No Dia da Baixada é bom lembrar: ainda tem gente com fome

Nos anos 2000, um encontro da Comunidade Cultural da Baixada, na Faculdade de Educação da Baixada Fluminense, FEBF/UERJ, aprovou que nossa região deveria ter um dia para relembrar sua história, seu desenvolvimento, suas riquezas, cultura, problemas sociais e que fosse uma data que servisse para tomada de posição em defesa da região. Então, desde 2002 através da Lei n° 3.822, todo dia 30 de abril é o Dia da Baixada Fluminense.

Comemora-se também o dia dos ferroviários e a data remete aos 165 anos da inauguração da primeira Estrada de Ferro construída no Brasil por Irineu Evangelista de Sousa, o Barão de Mauá, em 1854, que ligava o Porto de Mauá (Estação Guia de Pacobaíba) à região de Fragoso, munícipio de Magé, no pé da Serra de Petrópolis. A partir daí foram construídas outras ferrovias na região e a Estrada de Ferro tornou-se um marco histórico da ocupação urbana, dando novo perfil à ocupação do solo. Foi o começo do fim dos portos fluviais de navegação pelos rios e dos caminhos de tropeiros e o início do processo de surgimento de vilas e povoados que se organizaram em torno das estações ferroviárias, origem das atuais cidades da Baixada.

Inicialmente, essa estrada de ferro foi denominada de Estrada de Ferro Petrópolis, cujo primeiro trajeto levava passageiros que desembarcavam de barcas na Praia de Mauá, vindos da capital do Império, como o Imperador D. Pedro II, que tinha sua residência de verão em Petrópolis e seguiam de trem para Fragoso e dali, de diligências à cidade serrana.

A Baixada Fluminense é formada por 13 municípios: Belford Roxo, Duque de Caxias, Guapimirim, Itaguaí, Japeri, Magé, Mesquita, Nilópolis, Nova Iguaçu, Paracambi, Queimados, São João de Meriti e Seropédica. Em torno de 3,7 milhões de habitantes moram na região, que concentra cerca de 22,57% da população do estado do Rio de Janeiro.

Quando falo da Baixada Fluminense, penso na nossa gente aguerrida, valorosa, persistente e determinada a viver em busca de valores capazes de lhes proporcionar cidadania e dignidade.

Para quem vive na região o desafio de acordar bem cedo, dormir muito tarde, trabalhar, estudar, pegar trem lotado e correr em busca de um lugar para o sonhado cochilo são tarefas que já se tornaram comuns. Aquele que chega ou sai da Baixada por uma rodovia, também sabe quando isso acontece de olhos fechados: é só pegar a Linha Vermelha e chegar na altura do Aeroporto do Galeão, será tanto desnível e remendo de asfalto que seu cochilo, logo avisará onde estará. É batata!

Pior ainda é o desafio dos trabalhadores de Magé e Guapimirim: pegam os trens movidos a diesel até Saracuruna, outro até Gramacho e enfim, o que vai até a Central do Brasil. Já chegam cansados de tentar chegar no trabalho.

Crônico problema e comum para todas nossas cidades é a falta d’água e o saneamento, que deveria ser básico. Nossos rios, tornaram-se valões, assoreados, com moradias irregulares e as doenças de veiculação hídricas batendo na porta dos barracos, que denunciam outro problema: o crescimento irregular, desordenado e a falta de programas habitacionais. O problema da água, é o maior desafio da região. Muitas vezes, moradores do entorno da estação Guandu, a maior estação de tratamento de água do mundo, não têm água. Para quem não sabe, é a Baixada que produz a água e manda para a capital. O engraçado é que lá, não falta, mas alguns municípios daqui ficam mais de dez, quinze dias sem água.

O Dia da Baixada Fluminense deve/deveria/deverá ser para estimular o crescimento da autoestima da população da região. A Baixada Fluminense possui um enorme patrimônio de valores naturais, culturais, históricos, econômicos, humanos e sociais. Por isso, trava uma luta diária e ininterrupta em busca de justiça social, de igualdade humana e melhoria da qualidade de vida.

Nós da Baixada, também não temos nossa memória respeitada. Prédios, igrejas, casarões tombados pelos IPHAN e que contam parte da história do país, estão perto de cumprir o “tombamento” a e outros já deram lugar a lojas. Na saúde, o Hospital da Posse suporta, grande parte da nossa gente, no Moacir do Carmo em Caxias, é necessário passar pelo ritual do beija mão ao prefeito às quatro da manhã para conseguir um exame e em Japeri os cartórios não registram o nascimento de um japeriense há cinco anos.

A Baixada soma pobreza e desigualdade. E o resultado dessa equação é a violência. Segundo o ISP, os treze municípios da nossa região registram juntos 59,1% mais assassinatos que a capital. A grande maioria desses óbitos: jovens e negros.

Não dá para esquecer a falta de creches, vagas nas escolas, o desrespeito às pessoas com deficiência nos transportes públicos, a forma desrespeitosa que alguns gestores municipais tratam os servidores públicos e a transparência com a utilização de nossos impostos. Nós, da Baixada Fluminense, apesar da nossa força histórica e de trabalho, vivemos dias difíceis. Neste dia, por mais entusiasmo que possamos ter, só temos motivos para exigirmos respeito e absolutamente nada para comemorar.

Na Baixada Fluminense, ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais. E como toda a história da região começou pela ferrovia, encerro com poema de Solano Trindade (1908-1974), que constatou pelo trajeto do trem a desigualdade social presente no rosto dos seus passageiros, nas regiões visualizadas pela janela dos vagões e que são esses trilhos precários que carregam até hoje, a força de trabalho da nossa sociedade.

Tem gente com fome:

“Trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
pra dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Piiiii

Estação de Caxias
de novo a dizer
de novo a correr
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome
Vigário Geral
Lucas
Cordovil
Brás de Pina
Penha Circular
Estação da Penha
Olaria
Ramos
Bonsucesso
Carlos Chagas
Triagem, Mauá
trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome
Tantas caras tristes
querendo chegar
em algum destino
em algum lugar

Trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Só nas estações
quando vai parando
lentamente começa a dizer
se tem gente com fome
dá de comer
se tem gente com fome
dá de comer
se tem gente com fome
dá de comer
Mas o freio do ar
todo autoritário
manda o trem calar
Psiuuuuuuuuuu”

Cidadão Baixada. Filho, neto e bisneto de pernambucanos é caxiense, portelense, tricolor, professor de História e Jornalista. É pesquisador na área da pessoa com deficiência, voluntário do Lions Clube Xérem e no Pré-Vestibular Comunitário da Educafro.
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