Já houve um tempo em que se acreditou que as cidades, como principal forma de localização da vida social, estavam em crise. Dificuldades econômicas levavam a dificuldades de gestão e à busca por se localizar fora das mesmas. Até na Europa, que não adotava o modelo americano de suburbanização, esse fenômeno começou a ocorrer por volta das décadas de 60 e 70 do século passado. Nos Estados Unidos, ele ganhou mais força.

O pensamento neoconservador culpou as regulamentações e o planejamento urbano pelo que acreditou ser a decadência das cidades, já que as indústrias, ao serem impedidas de escolher livremente a melhor localização para suas atividades, terminariam estranguladas, provocando o colapso de cidades e regiões, incapacitadas de gerar substitutos para as indústrias decadentes.

Instalou-se uma certa percepção de crise, com o agravamento das condições de vida nas grandes cidades, tanto nos países desenvolvidos, como nos países em desenvolvimento ou subdesenvolvidos. A falência de Nova Iorque, na década de 1970, dramatizou essa percepção. O urbanista catalão Jordi Borja escreveu que se chegou mesmo ao questionamento se as cidades “…seriam humanamente habitáveis, economicamente viáveis, politicamente governáveis e culturalmente integráveis.”[1] Como consequência, preconizou-se mais uma vez um certo abandono das mesmas e a revalorização da vida em pequenas sociedades. Analistas e políticos proclamaram o fim das cidades.

Na realidade não foi o que aconteceu. As mesmas tecnologias de transporte e comunicação que propiciaram a dispersão urbana, também propiciaram o surgimento de novas aglomerações e a recomposição dos centros das cidades antigas. Estudos da década de 1990 revelaram um novo crescimento demográfico e econômico das grandes cidades europeias. Como afirmou o mesmo Borja, “… a cidade renasceu muito antes de começar a morrer”.

Nos últimos anos, em países em desenvolvimento, tem havido um reforço do crescimento das megacidades, bem como de sua primazia dentro da estrutura urbana desses países. A internacionalização da produção e o desenvolvimento do turismo tem levado, em alguns casos, ao surgimento de novos pólos de crescimento, que redirecionam as migrações internas. Quando tais pólos de crescimento encontram-se na área de influência das megacidades, o efeito tem sido o reforço de seu crescimento. O atual período de globalização das atividades econômicas tendeu a reforçar os grandes centros das megalópoles, neles concentrando as funções estratégicas das empresas multinacionais e os serviços que lhes servem.

Mas um evento, inesperado apesar de recorrente na história da humanidade, uma pandemia nos leva a especular sobre possibilidades de reversão desses processos. Não tanto pelo medo do contágio, que deverá se dissipar a médio prazo com o surgimento de vacinas, mas pelo agente que fez despertar: o teletrabalho. Em meio a condições emergenciais ele se imiscuiu no ensino, nas empresas, na administração pública, nos Parlamentos e nas Cortes. Mostrou seu potencial, e também suas limitações, mas, a considerar as análises de diversos gestores, veio para ficar.

Na forma e nas condições de pandemia em que se implantou o teletrabalho, as empresas economizam espaços empresariais e o trabalhador se vê utilizando sua estrutura domiciliar para a realização de suas tarefas. Por outro lado, desde que tenha uma conexão, ele pode estar num sítio, na praia, ou num país distante. Se essa forma de trabalhar e estudar permanecer, que efeitos trará para a grande cidade? Que parcela da população economicamente ativa estará liberada da necessidade de locomoção até a sede de sua empresa? Que volume de passageiros deixarão de usar as redes de transporte de massa? Que serviços perderão sua clientela nos centros urbanos? Todas estas são indagações, cujas respostas, ainda inexistentes, poderão moldar a futura feição de nossas cidades. Podemos estar presenciando o início de mudanças radicais nos espaços urbanos. Ou apenas estarmos num momento nebuloso que logo se dissipará.      


[1] Jordi Borja: “Políticas para la ciudad europea de hoy”. In: Barcelona y El Sistema Urbano Europeo, Barcelona, Ajuntament de Barcelona y Programa CITIES-CIUDADES sem data, p. 14.

Roberto Anderson
Roberto Anderson é professor da PUC-Rio, tendo também ministrado aulas na UFRJ e na Universidade Santa Úrsula. Formou-se em arquitetura e urbanismo pela UFRJ, onde também se doutorou em urbanismo. Trabalhou no setor público boa parte de sua carreira. Atuou na Fundrem, na Secretaria de Estado de Planejamento, na Subprefeitura do Centro, no PDBG, e no Instituto Estadual do Patrimônio Cultural - Inepac, onde chegou à sua direção-geral.

Comente

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui