Roberto Anderson: Obras na Lagoa

'A escolha do Rio de Janeiro para sediar a primeira Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, a Rio-92, gerou um momento bastante favorável a ações ambientais na cidade'

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A escolha do Rio de Janeiro para sediar a primeira Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, a Rio-92, gerou um momento bastante favorável a ações ambientais na cidade. Entre outras transformações, ocorreu a implantação das primeiras ciclovias, em 1991: a da orla, do Leme ao Recreio, e a da Lagoa. Esta última foi projetada como ciclovia compartilhada com os pedestres, que em muitos momentos dividem uma estreita faixa de pouco mais de 2,00 m de largura. 

Com o tempo esta situação passou a gerar conflitos, já que, tanto o número de pedestres passeando ou correndo na orla da Lagoa, quanto o número de ciclistas aumentou bastante. Muitos ciclistas adotaram também bicicletas mais velozes, além das bicicletas elétricas, que trafegam em velocidades que podem causar danos em caso de acidentes. Por tudo isso, é pouco compreensível que, em trechos em que as primitivas calçadas são mais estreitas, sobrando apenas o espaço da ciclovia para ser compartilhado entre os pedestres e os ciclistas, esta última não tenha sido deslocada para o canteiro central da avenida que contorna a Lagoa. 

É bom lembrar que o canteiro central está disponível, agora que o estacionamento sobre o mesmo foi proibido. Aliás, ele vem sendo mais arborizado por iniciativa dos moradores locais, que têm escolhido árvores frutíferas. É uma ação interessante, que tem o potencial de atrair mais pássaros para o local. Como o poder público, aparentemente, não tem um projeto próprio, que deveria estar em consonância com o tombamento da Lagoa, os moradores executam aquilo que lhes parece mais adequado. E deve ser. Assim, uma ciclovia ali seria bastante aprazível.

Voltando à ciclovia compartilhada junto ao espelho d’água, uma série de outros problemas se acumularam, para além da fricção entre pedestres e ciclistas. As raízes das árvores criaram calombos sob o asfalto, e este se encontrava deteriorado em diversos pontos. Por essas razões, a Prefeitura da Cidade decidiu realizar obras para a sua recuperação. Apesar de não resolver o conflito pela intensidade de uso por diferentes usuários, essa seria uma reforma bem-vinda. 

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No entanto, como já ocorrido na Glória, a Prefeitura novamente optou pela pavimentação de áreas em saibro ao longo da ciclovia. Há nessa postura uma certa incoerência com o posicionamento da própria administração municipal em favor de uma cidade, cujo planejamento consideraria as questões ambientais e climáticas. Ora, mais pavimentação significa menos área permeável e mais refração de calor. A impermeabilização desses trechos da orla da Lagoa é agravada pelo uso, na referida obra, de cimento abaixo do novo piso intertravado (bloquete), ao invés de areia, conforme recomendado por fabricantes, o que guardaria um pouco de permeabilidade. 

Como se não bastasse a excessiva pavimentação, as golas das árvores (espaço aberto junto aos troncos das mesmas) onde vem ocorrendo essa pavimentação estão ficando reduzidas a diminutos e impossíveis quadrados de aproximadamente 0,50 X 0,50 m, o que contraria totalmente as normas da própria Prefeitura. Árvores são seres vivos, amigas generosas que nos dão sombra e frescor. É verdade que se não soubermos escolher as espécies corretas para o ambiente urbano, poderão provocar danos ao calçamento e até às estruturas das edificações. Mas na orla da Lagoa ela são mais do que bem-vindas. Por que, então, estão tendo seus troncos espremidos?

Em tempos passados, quando não se considerava os benefícios ambientais das árvores urbanas, e o valor de áreas permeáveis, a Prefeitura indicava, ou tolerava, golas mais estreitas. Mas hoje não mais. Em sua Portaria n° 112, de 2016, a Fundação Parques e Jardins – FPJ indica, para golas de árvores de porte médio ou grande, um comprimento mínimo de 1,50 m. Já para árvores de grande porte, a largura mínima indicada para as golas é de 1,00 m, considerando que quanto maior, melhor. O parágrafo 3° desta mesma Portaria indica que “nos canteiros ajardinados com larguras inferiores a 60 (sessenta) centímetros só é permitido o plantio de espécies arbustivas, ornamentais e de forração”. Portanto, de acordo com a própria Prefeitura, há uma flagrante inadequação entre os espaços que ela deixou para as árvores e a existência das mesmas. Imagina se algum responsável pelo projeto decide pela erradicação das árvores para a adequação do projeto!

Por tudo isso, está mais do que na hora de um planejamento integrado entre os órgãos municipais. Não é possível que o setor de obras ignore as determinações do setor ambiental. Nem sequer é possível que qualquer intervenção deixe de passar pelo crivo da sustentabilidade ambiental. Sem isso, a cidade até poderá fazer muitas realizações. Mas serão elas as mais corretas e desejáveis? E isto está ocorrendo numa ciclovia inspirada pelos bons ventos da Rio-92…

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Roberto Anderson é professor da PUC-Rio, tendo também ministrado aulas na UFRJ e na Universidade Santa Úrsula. Formou-se em arquitetura e urbanismo pela UFRJ, onde também se doutorou em urbanismo. Trabalhou no setor público boa parte de sua carreira. Atuou na Fundrem, na Secretaria de Estado de Planejamento, na Subprefeitura do Centro, no PDBG, e no Instituto Estadual do Patrimônio Cultural - Inepac, onde chegou à sua direção-geral.
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2 COMENTÁRIOS

  1. Boa tarde, obrigado por jogar luz à esta questão tão importante e negligenciada. Sou morador próximo e usuário frequente do Parque do Cantagalo. Ao meu ver o plantio avulso de árvores pelos moradores na orla da Lagoa e nas demais áreas públicas da cidade, que soa como gesto nobre, se tornará a longo prazo um problema difícil de reparar. A descaracterização de paisagens hora planejadas, a ignorância sobre as funções determinadas para as diferentes áreas do parque e o risco de introdução de espécies não nativas são alguns dos pontos de alerta dessa prática. Áreas não arborizadas em um parque por vezes assim o são para atingir determinados objetivos. Recentemente mudas de árvores apareceram na área gramada que serve de mirante para a lagoa no Parque do Cantagalo, área esta de grande interesse do público, amplamente utilizada para piqueniques e outras atividades de lazer. Quando as mesmas crescerem degradarão o gramado, obstruirão a vista e comprometerão permanentemente essas atividades. A prefeitura precisa tomar rédeas do manejo arbóreo público do Rio com mais seriedade ou a cidade padecerá da desordem causada pelos seus próprios usuários no afã de preencher esse vácuo.

  2. Bem lembrado o começo das questões ambientais no Rio . A disputa pedestres , carros, pessoas , motos está bem estressada! Não condiz com uma cidade tão plena . Hoje Laranjeiras parou por conta de uma obra – bem vinda .
    As motos se apossaram da ciclovia ?

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