Visitei João Pessoa no início década de 1980. Era uma cidade agradável, não muito grande, com belas igrejas num centro histórico interessante, junto a uma bucólica lagoa. Os bairros litorâneos ainda não eram subcentros importantes da cidade, sendo muito utilizados como área de veraneio das famílias de mais alta renda. Eram também preferidos por forasteiros, entre eles, professores vindos do Sul, que estavam sendo contratados pela Universidade Federal local. O litoral entre Tambaú e Cabedelo era praticamente vazio. Percorria-se essas praias quase sem encontrar com ninguém.
Mas, desde o Plano de Remodelação de João Pessoa, de 1932, de autoria do urbanista Nestor de Figueiredo, já havia a previsão da ocupação do eixo em direção à Praia de Tambaú. A implantação dessas diretrizes definiu uma dicotomia social na cidade, indo as classes mais abastadas se localizar nessa área de expansão. Esse movimento de descentralização da cidade tornou-se mais efetivo na década de 90, quando se intensificou a ocupação de Cabo Branco, Tambaú e Manaíra no litoral, e de outros bairros, num movimento de espalhamento da mancha urbana. Hoje a cidade é bastante espraiada, com uma imensa área de preservação permanente no meio da mancha urbana, a Mata do Buraquinho, e áreas verdes ao longo dos rios.
As residências unifamiliares dos bairros da orla marítima, que serviam como casas de veraneio da elite local, foram substituídas por edifícios multifamiliares, em que o uso misto está muito presente. Como é comum em boa parte das cidades brasileiras, não há uma atenção à arborização urbana, quase inexistente. Com o fim dos quintais das residências unifamiliares, as árvores que ali existiam passam a fazer muita falta. As calçadas também não são ideais, já que estreitas e com obstáculos. Algumas são excessivamente inclinadas para conforto dos automóveis que acessam garagens ou estacionam em recuos dos prédios. E, atualmente, a tão desejada orla marítima se encontra poluída por ligações irregulares na rede de águas pluviais.
O crescimento populacional de João Pessoa é um processo que vem se intensificando. No censo de 2010, foram contabilizados 723 mil habitantes, enquanto no último censo eles já eram 833 mil, um aumento de 110 mil pessoas. É interessante observar uma diferença em relação ao que ocorreu no Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre, Recife, Belém, Fortaleza, Natal e Salvador, capitais que, de acordo com o Censo de 2022, perderam população no período entre as duas últimas contagens. Os pessoenses, que amam a qualidade de vida de sua cidade, já começam a se incomodar com o afluxo de novos moradores.
Esse crescimento se reflete na forte dinâmica da construção civil. Quase não há quadra nos bairros litorâneos em que não exista algum prédio sendo erguido. No entanto, os legisladores de João Pessoa, ou Jampa, tiveram a sabedoria de pensar essa verticalização de forma escalonada. Nas quadras próximas à praia são permitidos edifícios com três pavimentos e cobertura. Numa faixa mais recuada ficam os edifícios mais altos. Estes não costumam ser colados nas divisas laterais. Dessa forma, não se formou a barreira junto ao mar, típica de Copacabana, havendo melhor distribuição da capacidade de visualização do mar e melhor circulação dos ventos. Diga-se de passagem, que a orla, especialmente a de Tambaú, é muito usada à noite pelos pessoenses, que saem para passear, olhar o movimento e aproveitar a gostosa brisa que por lá sopra.
Mas, esse espalhamento gerou a saída de residências da área central. Ali ficou concentrado o comércio atacadista, em meio a um grande número de vendedores ambulantes. Nas proximidades desse centro, antigas residências foram transformadas em lojas e escritórios. Os edifícios residenciais ainda existentes no Centro são ocupados por famílias de renda mais baixa. Em 1982, o centro histórico de João Pessoa foi tombado pelo Estado da Paraíba. Mas, a perda de uso vem contribuindo para a degradação desse Patrimônio. E já se alerta o turista sobre locais inseguros nessa região, o que era impensável décadas atrás.
Esse é um processo conhecido em outras capitais brasileiras. O abandono das áreas centrais de nossas cidades, e a falta de cuidado com seus espaços públicos, é um triste fato que se repete sem que os gestores locais percebam o mal que estão fazendo. Os custos posteriores de revitalização dessas áreas são infinitamente maiores. Em João Pessoa, devido à sua escala mediana, com a devida atenção muitos desses problemas ainda podem ser sanados. Seria preciso não seguir repetindo erros já cometidos em outros locais. Com todos os seus novos problemas, João Pessoa ainda é um local muito agradável.