Prédio tradicional na esquina das ruas da Quitanda e Assembléia adere ao uso residencial

O bonito Ferreira Neves, em estilo Art Déco, tem 9 andares, vista ampla, e fica próximo aos restaurantes e lojas mais movimentados do Centro. Seus proprietários se reuniram e por unanimidade decidiram por autorizar o uso misto e a moradia em suas unidades

O tradicional Edifício Ferreira Neves, bem na esquina da Rua da Assembléia com a da Quitanda, com sua fachada Art Déco, resolveu em reunião de condôminos admitir o uso residencial.

A movimentada esquina da rua da Quitanda com a rua da Assembléia fica no trecho mais largo da rua que começa na São José e termina do outro lado da Avenida Presidente Vargas. Repleta de comércio, restaurantes tradicionais, e os prédios de escritórios mais valorizados do Centro, assim como edifícios garagem, foi, sem dúvida, junto com a Praça XV, a primeira região a reagir no pós-pandemia, e já fervilha de pessoas, principalmente de terça a sexta. Mas o sofrimento pelo qual o mercado de escritórios vem passando não é segredo pra ninguém.

Dados da Sergio Castro Imóveis bando conta de que quase 35% dos escritórios deste sub-setor do grande centro ainda se encontram desocupados. Na região da Miguel Couto, Teófilo Otoni e Largo de Santa Rita, por exemplo, esta vacância sobe a inimagináveis 65%, o que demonstra a grande diferença entre as diversas sub-zonas do Centro Histórico. Na Cinelândia, o quociente de escritórios vazios é de 40%. Há pequenos oásis de sucesso, como o tradicional edifício Linneo de Paula Machado, na Almirante Barroso, que tem apenas 21% de vacância. Mas é uma exceção, e a dificuldade em locar seus imóveis tem gerado nos proprietários grande apreensão, pois o custo médio de condomínio mensal na região beira os 25 reais por metro quadrado, conforme explica Wilton Alves, diretor de administração de bens da tradicional imobiliária que realizou negócios importantes no tempo recente, como a venda do Edifício Serrador, do Largo do Boticário e da Fábrica do Sabão Português, na Avenida Brasil.

Preocupados com os condomínios e com a dificuldade de conseguir ocupantes para seus escritórios, as pessoas começam a virar-se para as idéias do arquiteto Washington Fajardo, idealizador do projeto Reviver Centro, que visa ajudar a região a se ocupar e se re-desenvolver estimulando que haja cada vez mais ocupantes moradores, assim como fachadas vivas (lojas ocupadas). O projeto completou dois anos hoje (14/7). Alguns edifícios inteiros, de um dono só, já fizeram o movimento; foi assim com o antigo Hotel Nice, na Rua do Riachuelo; ou com o Hotel São Francisco, na Visconde de Inhaúma. O prédio da Irmandade de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores, na rua Sete de Setembro, também está passando por este processo. Mas a situação tem sido mais lenta com os condomínios, onde a fragmentação excessiva da propriedade coloca pessoas proprietárias de unidades em grandes edifícios em condições opostas; uns, com seus imóveis alugados ou com escritórios próprios no endereço, não querem realizar o movimento; outros, pagando condomínio e IPTU de imóveis vazios, querem se ver livres do “pepino” e consideram a mudança pro residencial ou pro uso misto uma alternativa para gerar mais possibilidades de ocupação. As salas comerciais em alguns casos são consideradas inalugáveis por corretores. Tudo isso gera debates e embates. Mas uma hora a coisa sai.

E saiu. O tradicional – e muito bonito – Edifício Ferreira Neves, bem na esquina da Assembléia com a Quitanda, onde recebe o número 20, aprovou em uma Assembléia Geral Extraordinária realizada em Fevereiro, a transformação do prédio de Comercial em Misto, podendo agora receber residências. A decisão foi tomada por unanimidade dos condôminos, segundo ata da BCF Administradora de Bens a que o DIÁRIO teve acesso. Pela lei brasileira – recentemente aprovada por iniciativa do Senador Carlos Portinho – são necessários 2/3 dos proprietários para que ocorra uma transformação do tipo. O prédio possui 9 andares, 3 elevadores, e uma decoração nas escadas e nos andares em belíssimos charmosos mosaicos coloridos – nfelizmente em alguns dos andares foi coberta por tinta bege ou piso frio – de inspiração claramente arabesca. Dois de seus elevadores, com portais em mármore rosa português – alguns cobertos por inexpressivo granito paraná – foram trocados recentemente. O elevador de carga, segundo levantamos, se encontra parado há anos. Suas charmosas janelas em madeira dão um toque especial `a fachada de linhas geométricas, com charmoso gradil em bronze nas esquinas.

O prédio foi sede da agência de turismo Soletur durante anos, e tinha uma das únicas agencias de correio filatélicas da região. Ambos os imóveis (loja e sobreloja) se encontram fechados. “Esta localização é muito boa. Está próxima da garagem, do metrô, do VLT, do aeroporto, dos centros culturais e dos restaurantes da região da Praça XV, que funcionam sábado e domingo“, disse o comerciante Paulo Souto, que tem uma loja próxima.

O DIÁRIO levantou que há edifícios mistos muito procurados no Centro. O Edifício Santos Vahlis, na Senador Dantas 117, é um dos mais procurados, por ser considerado extremamente organizado e bem administrado. Outros, como o Edifício Patriarca, no Largo de São Francisco 26, têm bonita arquitetura mas numa simples observação por fora nota-se janelas destruídas e carcomidas, pintura estragada, vidros quebrados, roupa suja pendurada na fachada e um aspecto de abandono e má administração. Muito procurado também é o Edifício Santa Branca, na Av. Presidente Antônio Carlos, que disputa com o tradicional São Miguel (de aparência mal tratada, mas com linda vista pro Aterro) os moradores daquele pedacinho próximo à Igreja de Santa Luzia. Outros, inexplicavelmente vivem vazios e fechados, embora se saiba que seja grande a procura de apartamentos no Centro: é o caso do prédio muito bonito que fica acima da Confeitaria Manon – vazio há anos – e do belíssimo prédio que pertence à Academia Brasileira de Letras, na Uruguaiana número 106. Morar no Centro aos poucos vai voltando a se tornar uma realidade e um desejo.

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