Confronto que relegou a Exposição do Centenário da Independência, do Rio, ao esquecimento

Semana de Arte Moderna era orientada para o futuro, enquanto a Exposição do Centenário olhava para passado, com os suas inúmeras questão não resolvidas, como as práticas colonialistas

Em 1922, dois eventos marcaram a vida cultural do Brasil. Ambos representaram um corte disruptivo de mentalidades. Dos dois, apenas um deitou raízes e ainda exerce influência cultural e ideológica, assim como a cidade que o sediu. Estamos falando da Exposição do Centenário da Independência, realizada no Rio de Janeiro, então capital federal; e a Semana de Arte Moderna, celebrada em São Paulo, que nem de longe possuía a expressão que conquistou nos anos seguintes.  

A Exposição do Centenário da Independência foi um evento grandioso realizado em pavilhões que ocuparam 2.500 metros quadrados, no antigo bairro da Misericórdia, no Centro da cidade. Para erguê-los foi necessário colocar abaixo o Morro do Castelo. Dadas a importância e as dimensões do evento, centenas de pavilhões foram montados, sendo 15 estrangeiros. Os mais de 10 mil expositores foram prestigiados por centenas de pessoas todos dos dias, durante toda a celebração que durou de setembro de 1922 até abril de 1923.

A Semana de Arte Moderna, por outro lado, foi uma realização incrivelmente mais modesta, porém, ao longo do tempo mais impactante. O evento, que aconteceu entre os dias 13 a 18 de fevereiro, no Teatro Municipal da capital paulista, reuniu apenas um pequeno grupo de jovens artistas ainda pouco conhecidos.

Entender a requalificação simbólica e histórica dos dois movimentos significa entender as correntes político-cultural, ideológicas e históricas que nortearam o Brasil, e o panorama internacional ao logo do tempo.

Em entrevista à CNN Brasil, o historiador Marcos Napolitano, do Departamento de História da Universidade de São Paulo (USP), explicou que o evento do Rio se inscreve na tradição das grandes exposições universais que tiveram início, em Londres, em 1851, com o objetivo de celebrar o “espetáculo da civilização industrial”, e as cidades com centro da modernidade. Isso permitia apresentar povos e culturas consideradas “exóticas” e “primitivas”, como objetos de curiosidade aos visitantes ávidos pelo “outro” ou o diferente.

O estudioso lembra ainda que essas exposições eram também grandes feiras de negócios, onde os produtores nacionais podiam mostrar o que era gerado no Brasil, cujo foco naquele momento era a produção primária. A Exposição Nacional realizada, em 1908, também no Rio de Janeiro, foi uma exposição com perfil semelhante e de grande sucesso na época. Além disso, tais eventos permitiam um intercâmbio que ia além do econômico, permitindo trazer da Europa inovações como, o cinema e o rádio.

Na Exposição do Centenário da Independência, por exemplo, foi exibido o “No País das Amazonas”, de filme de Silvino Santos, que apresentava uma visão exótica das populações indígenas e da natureza brasileira, ao mesmo tempo em celebrava o progresso civilizatório. Produções de São Paulo, com foco e temáticas semelhantes também foram exibidas no evento, com grande sucesso, uma vez que apresentavam um Brasil moderno e com produção agrícola robusta.

A Exposição, ainda segundo o historiador, tentou ainda mostrar ao mundo um Brasil branco e europeizado, como mostrado e cultuado pelos círculos intelectuais e científicos, que reverenciavam visões racistas, eugenistas e arianistas.

“O Brasil negro era oficialmente apagado, embora estivesse presente nas ruas e na cultura popular do Rio de Janeiro, sede do evento”, diz. “E o indígena era mostrado na chave das representações exóticas e romantizadas do passado colonial e imperial,” disse Marcos Napolitano.

Camila Bylaardt Volker, professora de teoria literária, da Universidade Federal do Acre (UFAC), destaca uma diferença fundamental, em termos políticos, entre a Semana de Arte Moderna e a Exposição do Centenário: uma apontava para o futuro, oferecendo uma miríade de caminhos artísticos e estéticos; e a outra para um passado difícil e com gargalos diversos ainda não resolvidos, como práticas coloniais em um projeto novo de civilização, no âmbito da sua “independência conservadora.”

“O Brasil era um império no meio de uma América do Sul republicana, império esse que massacrou o Paraguai, era escravocrata e herdeiro de Portugal. Já a Primeira República é fruto de um golpe militar, não foi propriamente um movimento popular. Mesmo os civis republicanos, que esperavam oportunidades no novo governo, perceberam, após alguns anos de governo de Deodoro da Fonseca, que o país havia mudado de governo sem tocar nas pessoas,” afirma Camila Volker à CNN, acrescentando que, apesar de ter sido magnífica em demonstrar o progresso nacional no campo científico, foi deficitária na apresentação de um Brasil, que não ultrapassou os seus dilemas na condução política, econômica, social e militar.

A professora Claudia Vanessa Bergamini, coordenadora do projeto de pesquisa “Imagens da Cidade: A Construção do Espaço Citadino em Textos Literários Brasileiros do Século XX”, da UFAC, ressalta que a Semana de Arte Moderna também tinha um plano ideológico, que se articulava com a própria noção de independência, colocando em questão a nossa identidade, sem idealizações ou romantizações.

Na concepção Claudia Bergamini, a Semana de 1922 voltou uma atenção crítica e irônica para o nacional, com o objetivo de constituir uma pátria que fosse brasileira, sem as influências das tendências europeias, excetuando as vanguardas artísticas, críticas dos modelos estabelecidos.

“O Modernismo nacional ganha a cena a partir do evento de São Paulo, e é, por isso, uma proposta de ruptura com o passado e de construção de uma literatura a partir de um olhar mais realista para a situação nacional,” explica Bergamini.

A influência de Mário

A Exposição do Centenário foi sendo relegada ao esquecimento, não apenas com o tempo, mas também graças ao contexto. A Semana de 22, por outro lado, sedimentou raízes no imaginário coletivo, especialmente durante o Estado Novo, inaugurado por Getúlio Vargas, em 1937 e que teve fim, em 1945.

“Os modernistas, tomados no seu conjunto, entraram, às vezes como agentes, outras vezes como objetos, em instituições de poder, como foi o caso do Mário de Andrade“, pontua o professor de Literatura, Luís Fischer, do Instituto de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), lembrando da influência exercida por Mário de Andrade, primeiro em São Paulo, onde trabalhou no Departamento de Cultura; e depois no Rio de Janeiro, onde foi um dos ideólogos do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, que hoje é o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), e onde trabalhava o mineiro Rodrigo Melo Franco de Andrade – amigo de Carlos Drummond de Andrade e do ministro da Educação, Gustavo Capanema -, que consultava Mário de Andrade regularmente.

Segundo Fischer, Mário também foi uma das pessoas que ajudaram a idealizar o Instituto Nacional do Livro, que teve no gaúcho e modernista Augusto Meyer, seu criador e dirigente, por intermédio de Mário de Andrade. Ainda segundo Fischer: “São dois exemplos de que a geração modernista estava integrada ao mundo do poder no Estado Novo”, que elenca ainda três eventos desenrolados, em São Paulo, que ajudaram a difundir e consolidar a Semana de 22: a própria realização do evento, a publicação e a divulgações das obras de Oswald e Mário de Andrade, principalmente nos 1920, e a fundação, em 1934, da Universidade de São Paulo (USP), e a criação de instituições, como o Departamento de Cultura. A USP, segundo ele, teve os cursos de literatura e sociologia dominados por intelectuais paulistas, que afirmaram os valores modernistas, casos de Antônio Cândido e Sérgio Buarque de Holanda.

“É uma confirmação da Semana de Arte Moderna de trás para diante. É nos 40, 50 e 60, que esses dois e outros vão disputando o legado modernista de São Paulo, dizendo, por exemplo, isso aqui estava na nossa cabeça desde 1922,” afirma Fischer.

Com isso, São Paulo ganha cada vez mais destaque, e por extensão a Semana de 22, passa a inspirar pesquisas acadêmicas, pautando a crítica literária e artística, além de trabalhos memorialistas, se consolidando através de instituições, como o Museu de Arte Moderna (MAM) e o de Arte Contemporânea (MAC).

A partir de 1950, a capital paulista alçou a posição de grande metrópole cultural e econômica brasileira, acentuando a pegada de progresso e inovação defendidas pelo modernismo, de Mário e Oswald de Andrade, e outros ícones culturais, que foram recuperados a partir dos anos 1960 em outros contextos. Tudo isso ajudou a consagrar a Semana de Arte Moderna como o grande evento da cultura nacional.

“A ideia de que ela (a Semana) era protesto e que seus organizadores eram de esquerda é falsa. Eles eram jovens intelectuais, preocupados individualmente com sua obra, mas cujas ideias iam convergindo com esse interesse de reinterpretar o Brasil a partir da posição de São Paulo”, finalizou Luís Fischer.

As informações são da CNN Brasil.

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