A ridícula ideia de nunca mais te ver” é um livro escrito pela espanhola Rosa Montero e lançado pela editora Todavia em 2019, com tradução de Mariana Sanchez.



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No início do livro, Rosa conta que num momento em que enfrentava um bloqueio criativo, recebeu da editora Elena Ramírez um pedido: escrever um prólogo para o diário da cientista Marie Curie, escrito após a morte de seu marido, o também cientista Pierre Curie.

Rosa leu o diário e, fascinada, comprou algumas biografias de Marie.  Sentiu-se atraída pela vida da cientista ao perceber as semelhanças com sua própria vida: Rosa também havia ficado viúva pouco tempo antes. A partir da jornada de Marie Curie, Rosa Montero reflete sobre a vida, a morte, o lugar da mulher na sociedade, o amor, o luto e a felicidade.

Apesar de ter certeza de seu dom para a ciência, Marie Curie precisou lutar contra sua própria crença de que deveria abrir mão de seus desejos para cuidar de seu pai e “dar a ele um pouco de felicidade em sua velhice”, como escreveu em uma carta para sua irmã. Partindo deste fato, Rosa se pergunta quantas mulheres deixaram de lado seu talento por não aguentarem a pressão da sociedade para que fizessem apenas o que era esperado delas.

            “Que angustiante confusão entre o desejo próprio e os deveres herdados.”

Porém, Marie Curie era uma mulher determinada e, apesar das limitações e crenças, seguiu seu coração, tornando-se uma das maiores cientistas do mundo. Foi a primeira mulher a receber dois prêmios Nobel – o primeiro, de Física, junto com o marido; o segundo, de Química, sozinha.

Marie Curie escreveu um diário de poucas páginas durante um ano após a morte do marido, ocorrida em 1906. Segundo Rosa Montero, “Marie se dirige a Pierre porque não pôde se despedir, não pôde lhe dizer tudo o que tinha para dizer, não pôde completar a narrativa da sua existência em comum”. Rosa pontua o livro com algumas histórias sobre sua relação com o marido Pablo, que morreu de câncer. A autora fala sobre o papel da escrita para atenuar a dor do luto:

(…) quando alguém morre, é preciso escrever o final. O final da vida de quem morre, mas também o final da nossa vida em comum. (…) Marie não pôde fazê-lo, é evidente, por isso escreveu aquele diário. Eu tampouco pude, por isso escrevo este livro.”

Apesar de algumas digressões excessivas – como quando a autora discorre sobre a relação entre o tamanho do dedo anular com o fato da pessoa ser boa em matemática –, “A ridícula ideia de nunca mais te ver” é um livro bonito, que faz pensar sobre nossos entes queridos e como é dolorido (para dizer o mínimo) perdê-los.

Rosa Montero, assim como Marie Curie, utilizou a escrita para amenizar a dor pela perda de seu marido e tornar a vida mais suportável. O resultado é uma obra comovente, que fala sobre a importância de darmos valor ao momento presente, como Marie certa vez escreveu numa carta destinada à sua filha mais velha e seu genro:

Desejo-lhes um ano de saúde, satisfações e bom trabalho, um ano em que sintam prazer de viver todos os dias, sem esperar que os dias tenham de passar para encontrar satisfação e sem a necessidade de depositar expectativas de felicidade nos dias vindouros. Quanto mais se envelhece, mais se sente que saber gozar o presente é um dom precioso, comparável a um estado de graça.”

Uma bela mensagem e importante reflexão para o fim de ano.

Nota: 4,5 / 5

Livro: A ridícula ideia de nunca mais te ver
Autora: Rosa Montero
Tradução: Mariana Sanchez
Editora: Todavia
Páginas: 208

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