Roberto Anderson: Lugares roubados

Colunista do DIÁRIO DO RIO fala sobre o 07 de setembro

A avenida Presidente Vargas era um lugar imenso, de uma largura que as outras ruas não tinham. Era lá que acontecia o desfile militar e todo mundo queria ver. Senhores e senhoras se colocavam em pé na calçada para assistir os homens marchando. Não havia mulheres nas Forças Armadas. E nem eram os tanques o que mais atraia a atenção. O espetáculo era dos soldados em ordem unida passando diante do povo, aparentemente numa formação impecável. 
 
As crianças eram colocadas nos ombros dos pais. Ou subiam em algum providencial caixote de madeira, que sempre aparecia. Os homens mais altos davam licença para que senhoras e crianças passassem à frente, para melhor verem a parada. Havia um sentimento patriótico e havia gentileza.
 
À frente dos pelotões vinham os pracinhas, senhores sorridentes que acenavam à multidão. Haviam cumprido seu dever com a pátria, mesmo que essa não lhes fosse generosa na velhice. Passavam os fuzileiros navais em suas fardas vermelhas, os soldados em roupas camufladas, o batalhão com cães e a cavalaria. Entre os pelotões, num jipe sem capota, passava algum general medalhado. E logo vinham os motociclistas acrobatas.
 
Era um espetáculo para todos, onde as crianças eram mais que bem-vindas, com suas bandeirinhas do Brasil nas mãos. Hoje se tornou tóxico. Os militares se envolveram em golpes e repressão e se deixaram aprisionar como símbolos de grupos de antidemocratas raivosos. Nos 200 anos da independência, o evento foi para Copacabana.
 
Copacabana tinha cheiro de maresia. Era o lugar onde a classe média queria morar, mesmo que fosse em quitinetes apertadas, com as famílias vivendo espremidas. Era o lugar de moças audazes, que usavam calças e bermudas apertadas e outras peças de roupa que deixavam perceber as curvas do corpo.
 
Copacabana sofria com os racionamentos de luz, mais do que outros bairros, porque os prédios eram altos e subir sem elevador era espeto. Copacabana tinha as Casas da Banha, onde mulheres tagarelas formavam filas para comprar o açúcar que estava em falta. Copacabana era a praia com guarda-sóis coloridos e turistas mineiros.
 
Nesse 07 de setembro, Copacabana é o lugar de manifestações golpistas, de uma terceira idade que usa suas últimas energias para tentar barrar a roda do tempo. Senhores e senhoras que clamam pelo retrocesso, pela volta de um tempo sem sentido. 
 
Os lugares da cidade vão sendo ressignificados. A Barra não é mais o lugar onde se fazia fila no trailer de churros do uruguaio. Não mais o eldorado, o futuro da cidade. Uma elite conservadora se encastelou nos seus condomínios. A Presidente Vargas não tem mais charme algum e Copacabana se tornou lugar a ser evitado quando a intolerância dela se apossa. Por vezes a cidade fica menos amiga.

Roberto Anderson é professor da PUC-Rio, tendo também ministrado aulas na UFRJ e na Universidade Santa Úrsula. Formou-se em arquitetura e urbanismo pela UFRJ, onde também se doutorou em urbanismo. Trabalhou no setor público boa parte de sua carreira. Atuou na Fundrem, na Secretaria de Estado de Planejamento, na Subprefeitura do Centro, no PDBG, e no Instituto Estadual do Patrimônio Cultural - Inepac, onde chegou à sua direção-geral.
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7 COMENTÁRIOS

  1. Que texto deprimente, correlacionando ações e consequências desconectadas. A história é viva “cumpanheiro” e essa pegada falsamente sensível ao saudosismo não vivido igonora a realidade dos fatos pretéritos.
    Deve ser triste ser e pensar assim, mas o fardo é seu.

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