Roberto Anderson: Caju escondido

'O Caju é um bairro “cul-de-sac”, como aquelas ruas sem saída que encontramos nas cidades. Mais ainda, é um bairro condenado a existir no quintal de grandes estruturas: um cemitério, um porto e um Arsenal de Marinha'

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Foto: Roberto Anderson

O Caju é um bairro “cul-de-sac”, como aquelas ruas sem saída que encontramos nas cidades. Mais ainda, é um bairro condenado a existir no quintal de grandes estruturas: um cemitério, um porto e um Arsenal de Marinha. Para chegar em casa, o morador passa um perrengue, especialmente se estiver a pé, já que as residências estão lá no fundo do bairro. O visitante que persevera, encontra um bairro com história, atrativos, muito potencial e problemas.

O Caju é um bairro esquecido pelo poder público, e por aqueles que fazem propostas para o futuro do Rio. Situado no início da Avenida Brasil, tem uma ótima localização, mas padece com poucas opções de transporte, muitos terrenos industriais e portuários subutilizados, caminhões e suas carrocerias estacionados ou abandonados nas ruas e calçadas, e áreas públicas maltratadas. Mas, veja bem, o Caju está separado da Cidade Universitária apenas por um canal. Bem poderia ser local de residências estudantis, caso essa ligação marítima fosse explorada. O Caju é também uma extensão natural da Área Portuária. Deveria ser incluído nas regras e propostas do Porto Maravilha. Mas não, foi São Cristóvão que ganhou essa extensão do projeto.

O Caju é, em parte, uma área de colonização portuguesa. Pescadores de Póvoa do Varzim lá se estabeleceram, tornando o lugar um importante ponto de pesca, antes da poluição da Baía de Guanabara. Talvez, essa herança lusitana tenha contribuído para o fato de ali terem existido tantas casas de madeira. Mas há também a história da falência da fábrica de trens que lá funcionava. Os trabalhadores foram construindo casas provisórias na Quinta do Caju, que aumentaram em número após a falência da empresa. Tendo os terrenos passado para a União, os moradores deviam seguir a regra de não construir em alvenaria, para não sugerir uma posse definitiva.

Hoje, depois de um longo processo, os moradores conquistaram a titularidade da propriedade e, infelizmente, há poucas dessas casas remanescentes. A casa em alvenaria parece representar uma maior possibilidade de estabilidade e, por razões culturais, é mais valorizada. Mas, as poucas casas em madeira que ainda resistem são graciosas e coloridas, com muito mais personalidade do que aquelas em alvenaria que as cercam. Seria interessante que os órgãos de Patrimônio as percebessem.

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Roberto Anderson é professor da PUC-Rio, tendo também ministrado aulas na UFRJ e na Universidade Santa Úrsula. Formou-se em arquitetura e urbanismo pela UFRJ, onde também se doutorou em urbanismo. Trabalhou no setor público boa parte de sua carreira. Atuou na Fundrem, na Secretaria de Estado de Planejamento, na Subprefeitura do Centro, no PDBG, e no Instituto Estadual do Patrimônio Cultural - Inepac, onde chegou à sua direção-geral.
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