Foto: Philippe Lima/Governo do Estado do Rio de Janeiro

Há um erro grande de alguns políticos e de boa parte da imprensa do Rio de Janeiro em acharem que a população veria com maus olhos as operações de segurança do governo, as incursões em favelas e mesmo as operações de ordem urbana por parte da Prefeitura. O carioca se sente inseguro, o fluminense não gosta de desordem, por mais que façam uma tentativa de desenha-los como exatamente o oposto. Quem mora sob o domínio de traficantes e milicianos não está nada feliz.

Foi justamente o fato de tantos políticos viverem em bolhas, distantes do grosso de uma população majoritariamente conservadora, que fez com que Jair Bolsonaro fosse tão bem votado no estado em 2018, e ainda elegesse a reboque um desconhecido juiz, Wilson Witzel (PSC). Ambos defendiam uma pauta de conflito, de defesa da polícia e de combate ao tráfico. Enquanto esta questão era levada para debates acadêmicos por parte dos outros candidatos, que se mostraram tímidos quando o assunto era segurança. Na verdade, a situação do Rio é tal que o político que tiver um plano de combate ao poder paralelo do tráfico e milícias, mostrando que agirá duramente contra as organizações, tem grandes chances de ser eleito, bastando ter projetos “medianos” para as outras áreas.

Não por acaso, ambos foram bem votados em áreas dominadas pela milícia e narcotraficantes, de tão cansadas que as pessoas estão de viver sob a mira do fuzil. E não ajuda nada quando após uma operação como a do Jacarezinho, mostram na TV a mãe de bandidos gritando pedindo Justiça. Para a maior parte da população, os bandidos mortos é que foram a verdadeira Justiça. As pessoas que vivem em áreas conflagradas não agüentam mais suas filhas sendo obrigadas a sair e se relacionar com traficantes; as senhoras não agüentam mais ter gente separando drogas e embalando cocaína na cozinha das suas casas, e nem os moradores adoram ver pessoas guardando armas debaixo das camas onde dormem.

Essas pessoas que vivem em áreas conflagradas, se comportam em público como querem os “donos da favela”. Depois das incursões policiais, se jogam no chão, queimam pneus, gritam que morreram trabalhadores. O script é seguido à risca. Mas na hora que estão dentro da cabine de votação, o número que digitam muitas vezes é o do candidato que promete acabar com tudo aquilo, inclusive à custa de incursões policiais. Aquele momento de cara-a-cara com a urna eleitoral é um momento pessoal; ali é o local onde ‘falam a verdade’, muito mais do que quando são entrevistados pela TV Local, mostrando a cara. Isso aí é que quem está na bolha da intelectualidade de esquerda não percebe.

No Semana no Rio da última semana, Felipe Lucena e eu debatemos esta questão, de forma acalorada; um debate em que ele insiste que houve chacina, enquanto demonstro que houve operação policial. Vocês podem assistir abaixo:

Não resta dúvidas que a solução para a violência passa por um combate efetivo ao tráfico de armas e não só de drogas. Mas as pessoas têm consciência de que a solução total do problema não pode começar sem vitórias em batalhas iniciais. A legalização das drogas é uma das hipóteses possíveis para tornar inútil e imprestável o comércio dos traficantes: como diz o presidente do DIÁRIO DO RIO, meu amigo Claudio André, ao criar-se uma DrograBras pra distribuir as drogas a quem é usuário, o traficante perderia sua utilidade. Mas há diversas outras possibilidades para diminuir o poder paralelo dos traficantes. Nenhuma delas passa por deixá-los quietos onde estão. Até porque se não tiverem drogas para vender, buscarão outro tipo de vida fácil e curta: precisam ostentar suas correntes de ouro ridículas e seus tênis novos e coloridos.

E sabendo disso tudo, o governador Claudio Castro (PSC) acabou cometendo um grande acerto ao defender publicamente a operação policial no Jacarezinho. Ao contrário que fica no imaginário de quem é contra e vive em sua própria bolha, ele não falou apenas ao eleitor bolsonarista, que chega a importantes mas insuficientes 20% da população. Castro falou com boa parte da população que vive em locais com tiroteios diários, como é o caso da Praça Seca, onde nasci e vivi por mais de 30 anos. Não tomem o grito da moradora na frente das câmeras pelo que pensa quietinho em casa – ou sozinho em frente à urna – quem vive há anos sob o domínio de malfeitores.

O ódio ao poder paralelo dos bandidos desprezíveis que dominam as favelas – sejam traficantes ou milicianos – é um sentimento comum à absoluta maioria dos fluminenses. E pouco importa se são de esquerda, direita ou de centro. Eles querem o fim da atuação destes que são o câncer da sociedade. Isso se depreende também dos milhares de emails, comentários e mensagens que recebemos quando publicamos o último editorial em que defendemos a operação. O político que souber usar isto de forma equilibrada, sem gritar por “tiro na cabecinha“, tem uma chance enorme de tomar de assalto o Palácio das Laranjeiras no próximo pleito. Ou manter-se nele.

Castro também deu apoio aos policiais: seu secretário da Polícia Civil, Allan Turnowski, fez um belo discurso no funeral do policial que morreu durante a operação, o inspetor André Leonardo de Mello Frias. Uma presença que vai ser lembrada por muito tempo pela corporação. O tratou como um herói que caiu combatendo um inimigo que não quis fugir, pois tinha preparado aquele território durante um ano inteiro, instalando casamatas e barreiras, e outras instalações semi-militares, aproveitando a proibição de incursões policiais pelo STF.

Enquanto isso a esquerda e parte da imprensa meteram, uma vez mais, os pés pelas mãos. Chamaram de chacina o que foi claramente um combate policial. Como bem disse Turnowski, os traficantes que normalmente fogem, fincaram o pé e não quiseram deixar o Jacarezinho. Uma jornalista chegou a dizer na TV que não faria sentido morrer apenas 1 policial e tantos traficantes, como se o policial não fosse um profissional treinado para este tipo de combate, enquanto o bandido não passa de um fanfarrão que acha que basta ter uma arma e um cordão de ouro da grossura de uma corrente de bicicleta para se tornar uma espécie de Rambo tupiniquim. Isto sem contar que o Policial conhece a operação de antemão e em detalhe, enquanto o bandido no máximo tem uma vaga idéia de como a polícia atuará durante o combate. Nunca ouviram falar em treinamento, efeito-surpresa?

Começaram até a divulgar uma tosca fake news de que a Polícia Civil teria entrado na área apenas para liberar o espaço para a milícia. Uma loucura tão absurda que até me fez ser chamado de porta voz de miliciano ao escrever um editorial explicando, detalhando e apoiando a operação. Isso como se polícia e milícia fossem a mesma coisa, da mesma forma que favelado e traficante são coisas completamente diferentes.

Castro, que tinha apenas 5% de avaliações ótimo+bom e aparecia em 6º numa importante mas ainda preliminar pesquisa para governador do Rio, certamente verá crescer sua popularidade. Enquanto isso, a previsível e cansativa posição da esquerda pode diminuir as chances de Freixo para governador do Rio; ninguém quer, no momento, na liderança do Executivo, alguém que não pareça querer lutar e bater de frente contra o crime organizado. Ou mesmo alguém que pareça achar que apenas a milícia merece ser combatida. Se a milícia é um câncer, o tráfico também o é. São organizações assassinas, desprezíveis e inimigas do Rio de Janeiro. Pouco importa se temos mais traficantes do que milicianos, ou vice-versa.

Em breve, Castro deverá apresentar o projeto Rio+Seguro, uma evolução do Segurança Presente. Enquanto o programa Presente é focado nas áreas mais comerciais dos bairros, o Rio+Seguro deve trazer de volta o velho sistema Cosme e Damião (quem é mais velho se lembra da dupla de policiais que andava pelas ruas do bairro), com policiamento mais ostensivo por bairros do estado. Algo melhor que a UPP, que acabou sendo um cobertor muito curto, depois de ser transformado em um projeto eleitoreiro, e crescer em velocidade muito maior do que o treinamento de policiais e o investimento em segurança. Afinal, não adianta conquistar e dominar, se não for possível manter.

O novo projeto deve começar por Copacabana, com tolerância zero à criminalidade e, se der certo, Claudio Castro começará a pavimentar seu caminho para uma reeleição, que hoje ainda parece meio distante. Só que após ver sua atuação na operação do Jacarezinho, passa a ser possível.

2 COMENTÁRIOS

  1. Sobre a operação servir para milícia, exemplos são o que não faltam de outras regiões da cidade… Ainda que não direta e intencionalmente. Foram presos essa semana policial militar, um do exército e um civil perto de uma delegacia dentro de um carro roubado. Todos de uma milícia.

  2. “um debate em que ele insiste que houve chacina, enquanto demonstro que houve operação policial”

    Destaco os seguintes trechos:
    “ele insiste”
    “(eu) demonstro”

    Eu assisti e não vi você demonstrando nada de coisa alguma.

    – Depois dessa afirmação na matéria, (me colocando) no lugar do Felipe Lucena pediria demissão.

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