a caminhar
Vão seguindo a procissão
Em oração, a suplicar
(…)

A pluralidade cultural, em convergência com a multiplicidade das expressões artístico-culturais, em amplitude nacional, abre alas para a comunhão de diferentes estilos musicais em que inscrevem a sacralidade, a tradição, a arte e o sincretismo histórico. Reiterando, portanto, o potencial da cultura em reunir múltiplas vertentes em colaboração singular para a percepção e representação da identidade social, ao longo do tempo e do espaço. A produção musical de raiz carioca, como o samba, significa relevante encontro e intercâmbio de percepções de instituições de tais esferas.

Na caminhada pela procissão, entre história e cultura, no século XX, é imperioso destacar o papel relevante da música para essa compreensão, conforme contemplado na redação de linhas anteriores. Gilberto Gil compôs, em 1966, a canção procissão, que permite compreender que a procissão está inscrita em diferentes expressões de manifestações culturais ao longo do tempo:

Olha lá vai passando a procissão
Se arrastando que nem cobra pelo chão
As pessoas que nela vão passando
Acreditam nas coisas lá do céu
As mulheres cantando tiram versos
Os homens escutando tiram o chapéu
Eles vivem penando aqui na terra
Esperando o que Jesus prometeu
Esperando o que Jesus prometeu

Em contraponto do tempo e das diferentes expressões, embarcando no verso “Os homens escutando tiram o chapéu”, da canção de Gilberto Gil, vale registrar um episódio publicado no Diário do Rio de Janeiro que denota a questão do chapéu associado a seus usos e formalidades. Em uma das edições deste Diário de notícias, há o relato de um colaborador sobre um homem que não retirou o chapéu enquanto passava a procissão. Tal fato foi tomado por uma forma de narrativa que permite perceber a enorme indignação, como um ato inaceitável de desrespeito.

Que tirem o chapéu para o florescer do Diário do Rio de Cultura que inicia uma jornada pelas incontáveis histórias do Rio, como um Rio de Cultura e espaço de expressão das diferentes linguagens que se reúnem na multiplicidade harmônica para trazer ao palco o cotidiano carioca com iluminação especial e movimento próprio.

 O espetáculo de ações plurais que combinam memórias, imaginários, saberes, percepções e criações, reunindo, auspiciosamente, patrimônio, história, cultura, educação e os adventos do cotidiano carioca se inicia. Abram as cortinas.

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