Roberto Anderson: A Usina dos italianos de Porto Real

Porto Real é uma cidade do Sul fluminense, com aproximadamente 20 mil habitantes, que sedia a fábrica da Peugeot Citroën, atual Stellantis

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Porto Real é uma cidade do Sul fluminense, com aproximadamente 20 mil habitantes, que sedia a fábrica da Peugeot Citroën, atual Stellantis. Até 1995, era parte de Resende. Mas, lá no passado, foi a localidade de Minhocal. Por ter tido uma porção de terra doada à coroa, na qual havia um desembarcadouro às margens do rio Paraíba do Sul, tornou-se Porto Real.

No final do século XIX, ela recebeu um grupo de colonos italianos que, supostamente, deveriam ir para Santa Catarina. Mas eles teriam preferido ficar por ali mesmo, já que gostaram do lugar. Esses colonos trabalharam duro, plantaram cana-de-açúcar e, para beneficiar essa produção, foi inaugurada em 1889 uma bela edificação projetada por arquitetos franceses, que veio a se chamar Açucareira Porto Real. Além da importância afetiva por ser parte importante da história local, o edifício é um dos cartões postais da cidade. É uma bela edificação industrial, em alvenaria de tijolos aparentes, com um corpo mais alto, em cuja fachada estão incrustados um relógio e um oratório.

A antiga usina assemelha-se em tipologia a outros edifícios industriais preservados, como as antigas fábricas de tecidos Bangu, o Moinho Fluminense e a Companhia Têxtil Brasil Industrial, esta última em Paracambi. Inexplicavelmente, a antiga Usina, depois fábrica da Coca-Cola, até hoje não é tombada, nem tem qualquer proteção legal. Mas, isso não lhe retira importância e a necessidade de ser preservada. Já faz muito tempo que os edifícios industriais do século XIX, e mesmo do século XX, entraram no radar dos órgãos de Patrimônio, que vêm buscando preservar esse período da história humana.

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Em maio deste ano, parte da fachada desabou, um acontecimento triste e deplorável, por evidenciar falta de cuidado. A parte desabada corresponde a uns 15% da edificação, portanto, a sua recuperação é perfeitamente possível e desejável. No entanto, a absurda solução encontrada pela Coca-Cola foi encomendar um projeto que parta da demolição total do que restou e reconstrua a edificação como um pastiche do prédio histórico existente. Sim, é isso mesmo, querem demolir o prédio histórico para reconstruí-lo como cenário.

Após esta ação danosa, criminosa mesmo, de demolição do que ainda resta de pé se concretizar, a empresa planeja reconstruir a volumetria do edifício utilizando alvenaria de bloco de concreto, com pilares pré-moldados. Posteriormente, toda fachada da nova edificação seria revestida com tijolinhos cerâmicos, similares aos tijolinhos maciços existentes na estrutura atual, que não são apenas um revestimento. As janelas e as portas da nova edificação teriam as mesmas medidas das atuais, mas seriam fabricadas em alumínio.

Quem imaginaria que a Coca-Cola promoveria algo fake, não é mesmo? Essa solução é inadmissível, e contraria todos os cânones de gestão de bens culturais. O Ministério Público deveria olhar esse caso de destruição do Patrimônio de Porto Real e impedir que a demolição do que ainda existe se concretize. Os cidadãos de Porto Real deveriam se indignar com a destruição da sua história. E o órgão de Patrimônio estadual, o Inepac, deveria agir, antes que seja tarde demais.

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Roberto Anderson é professor da PUC-Rio, tendo também ministrado aulas na UFRJ e na Universidade Santa Úrsula. Formou-se em arquitetura e urbanismo pela UFRJ, onde também se doutorou em urbanismo. Trabalhou no setor público boa parte de sua carreira. Atuou na Fundrem, na Secretaria de Estado de Planejamento, na Subprefeitura do Centro, no PDBG, e no Instituto Estadual do Patrimônio Cultural - Inepac, onde chegou à sua direção-geral.
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