Nathalia Alvitos: O divórcio é para sempre… ainda bem!

Colunista do DIÁRIO DO RIO fala sobre liberdade

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Foto: Reprodução

Nunca ouvi ninguém dizer “preciso deixar de ser divorciada”. Isso tem uma razão: é a melhor fase da vida. Depois do luto necessário, o divórcio é a parte mais fácil da existência. Comecei a me dar conta disso quando olhei pro armário vazio e pensei “Dane-se! Esse agora vai ser o armário de casacos!” Alinhei meus ternos, blazers e o meu sobretudo ali. Ficaram lindos! Depois ocupei as gavetas. Nossa, que prazer! Minhas roupas agora têm lugar!

O que veio em seguida foi uma loucura! Minha casa passou a ter só coisas que eu gosto! Nada de encarar aquele objeto cafona que não tem nada a ver comigo. Taças rosas para beber água, quadro de uma designer brasileira cheia de humor e cores. Cachorros! Agora posso ter cachorros! Peguei uma, depois outra. Suzy é a mais velha, tem 3 anos, é calma e ciumenta. Alice tem um ano, é agitadíssima e muito carinhosa. Ela tem o queixo mais pra frente do que devia, o que faz com que os dentinhos fiquem pra fora permanentemente. Isso, associado aos pelos desorganizados, dá um ar de insanidade nela que me faz rir todos os dias.

Até que deu um problema de infiltração na parede. Fiquei uns minutos perdida. Daí, lembrei do eletricista de confiança e liguei pra ele para pedir recomendação de um pedreiro. Na ligação descobri que ele fundou uma empresa que oferece todos os serviços. Gente! Agora é só pagar, entregar as chaves na mão dele e quando eu chegar em casa tudo estará resolvido! E assim é ainda hoje.

Recomecei a trabalhar e não tenho o compromisso de avisar a ninguém quando estico para um chopp. Como é bom ser livre! Foram muitas esticadas, agora estou mais caseira. Nos finais de semana, quando não estou com minha filha deusa, passei a acordar quase na hora do almoço. Diante da alegria de Suzy e Alice pelo simples fato de eu estar de pé, tomo café vestida com meu quimono elegante. Aliás, essa coisa de ficar bem vestida e chique (do meu jeito) em casa virou hábito. Visto quimonos, roupões felpudos, pijamas fashion e cabelo sempre arrumado. Maquiagem é opcional, porque minha pele é maravilhosa e só melhora, sorry. But not sorry.

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Agora tenho novos amigos. Tenho uma em especial, a Simone, que me liga no meio da tarde para ir comprar um vinho que está com 70% de desconto e a gente não pode perder. Como amo viajar, mesmo com a grana curta, faço isso sempre que posso. O melhor é que é na hora que quero e para onde eu quero. É sempre divertido!

Leio mais, estudo mais, escrevo mais, publico mais e sou reconhecida por isso. Tenho muita coisa para publicar ainda, mas aprendi a ser estratégica. Então, só sairá no momento certo para me dar um pouco mais dinheiro, o que é bem difícil, pois a literatura não é valorizada no Brasil. Só para se ter uma ideia, ganhei cerca de 900 reais com meu primeiro livro, que me tornou palestrante da FLIP 2015. O brasileiro não tem o hábito de ler e isso é um triste fato.

A vida com liberdade é assim, a gente trabalha em uma área para pagar as contas, em outra para se realizar e flerta com terceiras porque é sempre bom ter opções. O mundo muda o tempo todo. Não reclamo porque, assim como a Alice no País das Maravilhas, eu mudo tanto depois do café da manhã, que à tarde já não sei quem sou. Como não acho definição importante, sigo sendo o que me dá vontade.

Há mais ou menos um ano cansei de reclamar do meu corpo. Comecei a malhar e não parei mais. Nada exagerado, apenas o suficiente pra me sentir gostosa e com saúde. Sempre comi bem, agora como melhor. Sem pretensão alguma substituí o remédio para ansiedade por corrida. Assim surpreendi meu psiquiatra que ficou orgulhoso e me deu alta. Outro dia me peguei dançando no meio da rua depois de completar 4 quilômetros sem nenhuma dificuldade. O suor escorria pelo rosto e as minhas mãos e braços faziam coreografias que só faziam sentido para mim. Não faço ideia se me ofereceram olhares, estava no meu mundo, onde tudo está bem.

Confesso que quando comecei a ir no psiquiatra, logo após a separação, agia conforme o que pensava ser o que o outro desejava. Mas o tempo foi passando e eu fui me assumindo. Lembro da primeira consulta em que resolvi ser totalmente honesta. Cheguei e disse tudo que pensava. Bateu um medo danado dele sacar uma camisa de força da gaveta e me dar para vestir. Mas, aconteceu o contrário. A cada vez que expunha minha verdade, a dose do remédio diminuía e assim foi até eu começar a vestir a roupa de malhar ao invés de correr para a cartela de remédio toda vez me sentia ansiosa.

A angústia faz parte da vida, por isso estudo e faço psicanálise. Aprendi a perder bem. Se tem algo ou alguém que me faz mal, mesmo eu amando tê-lo, aceito que ele vá embora, porque eu sempre estarei aqui e essa é a parte divertida. Acredito em casamento, acho o máximo amar e ser amada na forma de marido e mulher (sim, porque há diversos tipos de amor, o dos amigos e da família, por exemplo). Dou força para quem quer casar! Aconselho (se é que serve para alguma coisa) que nunca se separem na primeira dificuldade, lutem! O amor que respeita vale sempre a pena! Faça tudo que puder – sem se desrespeitar – para manter o casamento, pois é uma instituição de grande valor. Mas se ainda assim tiver que abrir mão dele, é porque o ciclo se completou. Faça o luto, passe pelo processo que inclui muita dor, mas depois, saiba: o que vai começar pode ser a melhor fase da sua vida!

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