Roberto Anderson: Patriota estupidez 

'Ver o Patrimônio Cultural da República ser destruído, vilipendiado, roubado numa tentativa de golpe contra a democracia, foi um soco no estômago'

Vai ser difícil passar a revolta. Ver o Patrimônio Cultural da República ser destruído, vilipendiado, roubado numa tentativa de golpe contra a democracia, foi um soco no estômago. Ver pessoas tomadas por um fervor antidemocrático, enroladas na bandeira nacional, exercendo toda a sua ignorância, maldade e estupidez, ferve o sangue, estremece o corpo, machuca a alma. A sensação de perda é similar àquela causada pelo incêndio do Museu Nacional. Lá atrás, o desleixo e a falta de verbas, agora o atendimento ao chamado de um sujeito torpe que finge patriotismo e cristianismo.

Dias antes, Janja Lula da Silva havia mostrado os danos no Palácio Alvorada provocados pelo descuido com aquele patrimônio público por parte do presidente evadido e de sua família. Ali foi uma destruição lenta, diária, produzida por pessoas sem cultura ou capacidade de enxergar beleza. Diferente da destruição das sedes da República brasileira, abrupta, rápida, violenta, televisionada, postada com orgulho em redes sociais, sob os olhares complacentes de quem deveria defendê-las. 

Janja afirmou que buscará a restauração do Alvorada e dos bens móveis e integrados lá existentes. Mais ainda, ela buscará localizar e trazer de volta os móveis e as peças de arte que foram removidos do palácio. Na visita aberta à jornalista Natuza Nery foi possível ver danos, que até então pareciam os mais impressionantes, como madeiras de revestimento de móveis lascadas, metais oxidados, cortinas rasgadas, infiltrações no teto, imagens sacras no chão e marcas de suor, ou coisa parecida, em sofás. No entanto, o pior estava por vir: a destruição e roubo de peças históricas e artísticas únicas no assalto à Praça dos Três Poderes.

O Alvorada, como ocorre em outras moradias oficiais, tem uma área residencial para a família do mandatário e uma área mais pública, onde ocorrem recepções e jantares. Foi verificado que a disposição da mobília dessa área pública havia sido alterada, com mudança de lugar das peças, inclusive de obras de arte. Muito pior que isso, várias delas não se encontravam no local.

Com seu intenção de recuperar o que foi destruído no Alvorada, Janja, além de seus interesses manifestos pela questão das mulheres e da segurança alimentar, se inscreve numa tradição de (algumas) primeiras damas que se ocuparam com o restauro e conservação dos palácios onde, temporariamente, residiram. No Rio de Janeiro, Dona Zoé Chagas Freitas foi responsável pela penúltima restauração do Palácio Laranjeiras e do seu mobiliário. Os governantes que vieram depois não tiveram o mesmo cuidado, gerando a necessidade de nova restauração. 

Em 2009, quando teve início o projeto dessa última restauração no Laranjeiras, a atenção dos técnicos também foi impactada pelo deslocamento dos móveis de seus locais originais e pelo mau estado de conservação dos mesmos. Também tapeçarias e obras de arte se encontravam em estado lastimável. Foi realizado um trabalho primoroso na edificação e em todos os objetos móveis. Foi também estabelecida a localização correta dos diversos conjuntos de móveis e peças de decoração, de acordo com a coerência que guardam com a própria estrutura dos diversos ambientes. 

Ao final do governo Pezão, o ex-governador Witzel recebeu um palácio completamente restaurado. Consta que a vontade de habitar o palácio era tão intensa que, antes mesmo de se eleger, o ex-juiz teria visitado o Laranjeiras e afirmado que lá moraria. Witzel tinha filhos pequenos e, com eles e sua esposa, foi ocupar a ala residencial do palácio. 

Ocorre que, durante a última restauração, se projetou abrir a área social do palácio à visitação pública, o que só muito tempo depois se concretizou. Além da sua bela arquitetura, os visitantes têm acesso à toda a riqueza da decoração dos interiores do palácio. Nos antigos quartos do pavimento térreo foi instalada a mobília de quarto dos filhos da família Guinle, proprietária original do Laranjeiras. Ali havia duas camas bem pesadas, e elas logo chamaram a atenção do novo governador. Para servir aos próprios filhos, ele achou conveniente deslocar as camas da área museológica para a ala residencial de sua família! Como fazer chegar ao governador a indicação de que aquela era uma atitude inapropriada? Uma difícil tarefa para os técnicos do Patrimônio. 

Tais situações justificam a intenção de Janja de realizar um tombamento da arquitetura do interior do Alvorada. É uma forma de impedir que governantes se esqueçam de que aquela é sua casa de forma temporária. Mas a destruição produzida pelos terroristas da extrema-direita bolsonarista em Brasília ultrapassaram em muito qualquer dimensão imaginada. Muitos tesouros artísticos se perderam para sempre. Outros foram roubados. A recuperação dos edifícios e o restauro das obras de arte irão requerer recursos extras e a contribuição dos melhores restauradores em serviço no país. A democracia resistiu, mas daqui para a frente exigirá um nível de atenção e cuidado muito além do que se possa supor. 

Este é um artigo de Opinião e não reflete, necessariamente, a opinião do DIÁRIO DO RIO.

Roberto Anderson é professor da PUC-Rio, tendo também ministrado aulas na UFRJ e na Universidade Santa Úrsula. Formou-se em arquitetura e urbanismo pela UFRJ, onde também se doutorou em urbanismo. Trabalhou no setor público boa parte de sua carreira. Atuou na Fundrem, na Secretaria de Estado de Planejamento, na Subprefeitura do Centro, no PDBG, e no Instituto Estadual do Patrimônio Cultural - Inepac, onde chegou à sua direção-geral.
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