Uma professora que leciona numa escola privada de classe média alta da Zona Sul e em outra da rede estadual, numa área pobre da Cidade, prestou-me um depoimento inquietante. Disse-me que se divide para trabalhar em dois mundos socialmente tão distintos e sobre suas dificuldades pessoais para passar incólume por ambientes que ora derrubam sua autoestima, ora lhe provocam o sentimento de culpa social.

Três vezes por semana, na escola pública, ouve relatos de alunas adolescentes grávidas, da precariedade das suas casas, da convivência com bocas de fumo, das batidas policiais e como muitas e muitos sonham, no futuro, tomar o seu lugar, tornando-se professores – uma profissão que serviria como uma espécie de salvo-conduto para uma vida digna e confortável. Para parte desse grupo, que ainda cultiva certa ambição, a professora é uma boia de salvação e um exemplo a seguir.

Na outra escola, os relatos são bem diferentes. Ela ouve falar sobre o que os pais dos seus alunos fazem, dos aparelhos eletrônicos que possuem e das frequentes viagens para lugares que ela própria não teve a chance de conhecer. Esses alunos não sabem exatamente o que farão na vida, mas certamente não serão professores, porque não querem “morrer de fome”. Nova York, Disney, Aspen, Angra, Búzios formam a geografia da “turma rica”, em contraste com as lajes, a linha do trem, o morro, o valão, que são os pontos de referência comuns à “turma pobre”. Pensei imediatamente na Cidade Partida descrita pelo jornalista Zuenir Ventura. Dois mundos num mesmo território.

Mas, a despeito da aflição que acompanhou o relato, também pude notar um brilho nos olhos da professora, quando falava dos êxitos alcançados de um lado e de outro, pequenas, mas expressivas vitórias que, aproximavam os alunos das duas realidades. Ao abrir os olhos dos alunos, essa educadora transfere, indistintamente, mais do que conhecimentos objetivos; ela transmite sabedoria, novos horizontes, além dos limites das favelas de uns e dos lugares sofisticados de outros. Educação é ponte, inclusive, entre abismos que separam a vida de jovens que vivem tão próximos.

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