Quem tem medo do feminismo negro?, livro da filósofa e escritora Djamila Ribeiro, foi lançado em 2018 pela Companhia das Letras e reúne uma série de artigos escritos para o blog da CartaCapital. A autora inicia com um ensaio autobiográfico, no qual conta episódios de preconceito que sofreu desde pequena e que foram, nitidamente, motivadores para que ela se tornasse uma das maiores representantes do feminismo negro no Brasil e no mundo:

“(…) todo dia eu tinha que ouvir piadas envolvendo meu cabelo e a cor da minha pele. (…) Por mais que eu tirasse notas boas, fosse saudável e inteligente, uma sensação de inadequação sempre me perseguia.”

 Alguns artigos foram inspirados por assuntos que foram destaques do noticiário, como a ofensa racista ao goleiro Aranha, do Santos, em agosto de 2014; ou os comentários racistas direcionados à jornalista Maju Coutinho nas redes sociais, em julho de 2015; ou ainda o assassinato de cinco jovens negros pela Polícia Militar do Rio de Janeiro, no bairro de Costa Barros, em novembro de 2015. Todos os textos do livro têm como objetivo trazer à luz o racismo e o machismo que são parte da estrutura da sociedade brasileira.

 Para Djamila, é importante falar de um feminismo negro, já que o feminismo universal não contempla todas as possibilidades de ser mulher. A mulher negra sofre uma combinação de opressões – o machismo e o racismo – o que a coloca num lugar de existência diferente daquele da mulher branca, que sofre opressão por seu gênero, mas não pela cor de sua pele. Gênero e raça (e também classe), quando combinados, levam a diferentes reivindicações.

Esta situação desigual, segundo a filósofa, vem de longa data. Sojourner Truth, uma ex-escrava que se tornou oradora, fez um famoso discurso no qual interroga: “E não sou eu uma mulher?”. A partir dele, Djamila afirma:

Enquanto àquela época mulheres brancas lutavam pelo direito ao voto e ao trabalho, mulheres negras lutavam para ser consideradas pessoas.”

Os textos de Djamila são esclarecedores para quem deseja saber mais sobre feminismo e, principalmente, sobre racismo. A autora fala sobre a intolerância às religiões de matriz africana, a origem do blackface e da palavra “mulata” (explicando porque é considerado um termo racista), além de deixar claro que não se pode falar de um “racismo reverso”:

 “Não existe racismo de negros contra brancos ou, como gostam de chamar, o tão famigerado racismo reverso. Primeiro, é necessário se ater aos conceitos. Racismo é um sistema de opressão e para haver racismo, deve haver relações de poder. Negros não possuem poder institucional para ser racistas.”



Toda manhã o resumo do Rio de Janeiro

Em seus artigos, Djamila dialoga com estudos de intelectuais negras como Sueli Carneiro, Lélia Gonzalez e bell hooks, entre outras, mostrando que há tempos o feminismo negro vem sendo estudado e existe bastante material produzido sobre o assunto. A ideia é aumentar o acesso a esses estudos, para que as intelectuais negras passem a fazer parte de uma bibliografia que até agora tem contemplado mais as produções de homens brancos. Dessa forma, a mulher negra deixa de ser apenas objeto de estudo e se tornaelemento central do debate.

No dia 20 de novembro celebramos o Dia da Consciência Negra. É um feriado bastante polêmico, porque há pessoas que acreditam que ele não deveria existir. Talvez o livro de Djamila ajude a pensar sobre a importância de um dia voltado para a questão do negro no Brasil. Os artigos trazem à reflexão, por exemplo, a hipocrisia de quem se solidariza com um famoso que é vítima de comentários racistas, mas não repensa suas próprias atitudes do dia a dia. São textos fundamentais para que se entenda como as opressões acontecem na sociedade e que, muitas vezes, o que é visto como opinião, não passa de um mal disfarçado racismo.

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Livro: Quem tem medo do feminismo negro?
Autora: Djamila Ribeiro
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 152
Nota: 5/5

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