O luto e a consternação: demolição da Fazenda Magepe-mirim e a sensação de impotência e indignação

O museólogo Rafael Azevedo demonstra seu luto pela criminosa demolição do prédio mais antigo de Magé - a histórica sede da fazenda colonial, e fala da necessidade de se desenvolver uma maneira de conseguir verbas para o restauro do patrimônio cultural brasileiro

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A Fazenda era um sítio Arqueológico do Iphan / Foto: "O belo e histórico Rio de Janeiro, Página do Facebook"

Estou enlutado pela perda familiar de uma pessoa com quase 100 anos de idade. Ainda assim, por mais que a gente tente encontrar consolo nas frases já conhecidas – ‘fulano(a) descansou’, ‘viveu uma boa vida’, ‘teve saúde até os últimos dias’ etc. – a gente fica pesaroso. 

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Penso que parte desse luto se deve ao fato de lidarmos com uma ausência permanente nas nossas vidas, que nunca vai ser preenchida da mesma maneira. E isso sempre nos comove, causando no mínimo um desconforto. Mas também nos consternamos por sentir que estamos obliterando uma parte da sabedoria humana que foi acumulada durante toda a vida, que conheceu agruras e alegrias, oportunidades e dificuldades, e que, de alguma maneira, como quase sempre acontece com as pessoas mais antigas, encontrou o segredo da paz. Essa serenidade interior é algo raro num mundo de insatisfações e tão difícil alcançar na rotina cotidiana, na qual temos muita dificuldade em valorizar as pequenas belezas, os preciosos prazeres, o sublime no que vemos e ouvimos. 

Um parêntese aqui: vocês já perceberam que quando algumas pessoas queridas nos falam, a voz delas ressoa nos nossos ouvidos com algum encanto? De uma maneira mais sonora e melódica… Tentem identificar essa característica na voz das pessoas que amam também. É essa voz que a gente persegue quando estamos enlutados, porque sabemos que não vamos ouvi-la novamente, a não ser que a gente recorra a alguma gravação, registro ou algo do tipo. 

Sem querer traçar nenhum tipo de paralelo com o fato acima narrado, penso que toda vez que nós perdemos uma parte da nossa memória, do nosso patrimônio, a gente também fica pesaroso. Ou deveria ficar. E esse luto vem da sensação de ausência, dessa falta de algo que passava uma mensagem, uma espécie de encorajamento, dignidade e identificação, nos unindo mesmo com todas as nossas diferenças. É salutar ter orgulho de quem a gente é, de onde vivemos e dos nossos ancestrais. 

Ultimamente, o Rio de Janeiro tem vivido um cenário de muitas perdas. Desde o período da pandemia, ou ainda antes com o incêndio do Museu Nacional. Não exatamente que seja um fenômeno recente, porque nossos antepassados também passaram por isso; temos que recordar que até Roma foi dizimada por um incêndio. Todavia, tais eventos tem se acentuado ultimamente por situações de fatalidade, é verdade, mas também por falta de esmero, zelo ou ainda por ações deliberadas de depredação, principalmente com o patrimônio mais antigo, que está sempre precisando de assistência e asseio para conservar-se entre nós, impedindo que a gente viva em permanente estado de luto.

Após o desabamento do forro da igreja conventual de S. Francisco de Assis, em Salvador, essa semana foi a vez de assistirmos atônitos à demolição da Fazenda Magepe-mirim – do século XVIII – na cidade de Magé/RJ. Devemos refletir sobre as causas, mas também sobre as consequências disso no porvir. 

IMG 7925 1 O luto e a consternação: demolição da Fazenda Magepe-mirim e a sensação de impotência e indignação

No artigo da semana retrasada declarei que, para mim, a situação mais grave é a falta de recursos. E tenho insistido nisso porque acredito que só há como se proteger um patrimônio tão antigo se houver um programa permanente de repasse de verba. Não foram duas, três, talvez nem dez vezes que já ouvi falar de projetos finalizados e aprovados para restauração de monumentos, mas não executados porque falta o precípuo: o tal do dinheiro. Falta a tal da captação de recursos. 

Precisamos refletir sobre isso e buscar soluções para que haja um fundo, uma fonte de recurso permanente para bens em situação de risco, de modo que esses patrimônios possam ser preservados. Ao contrário, temos visto muito mais energia sendo gasta na tentativa de distribuir culpas, aumentando nossa sensação de impotência e indignação.

Devemos levar adiante essa iniciativa, nem que seja somente para evitar de vivenciarmos mais um luto. E que no futuro a gente consiga distribuir, ao contrário, méritos a todas as partes envolvidas. Porque, no final das contas, não nos interessa perder nossa memória. Tenho certeza que qualquer cidadão tem consciência disso e também não tenho dúvida que todas as autoridades pensariam – ou deveriam pensar – da mesma maneira. Independentemente de nossa matriz ideológica ou preferências pessoais, o patrimônio nos une

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2 COMENTÁRIOS

  1. De demolição em demolição vão acabando com a memória carioca e fluminense. Mentes criminosas, desleixadas, sem responsabilidade com o passado histórico, sem amor pelo patrimônio lesado, que poderia ser alvo de debates em todos os sentidos para as gerações futuras. Ando tão pessimista com preconceitos generalizados, violência desmedida e sem previsão SÉRIA ao seu combate, e…….Trumps da vida. Parabéns Rafael pelo seu artigo. Dói, mas ficamos informados!

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