Aristóteles não foi ao cinema. Infelizmente, o sábio pensador grego, um dos maiores espíritos que o mundo ocidental viu florescer, ficou separado mais de dois mil anos do nascimento da sétima arte. No entanto, o cinema foi até Aristóteles e deu vida a muitos dos problemas filosóficos encontrados em sua extensa e opulenta obra. Aristóteles viu o mundo e destrinchou, diante de nossos olhos curiosos, os fios que tecem a vida: a potência, o ato, a matéria, a forma, as plantas, os animais, a humanidade. Quadro a quadro, ação por ação, caráter por caráter, com aquele jeito analítico que bem sabia expressar, Aristóteles fez, por assim dizer, filosofia cinematográfica, sem nem se dar conta disso. Se um filme se caracteriza pelo desenrolar de uma trama qualquer, Aristóteles nos levou a conhecer o mundo através da trama da vida.

Tanto no cinema quanto na vida a trama das coisas é evolução; e evolução significa a passagem da potência ao ato. Potência, conforme ele mesmo explica no livro Metafísica, é “princípio de movimento ou mudança” ou aquilo que é capaz de “transformar as coisas”. Ato é a “realidade consumada”, “a presença da coisa”. Ambos estão conectados por uma linha: a potência é o que está por vir quando é movida e o ato é a efetivação desse movimento, o resultado do que foi movido. No cinema e na vida, a infância existe na criança, em potência; mas o brincar atualiza, realiza essa infância. O mesmo ocorre na amizade. No cinema e na vida, um amigo é, potencialmente, alguém capaz de amar alguém de bom grado; mas, no oferecer ajuda, no aconselhar, no acolher, etc., esse amigo atualiza aquilo que nele é princípio de movimento.

Em Aristóteles, a amizade representa uma das mais expressivas passagens da potência ao ato. Os homens são potencialmente amigos, quer dizer, possuem, em si, a semente de um espírito fraterno; mas dependem de um ato sólido, explícito, marcante, para que a amizade seja de fato o que é: um ato consumado. Além disso, tudo o que existe em potência é princípio e tudo o que existe em ato é fim; logo, quando algo se torna consumado, significa que o fim foi alcançado. A amizade, enquanto passagem da potência ao ato visa certo fim e esse fim é o prazer e a felicidade de se compartilhar com outros seres iguais certa disposição para amar o outro.

No livro Ética a Nicômaco, a amizade é signo de evolução humana. Só pode ser amigo aquele ser humanamente virtuoso; o que quer dizer que amizade “é uma virtude ou envolve a virtude”, ou seja, que a amizade é a qualidade daquilo ou daquele que é bom, que causa, promove e propaga o bem. Aristóteles se pergunta: qual seria o bem da prosperidade humana “sem um canal para a beneficência”? A maior felicidade da humanidade tem um canal: a amizade que é “a sua forma mais plena e mais louvável”. Existem três formas de canalizar a amizade: por prazer, em que as pessoas se aproximam apenas para satisfazer uma carência pessoal; por utilidade, em que as pessoas buscam no outro algo que pode lhe favorecer; e, por último, por virtude, em que o que está jogo é o amor pela outra pessoa pelo que ela é em si mesma.

O grandioso cineasta norte-americano Steven Spielberg soube explorar como ninguém esse tema tão caro a Aristóteles, como se, secretamente, tivesse sido um de seus discípulos na Grécia. A amizade perpassa por muitas obras de Spielberg, como o moto contínuo de seu pensamento. Com efeito, se nos detivermos no conjunto da obra – e não meramente em questões acidentais do filme – observaremos que Spielberg construiu, pouco a pouco, um discurso cinematográfico sobre a amizade. Nas películas desse expert das câmeras vimos registros não apenas de dinossauros, tubarões ou casas mal-assombradas. Spielberg, em seu preciosismo, soube fazer de sua obra um panorama dramático das forças e das fragilidades humanas. Spielberg cultuou a amizade em seus filmes; por isso, nos mostra a passagem da potência ao ato, em que o homem se mostra como potencialmente amigo; mas que, basta um ato, um gesto, para que toda fraternidade transborde como a coisa mais amável da existência.

O primeiro filme em que a amizade vai da potência ao ato é ET – o extraterrestre (1982). Celebrado, esse filme é ícone da indústria cinematográfica norte-americana. Não são os efeitos mágicos que enobrecem, mas o conteúdo: pensar a amizade entre humanos e extraterrestres. De súbito, o menino Elliott recebe a visita, em sua casa, de um et, perdido na Terra, depois que sua nave seguiu viagem sem ele. Não tarda e Elliott se depara assustado com a criatura estranha; sente medo, mas não o despreza; pelo contrário, o acolhe em seu quarto. O primeiro passo para a atualização da amizade está aí: escondido da mãe, Elliott reconhece e aceita o estranho, sente afeição, cuida dele e percebe suas fraquezas; tenta, enfim, fazer contato com o universo para levar seu amigo de volta para casa. O et corresponde: diverte o menino, cura sua solidão, ensina-o amar; atualiza, então, sua potência para ser amigo, mesmo que seja um amigo não-humano. Assim, Spielberg ultrapassa Aristóteles e confirma que a amizade não é um bem terráqueo, mas um bem cósmico, que transcende e dissipa fronteiras presentes em qualquer dimensão.

A amizade em ET é virtuosa: Elliott ama em et o que o et é enquanto pessoa e vice-e-versa, sem visar exclusivamente o prazer e a utilidade. Igualmente em A Cor púrpura (1985), Spielberg retoma o tema da amizade, também virtuosa, entre as irmãs Célie e Nettie. Situado em Georgia, no início do século 20, o filme explora a dor das irmãs que são separadas pelo ódio do marido de uma delas. Conforme diz Aristóteles, amizade é o prazer mútuo pela convivência com aqueles que são bons; e o que é bom é amável e desejável. Célie passa o filme inteiro sob o efeito da potência da amizade, desejando reencontrar o bem que é a amiga/irmã e atualizar o amor que sente. Todavia, o ciumento e truculento Albert oprime Célie. Até que, pela reviravolta da trama, Célie reencontra, na velhice, a irmã querida; e todo o amor e bem-querer natural à amizade, sufocado entre cartas não lidas, vem à tona no gesto lúdico da emocionante cena final.

Aristóteles diz que a amizade só é verdadeira quando ambos sabem que o amor, a admiração e o bem-querer são recíprocos. É preciso, no entanto, que tal amor seja reconhecido, seja declarado; que ambos, que se dizem amigos, saibam que não são úteis nem agradáveis, mas essenciais um para o outro. Célie e Nettie não dizem uma palavra sequer para confirmarem esse bem-querer, pois nem todo reconhecimento do amor é verbalizado: usam uma brincadeira da infância como sinal. Mas, em A Lista de Schindler (1993) e em O resgate do soldado Ryan (1998) a amizade não é nem extraordinária como em ET nem tampouco familiar como em A cor púrpura; nasce da adversidade violenta: a Segunda Guerra Mundial. Portanto, é uma amizade feita na desventura das trincheiras, sob o risco de ser ameaçada pela barbárie e pela morte.

O alemão Schindler, apesar de ser membro do partido nazista, emprega judeus em sua fábrica de panelas. Até ali possui boa vontade com eles, relacionando-se amigavelmente, apenas por utilidade. Mas depois de assistir à carnificina de judeus do alto de um morro, Schindler se estarrece e passa a sentir empatia pelo povo inimigo do nazismo; e, da utilidade, a amizade se torna virtuosa: Schindler quer libertá-los, convencendo o sanguinário tenente Amon Göth que os judeus são “essenciais” para o exército alemão; quando, na verdade, Schindler os respeita e os estima como humanos. Daí a razão da “lista”: conseguir selecionar o máximo possível de judeus para que não sejam transferidos para os campos de extermínio. A guerra termina e os judeus de Schindler não morreram. No final do filme vem o reconhecimento da amizade: uma carta que tenta salvaguardar a vida de Schindler,  explica que ele, agora um perseguido, é um homem bom; portanto, é amigo.

Em O resgate do soldado Ryan a potência da amizade se atualiza de forma súbita e emergencial. Depois do massivo ataque às tropas alemãs no litoral da Normandia, o capitão John Miller recebe a incumbência de resgatar James Ryan, o único combatente da família Ryan que sobreviveu à guerra até aquele momento. Miller monta uma tropa especial para a missiva. Segue-se daí uma série de contratempos, bombardeios, mortes, armadilhas em que a tropa vai sendo minada e enfraquecida. No entanto, a única coisa que se mantém firme é o propósito de salvar um homem, um jovem e, junto disso, manter viva uma família de três filhos combatentes. Miller ama Ryan, sem ao menos conhecê-lo; ama-o enquanto humano que ele é. O encontro, por fim, se realiza, e Miller conhece Ryan e comunica a ordem dada pelo general Marshall: que ele retorne para sua mãe. Ryan não acha justo e quer lutar com seus irmãos de batalha. Com a tropa desfalcada, Ryan fortalece Miller como gratidão por sua dedicação em salvá-lo. Miller morre e Ryan sobrevive na dúvida se todo sacrifício foi válido; mas, sim, foi válido, na medida em que Miller não salvou um homem apenas, mas uma família e uma geração inteira.

2 COMENTÁRIOS

  1. O mundo é um lugar melhor por causa de Spielberg. O cinema do século XX e a sétima arte em geral tem um antes e depois graças ao Steven. Foi ele que criou o conceito de blockbuster (arrasa quarteirão) com o filme Tubarão de 1975 que foi o maior sucesso de bilheteria do verão americano daquele ano e que fazia as pessoas virarem quarteirões nas filas dos cinemas, fato que foi repetido quase 2 anos depois quando Star Wars estreou em maio de 1977 e mudou toda a indústria cinematográfica. Steven trouxe fantasia ao mundo, trouxe a trilha sonora de John Williams aos nossos ouvidos (John é um Mozart, Bach, Beethoven, Chopin, desta geração), ele nos trouxe aventura, drama, genialidade, inteligência em forma de filme. Spielberg marcou minha infância. São dois filmes que marcaram minha infância na década de 90: Titanic e Jurassic Park. Este último um dos mais inteligentes que já assisti, sempre terá um lugar no meu coração e sempre fará parte das minhas memórias de criança. E.T. é a obra mais pessoal dele e um dos melhores filmes já feitos. Roger Ebert, um dos maiores críticos de cinema, disse na época do lançamento em 1982 que E.T. era um clássico instantâneo, daquele tipo de filme que não iria demorar anos para virar cult, já nascia clássico. Tem um filme pouco conhecido dele que é muito bom e foi um dos primeiros: Encurralado. Ali já vemos a inteligência dele. Indiana Jones, meu pai ama, é puro entretenimento e aventura. Amo alguns dramas históricos dele. A Lista de Schindler fala sobre a força do bem em tempos de horror. Em tempos de intolerância e ignorância e em uma geração onde emoções e sentimentos são chamados de vitimismo e não tolerados ou suportados (como a que vivemos hoje em 2019), esse filme é mais importante e relevante do que nunca. Mostra que em meio ao horror se você decidir fazer o bem (se você falar isso para alguns jovens eles dão risada de você na sua cara) você fará a diferença de modo benéfico e positivo. A Cor Púrpura é um ode ao fim do maltrato contra a mulher e contra o preconceito racial, além de mostrar uma cruel realidade social de miséria, pobreza e falta de expectativas de vida. Ele tem uma marca registrada em todos os filmes, uma assinatura: sempre tem uma cena em que há um close up em algo ou algum personagem com uma musiquinha de fundo ou suspense, haha, genial. Ele é o responsável por trazer de volta uma paixão e obsessão por ficção científica do público, sendo o melhor exemplo disso Contatos Imediatos de Terceiro Grau (a primeira indicação ao Oscar da carreira). Ele foi um dos poucos que conseguiu tal feito depois de Kubrick ter feito o mesmo com ”2001, uma Odisseia no Espaço” em 1968. Sempre falo com alguns amigos cinéfilos que sinto falta do Spielberg da década de 70, 80 e 90 pois nessa época os filmes dele eram mágicos, definiram Hollywood. Hoje em dia, falta um pouco desta magia mas ainda assim é bom, haha. Spielberg sempre será junto com o Zeffirelli, Sidney Lumet, Scorsese, Billy Wilder, Robert Wise, Kubrick, Hitchcock, William Wyler, James Cameron, Kazan, entre tantos outros, um dos melhores diretores e realizadores de cinema deste planeta pois ele sabe fazer cinema, ele respira isso. E ele é uma das razões pelo qual sou cinéfilo, haha

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