Enviado de D..digo, da cozinha, o espeto de pintado na brasa é o que se pode chamar de fim em si mesmo. Se tudo mais que servissem no restaurante fosse ruim, ainda valeria a pena vir devorá-lo, fervendo, dourado e lindo.

Quem me acompanha sabe que ando fazendo uma peregrinação pelos tradicionais restaurantes da minha querida Copacabana, como parte da minha primeira “temporada” na crítica gastronômica do DIÁRIO. Inclusive, estão nos planos visitas a outros grandes expoentes do circuito gastronômico “da velha guarda copacabanense”. Mas, a pedidos, resolvi variar, e visitar uma filial de uma cadeia de restaurantes que vem crescendo muito, a Toca da Traíra.

Estava familiarizado com o local, ao menos. É a antiga Churrascaria Estrela do Sul de Botafogo, que freqüentei bastante. A imensa loja de esquina, com entrada pelo Shopping que vive mudando de nome, na Rua General Severiano 97. Uma entrada alternativa – a que eu acabei usando – é direto pela Avenida Lauro Sodré, onde o carro me deixou. Vi que deram um ‘tapa na boneca’ mas a decoração do amplo espaço ainda lembra bem a churrascaria. Lugar bonito, com aquários, escadarias com corrimãos de metal e pé direito alto. Rapidamente fui atendido por um garçom educadíssimo que me direcionou à mesa, de madeira, confortável, estilo ‘country‘. A casa estava ainda meio vazia, efeitos dessa maldita peste.

Muito rápido e muito gentil, o garçom entregou os cardápios e perguntou sobre as bebidas. Pedimos Coca Cola Zero (R$ 6,90), Guaranáeste é daqueles restaurantes que venderam a alma à Coca Cola, e o Guaraná, meus amigos, era “Fanta” (R$ 6,90) – e uma Água Mineral San Pellegrino, minha favorita (R$ 21,90). Logo trouxe os pratos, com os famigerados acessórios “da peste” – guardanapo de papel embalado (cruzes!) e garfo e faca embalados.

Um dos pratos tinha manchas de gordura. Pedi pra trocar. Atendido na hora. O menu é extenso e tem lindíssimas fotos e diagramação, que realmente atiçam nosso apetite. Não deixo de pedir entradinha em nenhum restaurante. Mas, como o almoço era cedo, e em dia de semana, tipo 13:00h, pedimos apenas as casquinhas de peixe (R$22,90). Dieta, né, sabe como é.

A casquinha de peixe da Toca da Traíra é uma entradinha bem honesta. Não tem a força do siri, mas é extremamente bonita, convidativa e cheirosa. Poderia ser mais quente.

Logo as casquinhas de peixe chegaram, num pratinho branco, dentro de uma casquinha faux. A porção é média, a casquinha não vem barrigudinha como em alguns outros lugares – faço aqui destaque honroso à casquinha de siri do Clube dos Marimbás, em Copacabana, que é simplesmente DI-VI-NA – mas também não vem vazia não. O queijo gratinado estava bonito, dourado, por cima dela. Não saía aquela fumacinha cheirosa, mas não estava fria. Meti o garfo, mas não sem antes pedir a pimenta braba. Aliás, que pimenta deliciosa. O azeite no qual ela foi preparada, estava amarelo quase fluorescente, e as pimentas, vermelhinhas! Gotinhas (muitas), e parti pra dentro. Até que era gostosa, bem temperada, mas sem aqueles fiapinhos do siri simplesmente não é a mesma coisa. Se estivesse mais quente, substituiria o crustáceo com mais galhardia.

Agora, que prato principal pedir? Já que eu estava na “casa símbolo do pintado na brasa”, por Deus, era nele que eu ia. Agora, no cardápio tinham muitas opções do famoso espeto dourado de pintado, e eu escolhi a mais controversa, mas de boa fama: o pintado na brasa ao queijo cremoso com camarãopara duas pessoas (R$ 174,00), que vem acompanhado de purê de batata e arroz branco. Um dos meus colegas comensais pediu o camarão à moda da casa, com camarões VM à milanesa, batata frita, banana à milanesa e arroz à grega. (R$159,90).

Uma coisa que apreciei foi a mis-en-scène do serviço, que, diga-se de passagem, é muito eficiente e atencioso. Primeiro, trazem, com cerimônia, um porta-espetos tríplice, e o instalam na nossa frente. Depois, conduzem o espeto com o pintado na Brasa – que é simplesmente lindo, cheiroso e corado, de forma lenta, o apresentam como um troféu, e o instalam, intacto, no tal porta-espetos. Uma vez colocado lá, trazem o purê de batatas, o arroz e o molho de queijo, que tem a textura aproximada de um bom requeijão mineiro derretido, misturado aos camarões, diria eu médios para pequenos. Tamanho não é documento, e se fosse, o espeto viria com identidade e CPF.

O pintado na brasa chegou à mesa fervendo, fazendo aquele “ssssssss” que a gente conhece das melhores churrascarias rodízio. Sua cor (foto principal) é de parar o trânsito. Se usasse bronzeador, seria australian gold. Mas o que conquista mais ainda é o cheiro. É fresco, leve, mas o tempero (seja lá o que for que põem em cima dele pra mariná-lo) gera um perfume do pecado (da gula!). Cada espeto dá pra duas pessoas normais. Como meu companheiro era o Quintino Gomes, ficamos em situação difícil. O acompanhamento é generoso. Mas vou confessar o seguinte: pensei muito se aquele molho de queijo cremoso combinaria com o peixe.

E combina! E combina muito! De toda maneira, o molho é servido à parte. Mas aquele requeijão quentinho banhou o pintado na brasa com excelência sensorial. É fantástico. O purê de batata era lisinho e quente, bem preparadinho, mas pra mim, supérfluo. O queijo cremoso com os camarões acompanhava o pintado e o arroz de uma forma absolutamente completa. E eles servem uma bela tigela de molho de queijo quente, com a qual você efetivamente pode se lambuzar! A diferença de temperatura entre o pintado (fervente) e o molho (quentinho) traz um sabor e uma textura especiais ao prato. Extremamente satisfeitos, ficamos felizes por finalmente ter conhecido o pintado na brasa com queijo cremoso. Aceitei o pintado como meu salvador, naquele almoço.

De sobremesa – nunca haverá momento em que não sobrará espaço para ela – eu resolvi voltar à infância e pedir um Sundae (R$ 25,90). Sou fanático por sorvete de creme com calda de chocolate. Nas minhas idas à trabalho à Bélgica, acho que comi uns 180 ‘dame blanche‘, história que um dia conto. Sorvete honesto, chantilly de garrafão, calda gostosa, coisa de criança, não de crítico gastronômico. Mas adorei.

Ah, o camarão do outro amigo estava bonito, parecia crocante, mas eu não provei. Fica pra uma próxima.

Quanto ao restaurante, é altamente aconselhável. O pintado é uma experiência religiosa. Semana que vem eu volto com algo bem tradicional, de Copacabana.

Nota
Comida
Serviço
Local
Claudio André de Castro, é advogado formado na PUC-RJ, corretor de imóveis e presidente do Diário do Rio, além de torcedor do America Football Club. Exerce também a função de Presidente da Associação dos Embaixadores do Rio. Aqui no Diário, escreve críticas gastronômicas.

1 COMENTÁRIO

  1. Pra mim trata-se de um restaurante referência no RJ, moro em SP e conheci quando trabalhei no RJ, sigo no Instagram e fico morrendo de vontade de visita-lo todas as vezes que vejo os vídeos dos pratos, sou suspeito de falar pois esse que vc degustou é pra mim o top de todos..
    Estou esperando passar a pandemia para já marcar uma visita e rever esse prato maravilhoso

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