Roberto Anderson: As dunas verdes de Ipanema e Leblon

Olhando pelo prisma da conservação do meio ambiente, a recuperação de áreas de vegetação de restinga em praias urbanizadas Brasil afora já seria muitíssimo desejável

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Olhando pelo prisma da conservação do meio ambiente, a recuperação de áreas de vegetação de restinga em praias urbanizadas Brasil afora já seria muitíssimo desejável. Porém, se olharmos pelo prisma da crise climática, uma realidade que já se faz presente entre nós de forma avassaladora e dramática, a restauração de dunas e desse tipo de vegetação no litoral é uma ação fundamental de defesa de nossas costas e das cidades que ali existem. A cada ressaca mais forte no Rio de Janeiro a água do mar invade as areias das praias litorâneas, se esparrama pelo asfalto, muitas vezes chegando até às garagens dos edifícios. Mas as dunas junto às calçadas de Ipanema, que há alguns anos foram refeitas e replantadas, resistem.

No entanto, elas praticamente haviam desaparecido. Por pouco tempo ainda existiram as dunas do vapor barato, uma formação artificial e temporária que durou enquanto o emissário submarino de Ipanema era construído. Elas se tornaram um marco na cultura da cidade e deixaram saudades. Depois, a praia de Ipanema permaneceu sendo um grande areal, como a de Copacabana. Sem vegetação rasteira, um ou outro coqueiro tentando sobreviver na areia quente, uma aflição.

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Em 2009 teve início o projeto de recuperação de uma faixa de vegetação de restinga ao longo da calçada da praia. Seis mil metros cúbicos de areia foram remanejados para reconstituir junto às calçadas as dunas desaparecidas. Oito espécies nativas de restinga, como o feijão da praia, a perpétua e o capricho, foram utilizadas, num total de 38 mil mudas em 28 canteiros, que perfazem 10 mil m² de área plantada. O Instituto-E é o responsável pelo projeto, que já dura quinze anos com apoio financeiro da Osklen. Nesse longo período, quase um milagre em se tratando de política pública, foram despendidos R$ 2.800 milhões. Recentemente, o AirBnB e o Janeiro Hotel (antigo Marina) entraram como novos apoiadores dessa bela iniciativa, permitindo a sua continuidade e, quem sabe, a sua expansão.

Isso só foi possível graças ao sistema de adoção de áreas públicas por empresas ou pessoas físicas que, tanto a Fundação Parques e Jardins, como a Secretaria de Meio Ambiente (Smac) praticam. É um sistema muito vantajoso, em que não chega a haver uma concessão da área pública. Esta é uma questão muito em voga, especialmente com o discutível Projeto de Emenda à Lei Orgânica do Município do Rio n° 22/2023, do Vereador Pedro Duarte, do Partido Novo, que propõe que seja permitida a concessão ou cessão à iniciativa privada de parques e praças da cidade. Diferentemente da concessão, no sistema de adoção, como o das dunas de Ipanema, a cada dois anos o Instituto-E assina novo termo de adoção com a Smac, que mantém amplo controle sobre o que se faz, aprovando todas as ações a serem implementadas.

Apesar das dimensões do projeto, em termos de área de praia ocupada ele é mínimo. São faixas relativamente estreitas junto às calçadas, com as redes de vôlei colocadas no limite das áreas vegetadas, como se estivessem pressionando por sua redução. Da mesma forma, bombas de captação de água do lençol freático para resfriamento da areia das quadras de vôlei são instaladas nas suas bordas, o que não deve ajudar. No carnaval de 2011, superblocos de carnaval geraram o pisoteamento e vandalização dos canteiros pela imensa massa de foliões. O Bloco da Preta foi um dos que foi multado em função do ocorrido. Mas, chamados a tomar conhecimento do estrago causado, vários blocos participaram do processo de recuperação da vegetação.

Hoje as dunas de Ipanema e Leblon, com suas vegetações de restinga, estão plenamente consolidadas. Já se pode ver uma grande quantidade de mudas de coqueiros e outros arbustos crescendo por entre a vegetação mais rasteira. E já há registro de retorno de parte da fauna desses ecossistemas, como o besourinho-da-praia, o gafanhoto grande, a barata-do-coqueiro, o sabiá-da-praia, a coruja-buraqueira e a perereca.

Voltando ao tema do aquecimento global, há simulações extremamente preocupantes sobre os efeitos da elevação do nível do mar no litoral carioca. Se a temperatura do planeta subir 2º C, situação que tende a ocorrer pela falta de ação dos países mais emissores de gases do efeito estufa, haverá perda de faixas de areia no Leblon, em Copacabana, no Flamengo e na Barra, além da inundação das pistas do Aeroporto Santos Dumont e nas áreas perto da Rodoviária. Mas, se o processo de aquecimento global entrar em descontrole e o aumento da temperatura global chegar a 4º C ou mais, aí vão se embora boa parte das praias, a Cidade Universitária, a Barra da Tijuca inteira, além de diversos bairros na Zona Norte e na Baixada Fluminense.

Então, é preciso pressionar os governantes para que tomem medidas contra o aquecimento global. É preciso torcer para que haja juízo suficiente que evite a catástrofe. Enquanto isso, podemos ir recuperando as dunas e as vegetações de restinga, além dos manguezais, do litoral brasileiro. Os projetos de Kongjian Yu, o arquiteto que formulou o conceito de Cidade Esponja, englobam a recriação de barreiras naturais no litoral para barrar o avanço dos mares. Exatamente como as nossas dunas recriadas e revegetadas.

Copacabana, com sua larga faixa de areia não inteiramente utilizada pelos banhistas, fruto de um engordamento artificial, bem que poderia ser a próxima praia a receber esse projeto. Lá, os coqueiros ainda sofrem nas areias quentes e desprovidas de vegetação.

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Roberto Anderson é professor da PUC-Rio, tendo também ministrado aulas na UFRJ e na Universidade Santa Úrsula. Formou-se em arquitetura e urbanismo pela UFRJ, onde também se doutorou em urbanismo. Trabalhou no setor público boa parte de sua carreira. Atuou na Fundrem, na Secretaria de Estado de Planejamento, na Subprefeitura do Centro, no PDBG, e no Instituto Estadual do Patrimônio Cultural - Inepac, onde chegou à sua direção-geral.
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