N.E.: Para quem não sabe André Delacerda escreve ficção e em uma edição especial para o Diário do Rio escreverá sobre a história da família Oliveiras Tejo que vem para o Rio de Janeiro com a Família Real e até os dias de hoje participou dos principais momentos de nossa cidade. Leia os outros capítulos.

 

Dom Manuel, foi o primeiro membro da família Oliveiras Tejo a pisar em solo brasileiro, sendo que ele recebeu assim que pisou em terra os cumprimentos de um senhor que jamais conhecera.

– Seja bem vindo em nome do Conde dos Arcos, vice-rei.

O português agradeceu em nome da família.
– Pai…pai…

Eram as palavras do pequeno Malaquias puxado pela mão da mãe ainda abatida pela perda da filha querida Maria João. Auxiliada por dois criados portugueses que haviam os acompanhado na fuga lusitana, Dona Mariana descia da embarcação. No desembarque em ambiente festivo e tropical, não estava presente a cozinheira Almerinda, a terceira criada do grupo, que por idade avançada também não conseguiu chegar a Colônia.

Em frente ao cais podia-se ouvir o som de batuques e instrumentos musicais, e a empolgação de alguns moradores da cidade de São Sebastião do Rio mais empolgados com a chegada da corte portuguesa. 
– Viva o Rei!
– Salve Vossa Majestade!
– Longa vida a Dona Maria!

 

Eram as palavras de ordem ouvidas em meio ao burburinho.    

Na verdade tudo era uma festa, mas para os que estavam recebendo a corte, do que para os visitantes portugueses que teriam que adaptar primeiro ao calor intenso que fazia naquelas terras tropicais, e segundo as incertezas que começavam a surgir naquele desembarcar.

Uma das questões mais eminentes era para onde iriam? Em que casa morariam?

Mas o Conde dos Arcos havia tratado de providenciar as melhores acomodações para os membros da corte.    Camargo Candeias, o local que deu as boas vindas à família Oliveiras Tejo trataria de desvendar o mistério da acomodação para a família.
– A minha casa agora é da sua família.
– Oh! Mariana. Esse gentil homem vai nos hospedar até arrumarmos uma casa própria para nossa família.
Disse Dom Manuel com sotaque português bem carregado, e quase embolado.
– Não! – Exclamou Camargo.
– Na verdade eu vos dou a minha casa.  

Falou em tom afirmativo o homem.
– Vou levá-lo até o seu sobrado. As ordens do vice-rei são para que nós habitantes da cidade darmos nossas casas para a nobre corte portuguesa que muito nos honra com sua presença.
– Mais homem, donde vais morar?

Indagou o português.
– Não se preocupe. Ficaremos bem.

Ao caminharem por algumas ruas apertadas da cidade colonial, e que estava apinhada de gente, uma surpresa se apresentava.

Boa parte dos homens e mulheres era de cor negra, pois a maioria da população local era escrava. Coisa não muito comum na sede do reino lusitano.

Após uma meia hora de caminhada chegaram há um sobrado de cor verde na Rua da Direita. Na porta principal da casa estava as letras P.R – Príncipe Regente -.
– O que é isso senhor papai?

Perguntou o pequeno Malaquias ao pai, que com um gesto debochado com as mãos disse não saber do que se tratava.
– Deixe explica-los. – falou Camargo.
– São as letras que designam as casas que nos deveremos ceder a corte para acomodá-la.
Neste instante ouviu-se uma voz eloqüente dizer.
– Ponha-se na Rua…Ponha-se na Rua…

Eram as palavras de um homem bem vestido, mas com ar transtornado, que transitava em meio à rua cheia de gente.
– Não se preocupem. É só um louco.

Disse Camargo abrindo a porta da casa para que os visitantes portugueses entrassem.
– Não sou louco. Sou Dom Sebastião.

Disse o homem embravecido para depois sumir em meio aquela multidão de gente.

Após conhecerem os aposentos. Dom Manuel conversou com Camargo sobre como trazer as bagagens que trouxeram de Portugal e ainda continuavam no navio. O chefe da família Oliveiras Tejo após consolar com um abraço a esposa ainda deslocada na nova casa, e dar um beijo na testa do pequeno filho. Seguiu com Camargo de volta ao porto para resgatar as bagagens.

De volta ao Martins Freitas, Dom Manuel tratou de identificar suas bagagens. Do convéns do navio ainda podia-se ouvir o ambiente musical que se instalara na praça a frente do porto.
– Essa caixa. Essa daí.

Dizia Oliveiras Tejo ao encarregado do navio, que conferia os dados num livro grosso.
Porém algo estaria para acontecer, ou melhor já havia acontecido. Uma das caixas mais valiosas que eles trouxeram não estava sendo encontrada.
– É um baú de cor laranja. Não é difícil de ser encontrado.

Disse o português ao encarregado pelas bagagens.
– Fique tranqüilo que o acharemos. Ela jamais sairia daqui sem passar pela nossa conferência.
Disse o oficial.

Duas horas se passaram e todos os cantos do porão do navio foram vasculhados a procura do baú e nada de  encontrá-lo.

O patriarca português, há essa hora com olhar preocupado, não acreditava que tivera deixado algo tão precioso no cais na fuga em Lisboa. Também não quisera pensar que fora roubado durante a viagem.
– Impossível ter deixado essa caixa em Lisboa. Eu a conferi quando da nossa parada na Madeira após a tormenta e ela continuava intacta no porão junto à proa.

O oficial encarregado pelas cargas fez sinal e mais quatro homens que o auxiliavam, voltaram a procurar.
– Ninguém sai deste navio sem que a caixa desse homem seja encontrada.

E foi o que se sucedeu até o anoitecer. Lá fora festa. Dentro do Martins de Freitas uma procura ansiosa.
– Senhor, senhor.

Dizia um dos homens ao se aproximar do encarregado chefe.
– Infelizmente parece que retiraram a caixa sem que percebêramos.

Neste instante ao ouvir tal fato Dom Manuel, pos as mãos sobre a cabeça e exclamou em desespero.
– Não, não…

Para depois desmaiar e ser socorrido pelos homens, que o levaram de volta a casa que antes pertencia a Camargo.
– Manuel. Manuel!
Chamava com voz embargada dona Mariana.
– Mulher, roubaram nossas principais economias, nossos títulos de bancos e algumas moedas, que nos dariam sustento por mais algum tempo nestas terras.

Neste instante chorando dona Mariana tratou de consolar o marido.

Olhando para o senhor Camargo e vendo que estariam em dificuldades em local ainda não conhecido, e sem saber como viveriam. Dona Mariana toma uma atitude que jamais tomara nos anos em que vivera sobre a guarda do falecido pai e em que estivera acompanhando somente a vida domestica da Quinta dos Oliveiras Tejo.

– Senhor Camargo, quantas pessoas tem a sua família?

O homem sem entender a pergunta respondeu.
– Somente eu e a minha esposa. Meus pais moram para as bandas da Tijuca. Mas nessa casa só eu e a minha mulher.
– Dom Manuel meu esposo, vamos precisar de ajuda neste momento difícil, sugiro que convide o senhor Camargo e sua esposa a viver conosco. Já que este sobrado é tão grande.

O desconsolado patriarca olha firmemente o rosto da esposa, que com o mover dos olhos de forma serena sinaliza novamente com o pedido. Neste momento ele vira-se para o senhor Camargo e diz.
– Vossa morada que agora é nossa, também será a vossa morada novamente.
– Eu não poderia aceitar, já dei minha palavra ao vice-rei que cederia a casa.
– Fique tranqüilo homem. Depois de amanhã quando os festejos para o rei estiverem mais encaminhados, vou falar pessoalmente com vossa majestade da nossa decisão.

Assim, em meio a um sinistro, mais um contratempo nesta migração dos Oliveiras Tejo aos trópicos nascia uma amizade que seria de muita valia.

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