Quilombos do Rio sobrevivem promovendo eventos culturais que provocam reflexões sociais e antirracistas

As realizações dos encontros com apresentações artísticas e vendas de alimentos, artesanatos e outros utensílios ajudam a manter os locais abertos, resistindo às dificuldades

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A imagem mostra Rosilene Almeida no caminho da ancestralidade, no Quilombo do Camorim, onde a arqueóloga Silvia Peixoto fez uma pesquisa de doutorado. Foto: Felipe Lucena

O estado do Rio de Janeiro tem 53 quilombos. Sete ficam na capital. Entre esses existem os rurais e os urbanos. Os dados são Associação das Comunidades Quilombolas do Estado do Rio de Janeiro – ACQUILERJ. Os problemas de praticamente todos são muito parecidos: dificuldades para manter o território e como sobreviver socioeconomicamente mantendo vivas as tradições e memórias existentes e resistentes.

“A gente luta tanto, tanto, por esses territórios, e muitas vezes consegue proteger esses lugares, mas e a gente? E os nossos corpos?”, disse, emocionada, a liderança local Rosilane Almeida, filha de Adilson Batista Almeida, que é o fundador, presidente e diretor da Associação Cultural do Camorim (ACUCA),  criada em 1998.

Com dificuldades gerais para viver da terra, através da agricultura ou agropecuária, os quilombos urbanos promovem eventos, encontros e outras realizações para se viabilizarem socioeconomicamente e, com isso, conseguem manter as tradições e os históricos ideais vivos. Ajudando, inclusive, a conscientizar visitantes que não são, necessariamente, quilombolas, pessoas ligadas a movimentos de lutas antirracistas ou de causas territoriais.

Datas simbólicas para o movimento negro, como a semana que marca o dia da abolição da escravatura no Brasil e eventos religiosos, dia de São Jorge, por exemplo, são momentos de grande número de visitantes nos quilombos. Entretanto, rotineiras feijoadas e rodas de samba ajudam (e muito) a movimentar a economia dos espaços e manter tudo funcionando bem, apesar das dificuldades. As visitas turísticas também são um ativo importante.

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Camorim

O Quilombo do Camorim é um dos três quilombos que está localizado na área do Parque Estadual da Pedra Branca. Além dele, existem o Cafundá Astrogilda, em Vargem Grande, e o Dona Bilina, Campo Grande. Para manter o território ancestral na ativa, os responsáveis pelo espaço costumam promover encontros e eventos nos locais.

Fotos: Felipe Lucena

Os eventos ajudam bastante a manter o espaço do quilombo funcionando. Todo mundo colabora um pouco com as realizações dessas atividades, que envolvem encontros culturais, festas, feijoadas, visitas e outros acontecimentos abertos ao público. Assim, conseguimos pagar as contas e fazer a manutenção da área do quilombo, porque não recebemos ajuda financeira de ninguém aqui“, contou Rosilene Almeida.

Pesquisas indicam que o Quilombo do Camorim provavelmente foi formado em 1625 pelos negros que fugiram da fazenda de Gonçalo Sá, na atual região de Jacarepaguá. Certificado em 2014 pela Fundação Cultural Palmares, o lugar ainda encontra problemas para se manter por conta da especulação imobiliária. Uma parte de sua área foi devastada por obras de um condomínio vizinho, erguido para abrigar a imprensa internacional durante os Jogos Olímpicos do Rio de 2016. Inclusive, uma ponte histórica, construída por pessoas escravizadas, foi derrubada. Em 2018, o quilombo foi tombado.

Antiga ponte, derrubada durante as obras do condômino Grand Verdant. Foto: Felipe Lucena

Outros exemplos de quilombos uranos na cidade do Rio de Janeiro se destacam na realização de eventos culturais para se manter socioeconomicamente e impulsionar os debates das lutas quilombolas.

Pedra do Sal

Lotado de turistas e cariocas praticamente todos os dias da semana, a Pedra do Sal é um quilombo urbano que foi tombado em 20 de novembro de 1984 pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (INEPAC). Durante eventos de samba, choro e outros gêneros musicais, entre barracas que vendem alimentos e bebidas, muita gente acaba conhecendo a história do lugar e as lutas quilombolas existentes no Rio de Janeiro e no restante do país.

“Na primeira vez que estive aqui, logo me contaram sobre o que é a Pedra do Sal e a sua importância histórica. Fiquei muito impactada. É importante demais que locais como esse resistam promovendo cultura e mostrando para o mundo questões que precisam ser debatidas para que encontremos soluções para resolver o racismo ainda presente em um país como o Brasil, a luta para se manter em um território que é lugar de pertencimento e as desigualdades sociais“, frisou a professora Valéria Freitas, que é moradora do estado de São Paulo.

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Foto: Prefeitura do Rio de Janeiro

A história da Pedra do Sal começou no início dos anos 1600, com uma grande ocupação de baianos escravizados. Com o passar dos anos, o local se tornou ponto de encontro, sobretudo religioso, do povo preto que vivia na região central da cidade do Rio de Janeiro.

“A Pedra do Sal é, em suma, mais que um bem cultural de todo o povo brasileiro. É um monumento histórico e religioso da cidade do Rio de Janeiro“, declarou o historiador Joel Rufino dos Santos.

Casa do Nando

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Foto: Reprodução/Instagram

Outro quilombo urbano famoso por receber muitos eventos no centro da cidade do Rio fica na Rua Camerino, 176. A Casa do Nando “é um espaço de encontros e resistência negra que começou de forma despretensiosa em 2013, oferecendo abrigo a uma roda de samba durante uma chuva forte. O local se tornou um espaço de atividades culturais, debates, música e culinária afro-carioca, promovendo a expressão artística e a reafirmação de ancestralidade na região da Pequena África, no Rio de Janeiro”, escreveu Wellington Ferreira para o portal Wikifavelas.

“No dia 30 de outubro de 2013, devido a uma forte chuva com ventos fortes, a lona que servia de abrigo a Roda de Samba na Pedra do Sal rasgou-se, e com isso os músicos presentes aceitaram o convite de Fernando (Nando) que os convidou para sua residência que ficava atrás da Pedra do Sal e ali viu uma forma de alegrar povo que devido à chuva não haveria mais a roda de samba. Neste momento os músicos e as pessoas que ali estavam foram para a casa de Fernando, já que anteriormente após as rodas de samba das segundas-feiras ocorria um open house e ali tornou-se um lugar de resistência negra. Com isso, devido ao sucesso a Casa do Nando mudou-se da Travessa do Sereno para o Largo da Prainha onde tornou-se o Quilombo Cultural Casa do Nando“, segue o texto de Wellington Ferreira.

Com quase três anos de funcionamento no Largo da Prainha, o local se tornou ponto de convergência de diversos coletivos de arte e cultura com portas abertas para todos.

As várias atividades realizadas na Casa do Nando têm o intuito de reafirmar origens e ancestralidades. Por exemplo, o cardápio da culinária afro-carioca e está intimamente ligado à história da Pequena África, onde o quilombo está localizado. A Casa é um espaço de encontros, debates, música e alimentação onde todos são bem vindos.

Com programação semanal, a Casa do Nando está sempre cheia. “Quilombo urbano extremamente rico culturalmente. Espaço super acolhedor e ótimo para ir em um samba, comer uma feijoada. Além de ser um lugar para negros e brancos conhecerem a história que é de todos nós, brasileiros“, afirma Jose Mattos, que costuma ir ao local com frequência.

Sacopã

Próximo da Lagoa Rodrigo de Freitas, em uma das áreas mais caras da cidade do Rio de Janeiro, o Quilombo Sacopã teve início em 1929, quando Manoel Pinto Júnior estabeleceu-se na Ladeira do Sacopã. Manoel Pinto trouxe de Nova Friburgo a sua mulher, Eva Manoela Cruz e os cinco filhos do casal.

Na sequência dos anos, os seus descendentes adotaram a denominação de quilombolas em 1999. Seis anos depois, em 2005, receberam a certificação da Fundação Palmares. O título de reconhecimento de domínio sobre as terras foi concedido pelo Governo Federal em 2014. Desde então, local recebe visitantes para eventos culturais e gastronômicos.

Com uma organizada programação de constantes eventos, o Sacopã segue a linha da conscientização através da promoção desses encontros que envolvem música e culinária tradicional. Um exemplo recente foi a semana do dia da abolição da escravatura.

Um evento realizado no local começou com uma homenagem a Luiz Gama, que foi escravizado ainda criança e se tornou um famoso escritor abolicionista. Após a exibição do filme “Luiz Gama: o poeta da liberdade”, rolou um bate-papo com os historiadores envolvidos no projeto História Cantada. Na sequência, aconteceu o show “Os Sambas da Minha Terra”, com a cantora Patricia Mauro. Além de Feijoada, petiscos e cerveja gelada.

A rotina de eventos do quilombo é divulgada nas redes sociais, sobretudo no Instagram, com bastante adesão em comentários e compartilhamentos por parte do público. O Sacopã ocupa uma área de 6404,17 m², que faz parte do Parque Natural Municipal José Guilherme Merquior.

Caminho Iluminado

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Quilombo do Camorim. Foto: Felipe Lucena

Segundo o último Censo Demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o estado do Rio de Janeiro possui atualmente 20.344 quilombolas vivendo em 37 de seus 92 municípios. Na cidade do Rio, são 2.866. A capital é a terceira no ranking estadual, atrás de Campos dos Goytacazes e Cabo Frio.

“Quilombos se constituem como territórios que expressam a luta coletiva da população negra ao longo da história e que resistem mesmo diante dos ataques do racismo estrutural. Fomentar a discussão frente às territorialidades e comunidades quilombolas consiste como um percurso essencial na política de assistência social“, pontuou Bruna Ferreira Corrêa, mestranda em Política Social e Serviço Social.

São muitas as pesquisas e estudos que mostram o potencial socioeconômico e empreendedor dos quilombos (urbanos ou rurais) em todo o país. Seguindo a memórias e reforçando as lutas históricas, esses ativos têm como inevitável consequência a conscientização de muitas pessoas, sobretudo as que não fazem parte de grupos quilombolas ou movimentos de lutas antirracistas. É um caminho para um longo futuro, partindo da ancestralidade. Como diz o samba famoso na voz de Zeca Pagodinho: “O pai me disse que a tradição é lanterna“. Em tempos modernos obscuros, isso é importante demais.

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2 COMENTÁRIOS

  1. Espero que os quilombolas se livrem desses esquerdistas e seus discursos retrógrados, socialistas, ensebados, para se tornarem pessoas ricas e prósperas profissionalmente. Caso não façam isso, suas próximas gerações serão transformadas em peças de museu antropológico, estáticas socialmente, com olhos no passado, quase uma caricatura de si mesmos, bem ao gosto da esquerda, assim como eles fazem com os indígenas. Livrem-se dessa gente!

  2. Por que não se inicia nos Quilombos cursos em áreas que farão dos mesmo centros de produção e até pesquisas?
    Pode ser na área agrícola, mecânica, artes também, óbvio, etc etc etc.
    Muitos desses Quilombos podem sair grandes cientistas…

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