Roberto Anderson: Favela alegria

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Em diversas favelas cariocas, especialmente naquelas da Zona Sul, ocorre um fenômeno curioso: a presença de moradores estrangeiros, fixos ou temporários. Para eles já existe um mercado, mais ou menos organizado, de oferta de vagas em hostels, pousadas, ou mesmo em imóveis de aluguel. Rocinha, Pereirão, Cantagalo, Chapéu Mangueira, Tavares Bastos e Vidigal certamente têm os seus gringos, sendo esta última uma das mais procuradas.

Mas, não só para hospedagem, têm sido procuradas as favelas por pessoas de fora. Há também uma demanda por restaurantes ali situados, que oferecem experiências de pratos com receitas de famílias, tudo com vistas deslumbrantes para a cidade. E há também visitas guiadas por moradores, que levam o visitante por becos e vielas morro acima. São boas oportunidades de estreitar laços entre partes distintas da mesma cidade, repensar conceitos, e desfazer preconceitos. 

Apesar de algumas recaídas momentâneas, vindas, especialmente, de representantes de um pensamento elitista e conservador, já se encontra superada a fase de acreditar que a remoção de favelas seja uma solução para as cidades, ou algo bom para os moradores que nelas residem. Excetuando-se os casos de áreas de risco, essa é uma solução que foi substituída pela lógica da reurbanização. Levar para as favelas a infraestrutura urbana que seus moradores, obviamente, não são capazes de construir, e respeitar o que foi edificado com a economia de várias gerações. Uma pena que, há algumas administrações, a Prefeitura do Rio tenha abandonado esse projeto. 

Mas há algo mais a se considerar, para além da constatação de que as favelas estão consolidadas. Com atenção para não cair na ingenuidade, é possível verificar que há sim níveis de solidariedade e de cooperação entre seus moradores, maiores do que nas áreas ditas formais. Talvez seja esta dose extra de empatia que atraia os moradores estrangeiros, desejosos de cura para a sensação de isolamento, mais presente em seus países. O arquiteto baiano Antônio Cunha assim descreve a sua experiência como hóspede numa favela carioca:

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“Passei um final de semana numa pousada no complexo Cantagalo/Pavão/Pavãozinho, entre Copacabana e Ipanema. A proprietária era uma mulher negra e bonita, ex-modelo que vivera na Europa, e me foi indicada por um casal de franceses. Saí de um hotel de luxo no Leme e, enfim, estava na paisagem urbana que representava o choque material entre o asfalto e o morro, a urbanização oficial dos códigos para as classes médias e abastadas, e a urbanização desordenada e arriscada dos pobres.

Há uma tensão nessa integração desses modelos urbanos, não no sentido da explosão, mas de uma tensão estrutural. Não é tranquilo viver assim, paga-se um preço emocional muito alto nessa convivência marcada pela disparidade imoral entre padrões de conforto e habitabilidade. Na favela se sobe, e se desce, escadas de altura equivalente a sete (ou mais) andares. No asfalto, no máximo três. Na favela não se tem muita privacidade, recolhimento. Falta água constantemente, a vida é dura!

Mas na favela tem muita proximidade entre as pessoas, solidariedade, rádio comunitária prestando informação e serviço para todo mundo. E se ganha dinheiro, há empreendedorismo e ONGs. Na favela tem cultura, dança, música, teatro, fotografia, artesanato e culinária. E ainda tem limpeza urbana, coleta de lixo, esgotamento pluvial e sanitário, claro que em situações bastante complexas.

A favela pulsa a noite toda. Adolescentes passeando e correndo, crianças gritando e chorando, conversas incessantes, música, tudo, vida a noite toda. Numa noite, voltando de Ipanema por um plano inclinado que dá acesso ao morro, me perdi. Percorri becos, escadarias e rampas até me reencontrar e chegar ao meu destino sem ser incomodado por ninguém! Meu quarto tinha janela voltada para Ipanema e da varanda onde se tomava café da manhã, tinha uma vista maravilhosa na direção do Leme.”

As favelas cariocas, os conjuntos habitacionais e as áreas de moradia popular têm sido assoladas pela violência do tráfico e das milícias. Quase que diariamente, fica-se sabendo de algum tiroteio com vítimas, muitas vezes fatais. Sem perder a percepção de estar num espaço que representa a enorme desigualdade social brasileira, onde reside “a enorme mão de obra barata que nos serve”, o relato de Cunha dá uma ideia, apesar da violência, dos valores buscados pelos visitantes que lá aportam. Esse afluxo de forasteiros pode promover gentrificação e encarecimento de aluguéis nas favelas. Mas, não sendo forçado, de fora para dentro, pode ter aspectos positivos pela troca de vivências e colaboração, trazidas por alguns que se tornam locais. A favela não é nem a solução ideal, nem tampouco um problema. É a solução possível, um espaço urbano real, consolidado, e com enormes potências. É hora de visitá-la.

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Roberto Anderson é professor da PUC-Rio, tendo também ministrado aulas na UFRJ e na Universidade Santa Úrsula. Formou-se em arquitetura e urbanismo pela UFRJ, onde também se doutorou em urbanismo. Trabalhou no setor público boa parte de sua carreira. Atuou na Fundrem, na Secretaria de Estado de Planejamento, na Subprefeitura do Centro, no PDBG, e no Instituto Estadual do Patrimônio Cultural - Inepac, onde chegou à sua direção-geral.
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