Kazuhiro: Ataques em Brasília – Será que agora teremos bom senso?

Para Bruno Kazuhiro, o alinhamento ocorrido entre todas as instituições, governadores e sociedade civil para repudiar os ataques de domingo parecem um bom começo.

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

O Brasil vive um cenário político extremamente radicalizado. Foi possível perceber, durante as eleições, que cada lado se comportava como uma torcida de futebol que só enxerga acertos no time da casa e só vê erros na equipe adversária, o que obviamente não pode ser verdade. Ninguém só acerta ou só erra. Doutrinas políticas são legítimas, mas a sensatez deveria estar acima de cada uma delas.

Em exemplo claro da radicalização, Bolsonaro se recusou a entregar a faixa presidencial e deu um presente a Lula. A posse acabou sendo cheia de simbolismo. A ideia de subir a rampa do Planalto com representantes de grupos minoritários e oprimidos funcionou bem. Por outro lado, o ex-Presidente teve um motivo para não passar a faixa presidencial: seus apoiadores mais ferrenhos entendem a vitória de Lula como, no mínimo, imoral. E ainda há os que entendem que a posse de Lula é ilegítima e, portanto, digna de ser impedida por um golpe militar. Se Bolsonaro transmite a faixa presidencial, se transforma em traidor desse grupo. Por isso Mourão também não quis a tarefa.

Essa parcela da população que entende o novo governo como ilegítimo também costuma acusar o Supremo Tribunal Federal de autoritarismo e o Congresso de corrupção e conivência. Esse foi o caldo da invasão aos palácios que representam os Três Poderes da República e do vandalismo que ocorreu dentro de cada um deles. Esse clima bélico é, precisamente, um dos grande problemas para os próximos meses. Como o Brasil se une? Como as vertentes políticas trabalham em conjunto? É possível?

Existe uma diferença fundamental entre fazer oposição a um governo e fazer oposição ao Brasil. A oposição a um governo critica tudo que está errado e denuncia todos os desvios. Essa merece aplausos, pois protege nosso dinheiro. Por outro lado, a oposição ao Brasil quer só atrapalhar. Impedir qualquer coisa. Os erros são incorrigíveis pra sempre pois viram argumento. Os acertos também são pintados como erro para evitar ganhos políticos do outro lado. Em jogo estão as eleições seguintes como prioridade acima do país.

Até a tentativa de golpe ocorrida neste domingo parecia que o bom senso, infelizmente, não iria prosperar. O PT mostrava um grande apetite pelo poder e a oposição trazia certa raiva e revanchismo no discurso, mirando 2026. De um lado se gritava “não passarão” e do outro se postava “descondenado” nas redes sociais.

Agora o cenário mudou. Houve uma tentativa de ruptura institucional. Houve destruição de patrimônio público. A lei e a ordem sempre foram pautas importantes para a direita. A manutenção da ordem estabelecida pelo voto popular sem dúvida é vontade da esquerda nesse momento. Será que agora teremos bom senso? Surgirá na esquerda uma tendência de diálogo com o centro e com a direita democrática e existirá na direita moderada uma tendência de afastamento do radicalismo e isolamento dos extremistas? Espero que sim.

Afinal, com uma demonstração de risco institucional, desordem política e incerteza econômica perdemos todos. O Brasil, de todas as ideologias, perde investimentos, empregos, turismo e respeito internacional. Isso é interesse de quem? Creio que o interesse de todos deveria ser o bom senso prevalecer. O alinhamento ocorrido entre todas as instituições, governadores e sociedade civil para repudiar os ataques de domingo parecem um bom começo. Discordar é saudável. Destruir não.

Este é um artigo de Opinião e não reflete, necessariamente, a opinião do DIÁRIO DO RIO.

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5 COMENTÁRIOS

  1. Erro dos manifestantes em quebrarem tudo nas sedes dos poderes, isso sempre incomoda a estrutura e leva a sociedade a se perguntar realmente “o que nos queremos?”. Mas existem erros também da dita esquerda democrática, que agora estará sob escrutínio forçado de todos os setores da sociedade brasileira e mundial. Os olhos do mundo estão no Brasil, que de acordo com a geopolítica, o que acontece aqui afeta regiões do mundo, especialmente a América do Sul. Autoritarismo e revanchismo do tipo “agora é a nossa vez”, os “revogaços” e palavras de ordem como “não a anistia” também são anti democráticos. Mas se o governo PT começar a pintar o quadro com tintas apenas ao gosto do PT, sem ouvir opiniões e buscar o bom senso, o que se conquistou até hoje pode virar pó e os atos de 8/1/23 serão comparáveis a brincadeira de crianças mimadas ficando a coisa bem séria. O tempo e principalmente as atitudes dirão. Hora de construir os alicerces das pontes.

  2. “Direita moderada” eufemismo para direita consentida – pela Esquerda e/ou TSE/STF.
    “Existe uma diferença fundamental entre fazer oposição a um governo e fazer oposição ao Brasil.” Ah, que lindo!
    O PT de volta à oposição, já! De modo a lembrar ao Brasil como se faz oposição a um governo!

  3. Belo texto! Conseguiu expor sua opinião sem se posicionar a favor de um dos lados, levando em conta que os bolsonaristas vem errando feio desde que começaram com esses acampamentos sem sentido por todo Brasil por não aceitarem as derrotas nas eleições. Já a esquerda sempre praticou atos de vandalismo aos patrimônios público e particular e agora, numa tremenda hipocrisia que lhe é peculiar, está repudiando o seu “modus operandi” copiado com excelência pelo lado oposto.

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