Manoel Vieira: Rio de Ícaro

O Arquiteto e urbanista, Manoel Vieira, especializado na área de Patrimônio Cultural, revela suas expectativas e frustrações com o projeto REVIVER CENTRO

Foto: Rafa Pereira - Diário do Rio

O sonho de Ícaro se frustrou por se perder na busca pela liberdade, transmutada pela ambição de voar mais próximo do Sol. A queda de Ícaro encerra não apenas o sonho e a ambição dele próprio, mas também de seu pai, Dédalos.

Foi com enorme satisfação que li, em meados de 2021, sobre a iniciativa da Prefeitura do Rio de remover as grades das praças e de todo um movimento para revitalizar o centro, chamado “REVIVER CENTRO”. A recuperação dos espaços públicos é um dos pilares para que possamos retomar a crença em nossa sociedade. A revitalização do centro é lugar comum na recuperação econômica e social da cidade.

Sem sombra de dúvidas, reviver o centro é uma das primeiras grandes ações que deve realizar a administração municipal, uma vez que o centro do Rio cada vez mais perde seu sentido de capitalidade.

No entanto, o Reviver Centro não avançou. A ele não foram emitidas leis que favorecessem o ressurgimento do comércio e serviços. As empresas não sentiram na prática o que a teoria pretendeu transmitir. Ressalvado o ímpeto de alguns corajosos investidores, especialmente do mercado imobiliário e construção civil, o fato é que sem investimentos municipais consideráveis a reocupação de uma centralidade desolada não foi muito adiante. A segurança igualmente está distante do necessário. E com uma sensação de insegurança, não há por que haver pessoas circulando pelo centro. Ou seja, não tem investimento, não é atrativo, não parece seguro, não tem gente. Talvez o sonho do Reviver Centro tenha deixado de observar a única recomendação de Dédalos: que não voasse alto demais.


Não há como alçar grandes voos com asas de penas fixadas com cera. E é exatamente assim que parece estar a atual gestão de Paes: frágil, como um boneco de cera. Receber a notícia do corte das asas dos anjos que dão suporte aos atlantes e cariátides do chafariz que hoje está na Praça Mahatma Gandhi me remeteu a essa passagem da mitologia grega. Afinal, não há alusão mais compatível com o sonho que o desejo de voar (asas), assim como não deve haver derrota mais ordinária do que aquela motivada pela embriaguez do desejo alcançado (perda).


O chafariz que lá está foi originalmente instalado no antigo Largo do Paço, adquirido na Áustria em 1878 pelo então imperador Pedro II. Foi executado nas famosas fundições do Val D’Osne, na França. Em 1962, quando das obras para a construção da Avenida Perimetral, foi transladado para a Praça da Bandeira, ficando ali, no entanto, só até 1976, quando foi transferido para o seu atual local, após a demolição do antigo Palácio Monroe.


Perdem as asas os anjos do chafariz como parece se perder o Projeto Reviver, que talvez tenha voado alto demais, acima dos interesses privados e públicos, para se derreter em menos de um ano, antes do próximo verão chegar. E sabedores que o céu de Ícaro tem mais poesia que o de Galileu, com esse calor que já assola a cidade, nem precisa mais se aproximar muito do Sol. Melhor recolocar logo as grades…

Manoel Vieira é arquiteto e urbanista, conselheiro do CAU-RJ, especializado na área de Patrimônio Cultural, foi superintendente do Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) do Rio de Janeiro, diretor do INEPAC, órgão estadual do Patrimônio Cultural.
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1 COMENTÁRIO

  1. Eu sinto muito pelo urbanista e arquiteto Manoel Vieira da sua frustração sobre a revitalização do Centro do Rio, assim, como me frustro de ver um dia o bairro de Copacabana revitalizada. Os macros problemas urbanísticos da Capital do Rio de Janeiro é uma questão política. Quando vemos um Prefeito mais preocupado com grandes empreendimentos empresariais e os Edis que fazem leis para atender a permanência do seu eleitorado cativo, como os comerciantes e ambulantes que ocupam todo o calçamento, toda a Cidade vai perdendo a sua peculiaridade, identidade, a sua história e o seu referencial turístico. É lamentável que se coloque pessoas que não tem visão de como tratar uma cidade mais humanista. Acho que único que tinha essa visão foi o ex-prefeito Conde que além de manter a história de cada bairro, sancionou leis que inibiram muitas práticas nocivas e abusivas ao uso do solo urbano e das praias cariocas.

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