Roberto Anderson: Pensamentos de verão

Colunista do DIÁRIO DO RIO fala sobre pensamentos do verão carioca

A claridade invade os aposentos numa hora em que o sono normalmente ainda quer continuar. Isso para quem tem a sorte de dormir com ar-condicionado, porque para quem não a tem, o sono é incômodo, suado. Amanhece, e o calor se torna despertador, empurrando para fora da cama. Até há pouco, estranhamente chovia e fazia temperaturas amenas. Mas agora o verão chegou.

O carioca adora a rua e nessa época elas ficam mais movimentadas. Movimento da gente daqui e dos turistas, que logo assumem os hábitos locais. Caminhar mais devagar, arrastar as sandálias, botar uma bermuda, usar um top que agora é cropped, eis como os cariocas se apresentam. Tem-se a impressão que os turistas chegam para o réveillon, vão ficando para o auge do verão e se multiplicam no Carnaval. Como aves migratórias, estão aí, fazendo parte da paisagem do verão carioca. Alguns se aventuram pelo Centro, outros mais curiosos podem ir além do Maracanã. Mas o seu habitat é a Zona Sul.

Ônibus com pontos finais em Copacabana, Ipanema e Urca sempre foram o desespero de moradores desses locais. Seus caros privilégios são compartilhados nos fins de semana por milhares de famílias e de jovens das periferias que buscam o alegre lazer das praias. Também o metrô e o BRT facilitam o seu deslocamento. É um direito de todos, afinal, que culpa têm se as praias da Baía de Guanabara estão poluídas? Há piscinas públicas em seus bairros? Há parques?

Com o excesso de gente, infelizmente, a cada fim de semana o saldo é de ônibus depredados, muito lixo deixado nas areias e nas ruas e, eventualmente, alguma correria que pode ou não corresponder a um arrastão. De novo, culpa dos milhares de jovens, ou da falta de oferta adequada de transporte? É verdade que, ultimamente, o vandalismo gratuito tem acontecido com mais frequência, mas geralmente, o passageiro sentado, num ambiente com ar refrigerado, tem poucos motivos para vandalizar o que quer que seja.

Apesar do direito ao lazer ser uma conquista histórica dos trabalhadores, nossos sistemas de transporte são planejados somente para levar as pessoas ao trabalho e de volta para casa. Nos fins de semana, quando a maioria tem alguma folga, há uma redução brutal na quantidade de ônibus em circulação e nos horários atendidos. O metrô ainda cria uma baldeação inexistente nos dias de semana.

No verão, em dias de sol, ou seja, de praia, o metrô do Rio é diferente do metrô de qualquer outra cidade. No meio das pessoas que vão trabalhar, tem gente mais relaxada, tem bermuda e shortinho, tem roupa molhada, tem caixas de isopor, tem turmas de amigos e tem areia no chão. Quem não pode ir à praia, se não for mesquinho, até se alegra pelos que vão.

As praias estão lotadas, é difícil achar um lugar na areia. No verão não há diferença entre domingo e segunda-feira, elas lotam igualmente. As areias das praias do Rio têm a propriedade de serem fofas e claras, moldura perfeita para o colorido dos guarda-sóis, das cangas e dos biquínis das meninas. Mas, depois que os vereadores liberaram a entrada de cães na praia, as areias andam contaminadas pelo que os proprietários desses cães deixam para trás.

Há uma cacofonia na praia. Vendedores apregoam mate, limonada sorvete, picolé, cerveja, caipirinha, camarão, açaí, salada de frutas, empanadas argentinas, óculos de sol, chapéu, protetor solar e bronzeador, tatuagem de rena, cangas e saídas de praia. Tantos produtos, que é difícil lembrar de todos. São pregões que passam, alguns divertidos e criativos. Mas, o que fica é o irritante (para quem está de fora do jogo) som seco e repetitivo das bolas de frescobol batendo nas raquetes. Inútil tentar ouvir o som das ondas. Pior é quando alguém sem noção liga uma caixa de som. Delito supremo que faz a garota de Ipanema olhar de cara feia.

Quem sabe das coisas vai no fim do dia, quando o sol está mais baixo e os mais apressados já foram embora. É a hora da galera mais resistente, dos que conseguiram uma escapada depois do trabalho, do carteado ou do jogo de tabuleiro com os amigos, e até de uma cantoria com violão. Ou do delicado dedilhar do ukulele por um cara de dreads.

Na praia do fim do dia tem o já consagrado momento do pôr do sol. Nessa época ele desce lindamente no mar. O céu vai se alaranjando e as pessoas se tornando silhuetas contra o que resta de claridade no céu. Cresce a expectativa, haverá nuvens que impedirão a visão do sol até o fim, ou ele descerá na água, esplendoroso?

Também na hora do pôr do sol o advento do celular mudou o comportamento das pessoas. Há agora um frenesi por fazer selfies à beira da água, tirar fotos dos filhos, posar de modelo, sempre tendo o sol poente como moldura. Não é exagero dizer que, sentado, às vezes, não se consegue mais ver o sol nessa hora suprema, tal a quantidade de pessoas com seus celulares à beira mar.

O sol se põe e o aplauso de praxe acontece. Sorte têm os que moram perto das praias e podem ficar por ali noite adentro. É a hora da corrida amena no calçadão ou na ciclovia, do passeio tranquilo de bicicleta, do banho de mar noturno, de ficar na areia jogando conversa fora. Com sorte, uma brisa deixará a noite bem agradável. Na beira do mar, bem entendido. Faz calor, e à beira-mar o verão do Rio é mais lindo.

Roberto Anderson é professor da PUC-Rio, tendo também ministrado aulas na UFRJ e na Universidade Santa Úrsula. Formou-se em arquitetura e urbanismo pela UFRJ, onde também se doutorou em urbanismo. Trabalhou no setor público boa parte de sua carreira. Atuou na Fundrem, na Secretaria de Estado de Planejamento, na Subprefeitura do Centro, no PDBG, e no Instituto Estadual do Patrimônio Cultural - Inepac, onde chegou à sua direção-geral.
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