Roberto Anderson: Aberto para balanço

O ano termina e você pensa e repensa tudo o que passou. Não só neste ano, mas em todos os outros que se foram

Você crê que malhou pesado o ano inteiro. Mas o espelho insiste em mostrar gordurinhas, adiposidades que não deviam estar ali. Pensando bem, os braços estão mais definidos. As pernas, se não estão como as dos atletas, têm aguentado seu peso com galhardia. A coluna reclama, mas nem todo esforço foi em vão. Fim de ano, hora de realizar balanços. 

Você trabalhou duro, perseguiu o sonho de comprar um sítio na serra, mas ainda não foi nesse ano. Plantou árvores, e isso foi um feito importante. Seus três ipês crescerão capturando carbono da atmosfera, tentando se contrapor aos milhares de árvores abatidas no país, especialmente na Amazônia. Você terá lutado contra o aquecimento global, não importa quão insuficiente sua contribuição tenha sido. 

Todas as manhãs em que madrugou nesse ano foram como se cumprisse uma missão. Sim, o seu trabalho paga as suas contas, e até lhe dá prazer. Mas você se vê quase imbuído de uma missão. Não importa que os frutos pareçam escassos. Você foi lá, a cada dia, e combateu o bom combate. No final do ano vem uma pausa. É o tempo para pensar em como melhorar aquilo que já faz há tantos anos. Alguma coisa boa há de resultar de todo esse esforço. 

Você se angustiou com o crescimento da pobreza. Você se inteirou da fome. Você contribuiu com campanhas por cestas básicas, mas em alguns meses relaxou e se esqueceu. Na hora de dormir, às vezes você pensou nos que estão nas ruas. Mesmo assim você dormiu. 

Você viu bons filmes, foi a boas exposições, leu bons livros. Você prometeu que voltaria ao teatro com mais frequência, mas, ao fim e ao cabo, só viu uns ballets já consagrados. Você estranhou que, na música, seus artistas preferidos ainda sejam os de décadas atrás. Mas você esteve aberto para descobrir novos talentos. 

Você viajou, dormiu em camas de hotel, buscou entender novas cidades. Conheceu pessoas novas, fez novos amigos, alguns se tornaram amigos de infância. Você admirou novos personagens que surgiram na vida pública trazendo ideias interessantes, novos questionamentos. Você se animou com o fortalecimento das lutas antirracistas, das lutas das mulheres e dos movimentos anti-homofobia.

Você reencontrou amigos de priscas eras. Você confraternizou, ouviu suas histórias, viu as fotos dos seus filhos já crescidos. E viu as fotos dos filhos que os filhos dos seus amigos tiveram. Você, que sonha em tê-los, mas ainda não tem netos. Você se inteirou das mazelas dos seus amigos, de suas doenças e pensou nas suas próprias, que existem, mas talvez não sejam tão sérias. Em vão, você acreditou ter encontrado novos amores.

Você perdeu amigos queridos, foi a velórios, abraçou os que ficaram, sentiu que há menos amigos por perto. Os anos estão levando-os. Por vezes, você se resignou a uma vida mais pacata, mais séries e mais filmes na TV. Mas você também reagiu e buscou as ruas, os parques, o contato com estranhos que nasceram muitas décadas depois de você. 

Você se preocupou dia e noite com os rumos do seu país. Teve momentos em que tudo parecia perdido, as pessoas cegas por ideias autoritárias. Mas você não desistiu. Seguiu todas as redes sociais disponíveis, respondeu a postagens infames, se envolveu em polêmicas. Você teve sua vida vasculhada por extremistas que não gostaram do que você escreveu e criaram uma campanha contra você. Mas você resistiu e logo eles foram atacar a próxima vítima. 

Você ligou ou enviou mensagens para cada conhecido, mesmo aqueles mais distantes, tentando convencê-los a votar certo. Você ouviu desaforos, queixas, desilusões. Mas você insistiu, se inscreveu em grupos que queriam ajudar na campanha, você foi às ruas, você foi aos comícios, você temeu que mais uma vez o mal vencesse. Mas você elegeu o novo presidente do Brasil!

O ano termina e você pensa e repensa tudo o que passou. Não só neste ano, mas em todos os outros que se foram. Você tem a impressão de ter vivido muitas vidas. Foram tantos trabalhos, tantos ideais, tantos amores, e tudo é passado. Tudo já bem distante. Seu rosto mudou, seus cabelos grisalharam, sua energia diminuiu. Seu tempo se reduz. Mas você não perde a esperança, você está vivo e você estará lá, no próximo ano. Força, que ainda há muito o que fazer. Feliz Ano Novo!

Roberto Anderson é professor da PUC-Rio, tendo também ministrado aulas na UFRJ e na Universidade Santa Úrsula. Formou-se em arquitetura e urbanismo pela UFRJ, onde também se doutorou em urbanismo. Trabalhou no setor público boa parte de sua carreira. Atuou na Fundrem, na Secretaria de Estado de Planejamento, na Subprefeitura do Centro, no PDBG, e no Instituto Estadual do Patrimônio Cultural - Inepac, onde chegou à sua direção-geral.
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