Na teoria, começa nesta quarta-feira (21) no Rio a maior exposição de Ai Weiwei a circular pelo Brasil. Na prática, desde a semana passada quem passa em frente ao Centro Cultural Banco do Brasil já vê e interage com sua obra mais impactante.

‘Forever Bicycles’, em frente a CCBB (João Pequeno)


Em seus mais de 9 metros de altura por 30 de comprimento, a instalação “Forever Bicycles” (“Bicicletas Para Sempre”) já se encontra exposta em frente ao CCBB e à Igreja da Candelária, onde forma uma espécie de túnel para quem passeia pela orla portuária e até de escalador para crianças mais ousadas.

Construída com mais de mil bicicletas, a obra se dedica ao principal meio de transporte em seu país natal, especialmente antes do salto econômico dado nas últimas três décadas, e acabou se tornando parte da história desta própria mostra “Raiz”, idealizada em 2011 pelo curador Marcello Dantas, que convidou o artista chinês a reproduzir aqui no Brasil sua técnica de agrupar milhares, até milhões de peças como em “Sunflower Seeds” feia com sementes de girassol de porcelana, pintadas por artesãos chineses.

No meio do caminho, entretanto, havia o governo chinês, com o qual Ai Weiwei praticamente já nasceu em litígio. Em 1958, com um ano de idade, foi viver em campos de trabalhos forçados com o pai, o poeta Ai Qing, condenado a viver limpando privadas por ser considerado dissidente da revolução comandada nove anos antes por Mao Tsé-Tung. Weiwei só saiu aos 17 anos dessa espécie de exílio – que nunca saiu dele. 

Enquanto recebia o convite para montar sua versão brasileira, Weiwei vivia entre detenções e prisões domiciliares – isso mesmo tendo ajudado a desenhar o Estádio Olímpico de Pequim para os Jogos de 2008. Em 2010, foi detido e impedido de comparecer ao banquete com 10 mil caranguejos que organizou para celebrar a demolição de seu estúdio em Xangai. 

Visitante entre as bicicletas (João Pequeno)

O número e o crustáceo em grandes grupos eram símbolos do maoísmo e de sua ideia de “harmonia”. O Partido Comunista da China, cuja ditadura completa sete décadas neste ano, não gostou nada. Proibido de deixar o país, ele voltou a ser detido em abril de 2011, quando tentava embarcar para Hong Kong. 

No mesmo ano, passou a ser investigado por “pornografia”, ao aparecer em uma foto com quatro mulheres nuas. Mesmo assim, expôs suas bicicletas, às quais também se refere como um símbolo de liberdade, em Taiwan – na mostra “Ausente”, montada quando a China tentava retomar o controle sobre a ilha, o que nunca conseguiu. 

Depois disso, Ai Weiwei só conseguiu deixar a China em 2015, quando foi para Berlim, onde vive atualmente, aos 61 anos. Sem abrir mão da crítica política, ele mantém equipes de vídeo em Hong Kong, onde protestos tentam manter a liberdade relativa, herdada do antigo domínio britânico, em relação ao governo central chinês.

As 60 obras reunidas em “Ai Weiwei ­– Raiz” trazem o mesmo conceito de reunir elementos repetidos e/ou semelhantes. “Grapes” (“Uvas”) junta 32 bancos de madeira da Dinastia Qing, através de técnicas tradicionais de marcenaria chinesa, enquanto “Martin” e “Level” (Nível”) integram a série “Seven Roots” (“Sete Raízes”), criada a partir de raízes desenterradas em Trancoso, na Bahia, com a meta de contextos culturais chineses e brasileiros.

Foto: Divulgação

Não restrita à política, a provocação de Weiwei chega ao objeto múltiplo formado por moldes de porcelana de quatro elementos brasileiros: fruta do conde, ostra, dendê e abacaxi, cujo nome é composto pelas letras iniciais de cada um deles, nessa ordem. 

Esculturas de madeira à moda artesanal de Juazeiro do Norte (CE), trabalhos em couro e o alfabeto armorial, de Ariano Suassuna, também integram a mostra, assim como pandas de pelúcia recheados com cópias de documentos confidenciais vazados do governo dos EUA.

Recheando pandas: Reprodução

Ai Weiwei – Raiz. CCBB. Rua Primeiro de Março, 66, Centro (em frente à Candelária). Tel.: 3808-2020. De 21 de agosto a 4 de novembro, de quarta a segunda-feira, das 9h às 21h. Entrada gratuita. culturabancodobrasil.com.br/portal/rio-de-janeiro

Mais exposições em cartaz

Rio – Energia em movimento
Outra exposição que aborda modificações da cidade, como a demolição do Morro do Castelo. Com fotos antigas, de Augusto Malta, e recentes, de André Cyriaco, ela mostra a chegada, no início do século 20, de serviços hoje mais do que comuns, como iluminação, transporte, gás e energia elétrica. Até 30 de agosto, de segunda a sexta (9h/19h), no Centro Cultural Light (Av. Marechal Floriano 168, Central). 

(Augusto Malta)

Paula Rocha – Espaços invisíveis
Com curadoria de Eduardo Guga Feijó, reúne pinturas da artista até 25 de agosto na Galeria Modernistas (Rua Paschoal Carlos Magno 39, Santa Teresa. Tel.: 3852-8265). Quarta a sábado, das 11h às 17h. Domingo, das 11h às 14h.

Duo
Em cerca 50 trabalhos, a exposição combina pinturas de John Nicholson e fotografias de Vanda Klabin. Terça a domingo, das 13h às 20h. Até 25 de agosto, na Casa de Cultura Laura Alvim (Avenida Vieira Souto 176, Ipanema. Tel.: 2332-2016).

Linha de Montagem
Bruno Lins expõe colagens e pinturas feitas nos últimos dois anos, de terça a domingo, das 12h às 19h, até 25 de agosto, no Centro Cultural Correios (Rua Visconde de Itaboraí 20, junto à Candelária, Centro. Tel.: 2253-1580).
Da linha, o fio
Com 23 artistas, entre eles Pedro Varela, Rodrigo Mogiz, Laura Lydia e Bispo do Rosário, a mostra reúne técnicas diversas como esculturas, instalações, pinturas, fotografias, vídeos, desenhos e objetos que têm em comum o uso da linhas e fios, até 20 de setembro, de segunda a sexta, das 10h às 19h. no Espaço Cultural BNDES (Av. Chile, 100, Carioca). Tel.: 2172-7447.

Longevos
Flavio Shiró, Carlos Vergara, Anna Bella Geiger, Martha Pires Ferreira, Nelson Leiner, Regina Vater e Thereza Miranda estão entre os artistas, todos com mais de 60 anos, em exposição até 13 de setembro, com técnicas que vão da pintura à gravura, do desenho à fotografia, no espaço Zagut (Shopping Cassino Atlântico. Av. Atlântica, 4240, loja 315, Copacabana-Posto 6). Tel.: 2235-5946. Das 10h às 13h e das 14h às 18h, de segunda a sexta. Sábado, só das 10h às 13h. Site.

(João Pequeno)

Em que espelho ficou perdida a minha face
Com curadoria de Marisa Flórido,Fernanda Leme expõe pinturas com base de inspiração nos autorretraros, em especial as atuais selfies. IED – Istituto Europeo di Design (Avenida João Luís Alves 13, Urca). Tel.: 3683-3786. De segunda a sexta, das 11h às 22h. Sábados, das 9h às 16h.

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