Roberto Anderson: Praias, matas, dunas, manezinhos

É importante tentar conhecer as cidades para além dos folhetos turísticos. Buscar compreender suas estruturas e formatos, as suas histórias e os seus edifícios, principalmente os mais antigos

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É importante tentar conhecer as cidades para além dos folhetos turísticos. Buscar compreender suas estruturas e formatos, as suas histórias e os seus edifícios, principalmente os mais antigos. Para além disso, é bom conhecer seus moradores, seus modos de falar e seus casos. Buscar uma percepção mais abrangente dos lugares, e ver o quanto diferem, ou não, de onde se vive. Chegar numa nova cidade, ou numa que ainda se conheça pouco, pode deslanchar nos mais curiosos o processo de tentar entender como se formou, onde é o centro histórico, para onde cresce, que áreas vai deixando para trás.

Nas cidades brasileiras, há elementos que se repetem. A igreja católica mais antiga, as que vieram depois, as praças, as casas de comércio, as casas dos mais ricos, as áreas de moradia dos pobres, as favelas, as igrejas evangélicas mais simples… Nas cidades de maior porte, há o centro de comércio vazio aos domingos, os shopping centers e os edificios altos em meio a casas fadadas a serem demolidas.

Em cada cidade, há famílias importantes, que se perpetuam nomeando as ruas. E os dignitários, ainda mais importantes, cujos nomes se repetem em escolas, centros esportivos, centros de saúde e aeroportos. No Brasil, os poderosos dominam em vida e, simbolicamente, após a sua morte.

Florianópolis é a tentativa mais recente dessa busca por entender as cidades. O tempo de permanência é pequeno, então a percepção se dá por observações fragmentadas. A escolha turística desse destino é óbvia. Conhecida como Ilha da Magia, a cidade se compõe de uma maior parte insular, mas tem também sua parte no continente. Tem praias lindas, algumas junto a áreas urbanas, outras mais selvagens, com áreas de restingas e mata atlântica emoldurando faixas de areia branca e fina.

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A cidade foi fundada no século XVII. No entanto, há vestígios da presença de povos dos sambaquis na ilha já em 4.500 AC. Depois desses, vieram os indígenas Carijós, e só depois os portugueses. Originalmente chamada de Nossa Senhora do Desterro, a cidade hoje homenageia Floriano Peixoto, responsável por uma repressão brutal à Revolução Federalista, com o fuzilamento na ilha de soldados capturados. Essa violência simbólica foi transformada na alegre alcunha Floripa.

Em 1777 a cidade foi invadida pelos espanhóis, mesmo século em que 6000 açorianos e madeirenses chegaram para povoá-la. Escravizados africanos foram trazidos para trabalhar em armações baleeiras, onde se processava o produto dessa pesca, na lavoura e em trabalhos domésticos. E, em 1828, famílias alemãs começaram a chegar a Santa Catarina, vindo mais tarde a se mesclar aos ilhéus.

Atualmente, há uma forte migração de várias partes do país, atestada por sotaques gaúchos, nordestinos, nortistas, e de vários estados do Sudeste. Muitos, quando perguntados, alegam a qualidade de vida como fator para a decisão de ali se estabelecer. Florianópolis, hoje, tem aproximadamente 500 mil habitantes, uma cidade de porte médio, justamente as que mais recebem migrantes no Brasil.

Como a ilha é muito grande, além da área central, com suas ruas comerciais e altos edificios, de escritórios e residenciais, há também diversos bairros distantes entre si, separados por áreas rurais ou de preservação. E há também corredores viários com aquela estética de borracharias e boneco do posto. Praga que se alastra em nossas cidades.

É o que se chama em urbanismo de cidade espraiada, um modelo hoje contestado, em favor de cidades mais compactas. Para circular sem automóvel entre os bairros, o manezinho, o habitante local, costuma ir de ônibus de um bairro até um dos terminais existentes, onde toma outro ônibus para sua destinação final. É um sistema engenhoso mas, mesmo assim, é uma operação que pode se mostrar bastante demorada, em função das distâncias. Uma opção mais cara são os ônibus executivos.

A mancha de ocupação urbana da ilha se expandiu muito nas últimas décadas. Até a primeira metade do século XX, 1/4 da área urbana de Florianópolis era de terrenos vazios. A partir de 1960, houve uma ampliação da malha viária, assim como investimentos em infraestrutura, o que propiciou uma explosão imobiliária e a ocupação irregular de áreas de preservação permanente. Ocorreram também alterações na legislação de zoneamento da cidade, permitindo a ocupação de áreas de preservação.

Mesmo assim, 50% da Ilha é área de preservação ambiental. Há áreas florestadas, mangues, restingas, lagoas e dunas. Juntamente com as praias, compõem a paisagem natural de Floripa, que tanto encanta visitantes e moradores.

No entanto, essa beleza contrasta com problemas no ambiente construído. Nos bairros junto às praias, toda a infraestrutura é bastante voltada para o turismo de verão, ficando um pouco ociosa nos demais meses do ano. Em bairros, como Ingleses, parte das construções apresenta uma arquitetura sem personalidade, sobrecarregada de painéis publicitários e placas dos negócios. As construções estão coladas na faixa de areia, bloqueando a visão do mar. As ruas são estreitas, assim como as calçadas, com pavimentação deficiente. O trânsito de automóveis se torna impossível no verão. Não é muito diferente do que ocorre em outras cidades do litoral brasileiro, ocupado sem muito critério.

Mas há bairros, como Jurerê, com ruas e calçadas largas, mansões, prédios e comércio voltados para a classe média alta e toda a elite econômica. Uma faixa preservada de restinga separa a praia das construções. Mas, mesmo ali, prevalece a ocupação sazonal e a impressão de vazio nos meses mais frios.

Aqui e ali sobreexistem singelas casas de madeira, pintadas em cores fortes, herança dos primeiros açorianos. Santo Antônio de Lisboa tem essa forte marca dos primeiros colonos, com boa oferta de comidas portuguesas e lindas rendas de bilro. Com sorte, se encontra uma senhora sentada diante de uma almofada, manejando os bilros.

Floripa atrai, não só pelas belezas naturais, mas também por um estilo mais relaxado de viver. Talvez, um pouco como o Rio de muitas décadas atrás. Com sua fala ligeirinha, o manezinho está sempre disposto a uma conversa e a uma tirada engraçada. Que o crescimento da cidade não estrague essa simpatia.

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Roberto Anderson é professor da PUC-Rio, tendo também ministrado aulas na UFRJ e na Universidade Santa Úrsula. Formou-se em arquitetura e urbanismo pela UFRJ, onde também se doutorou em urbanismo. Trabalhou no setor público boa parte de sua carreira. Atuou na Fundrem, na Secretaria de Estado de Planejamento, na Subprefeitura do Centro, no PDBG, e no Instituto Estadual do Patrimônio Cultural - Inepac, onde chegou à sua direção-geral.
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