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Jornalista, estrategista de marketing e escritor, Mario Marques acaba de lançar seu sexto livro, “Voto do futuro 2” (Prefab Books) – sequência de “Voto do futuro” (2019). Colunista do DIÁRIO DO RIO, Marques faz uma atualização do marketing político em tempos de Covid-19 e um balanço crítico sobre sua passagem como secretário de Comunicação do governo Wilson Witzel de março a julho de 2020. Na obra, ele atira pedras no presidente Jair Bolsonaro, destaque do primeiro livro. “Ele perdeu todo o senso de humanidade e entregou a Comunicação a um dos filhos, um sujeito que não tem capacidade técnica nenhuma para cuidar de sua imagem”. Em papo com o “Diário do Rio”, Mario Marques comenta as principais passagens.

DIÁRIO DO RIO: O livro é sobre marketing político, mas também traz bastidores do governo Witzel, do qual você fez parte. Que balanço você faz dessa sua passagem?

Mario Marques: Foi curta, né? Cinco meses apenas. Dizem que o Witzel assinou seu impeachment ao se declarar candidato a presidente em 2019. Concordo apenas em parte. O impeachment do Witzel começou mesmo no momento em que ele virou um líder nacional de combate à Covid-19. Entrei para o governo no dia em que ele decretou as medidas restritivas e, em 15 dias, Witzel já estava nas manchetes, em chamadas do “Jornal Nacional”  e sua imagem estava muito forte e sóbria. Lembro de uma pesquisa interna que mostrava que ele já tinha quase 80% de aprovação popular. Para o Bolsonaro, um mentecapto, infelizmente ninguém pode brilhar mais do que ele. Aquilo incomodou claramente o presidente. Minha combinação com Witzel era ignorar Bolsonaro. Referir-se institucionalmente, chamar de “governo federal” quando o assunto passasse pela presidência. Seguimos assim por uns 30 dias, até o Bolsonaro começar a xingar o Witzel. Até os xingamentos, Ok. O problema é que depois o presidente passou a  interferir de todas as maneiras para derrubar Witzel.

DIÁRIO DO RIO: Você acha então que o impeachment de Witzel foi injusto?

Mario Marques: Eu afirmo categoricamente que se Witzel não tivesse se declarado precipitadamente candidato a presidente e tivesse uma atuação apagada na pandemia ele ainda seria o governador nesse momento. Foram muitas forças contrárias e muitos interesses contrariados. Entendo que lá na frente a história pode arrumar essa narrativa do jeito correto. Eu só posso falar sobre o que vi. E tudo o que vi foi um sujeito tentando fazer o melhor, 24 horas por dia, para combater a pandemia. Se houve caminho errado não posso dizer. Na minha frente não houve.

DIÁRIO DO RIO: E por que você deixou o governo?

Mario Marques: Eu sabia que não ficaria muito tempo. Já tinha avisado isso à equipe de profissionais que foi para o governo comigo. Encontrei valores na área de publicidade 10, 20 vezes acima do mercado. Baixamos tudo. Baixamos o sarrafo. Na minha opinião, não faria sentido gastar milhões e milhões de reais em campanhas publicitárias em meio à maior crise sanitária do país. Mas não era apenas isso. Nossas medidas de austeridade na publicidade me geraram muitos problemas. Vi muita gente de cara feia. E entendi que a qualquer momento a pressão iria para cima do governador. Falei para ele: “Governador, sequei tudo, baixei tudo. Estavam pagando R$ 400 mil num filme de 1 minuto”. E ele me respondeu: “Mario, faça o que tem que fazer. Faz o certo. Corta o que tiver que cortar”. Entendi, então, que tinha autonomia e fui. Mas o sistema é gigante. Eu estava sentindo que isso não duraria muito tempo. Nos meus últimos 30 dias, o Witzel não falava mais comigo. Não sei o que houve. Fiquei sabendo que ele me exoneraria em dois dias. Não recebi nenhuma mensagem, nenhum recado, nenhuma consideração. Então me antecipei e anunciei minha saída. No dia seguinte, as mesmas pessoas que eu afastei estavam cuidando da publicidade, agora sem o comando do Witzel, e estão lá até hoje.

DIÁRIO DO RIO:  Você recebeu pressão na publicidade de alguém do governo?

Mario Marques: Do Witzel, não. Mas, sim, recebi de outros. Recebi e não paguei. Não saiu da minha assinatura nenhum pagamento com o qual eu não concordasse. Mas enfim é aquela coisa: num governo tem o mau-caráter, tem o oportunista, tem o puxa-saco e o parasita. Eu estava cercado deles, mas outros queriam trabalhar. E muitos eram muito competentes. Hoje a Comunicação do Claudio Castro não existe, né?. Tiraram a publicidade da área da Comunicação e a levaram para dentro do gabinete do governador. E aí virou isso que está aí. Essa vergonha.

DIÁRIO DO RIO: O livro atualiza o marketing político com a Covid-19. O que mudou?

Mario Marques: Mudou tudo, né? Em 2020 as campanhas foram feitas com distanciamento social. Sem muvuca. E as pessoas gostaram! Existe uma nova conversa que precisa ser desenvolvida entre o candidato e o eleitor. E ela começa pela internet. Mais do que ficar sendo impactado por posts, o povo quer ser ouvido, acarinhado. Ele quer conversar. Não adianta botar um sujeito para dar respostas iguais. Isso não traz nenhum valor agregado. Os políticos que mais se destacam nesse momento são aqueles que ouvem, que gastam tempo, dão qualidade à conversa com o eleitor. E ela pode começar no whatsapp e terminar nas redes sociais. O importante é ter uma base de dados qualificada dessas relações e na hora da eleição saber exatamente como pedir o voto. Seguidor não é voto. Mas pode vir a ser.

DIÁRIO DO RIO: No “Voto do futuro 2”, você banca que o Facebook está perdendo força…

Mario Marques: Sim. Existe nesse momento uma migração forte das classes D/E do Facebook para o Instagram. Para quem quer se distrair, fugir dos problemas e olhar a vida dos outros, o Instagram é o ambiente ideal. O Facebook virou um ambiente tóxico de brigas, de discussões, as pessoas estão cansadas disso. Essa migração eu vejo nas pesquisas qualitativas que fazemos. É preciso adequar as estratégias para cada uma das redes sociais, em consonância direta com o Whatsapp. E para as campanhas de governador e Senador o Twitter seguirá fazendo seu papel essencial opinativo.

DIÁRIO DO RIO: Quem vence para governador do Rio? E para presidente?

Mario Marques: Ainda é muito cedo para avaliar o jogo. Mas entendo que Claudio Castro sem o presidente Jair Bolsonaro a declarar-lhe apoio oficial naufraga. Castro precisa do percentual que o presidente carrega no estado do Rio, que não é pouco. Se Bolsonaro escolher outro, Castro terá dificuldades. Por outro lado, precisamos saber o que fará Eduardo Paes. Fala-se até que ele poderia ser um bom vice para o Lula ou apoiar o Cesar Maia. Castro se fia na distribuição de recursos aos prefeitos via loteamento da Cedae. Mas isso é agora. Lá na frente não há nenhuma garantia de que os prefeitos seguirão com ele. É fato: Castro está crescendo.

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