Washington Fajardo
Foto: divulgação

Assessor Especial para assuntos urbanos na prefeitura de Eduardo Paes, ex-presidente do Instituto Rio Patrimônio da Humanidade, conselheiro no Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio de Janeiro (CAU-RJ), criador do escritório Desenho Brasileiro e muitas outras atividades, o arquiteto e urbanista Washington Fajardo é um estudioso do Rio de Janeiro.

Como articulista de importantes jornais ou em sua atuação no meio da arquitetura, Fajardo sempre se posicionou em relação às principais questões sobre nossa cidade.

Em entrevista exclusiva ao Diário do Rio, ele comentou diversos assuntos atuais e pertinentes, entre eles, a construção a Fórmula 1 no Rio, problemas habitacionais, a gestão de Marcelo Crivella e mais.

Diário do Rio: Você sempre faz análises detalhadas sobre o Rio de Janeiro, o Brasil. Hoje em dia, em sua opinião, qual o maior problema da cidade do Rio?
Washington Fajardo: A gestão Crivella, ou melhor, a incompetente administração do Marcelo Crivella, levou a cidade à falência em inúmeras áreas. Finanças, ordenamento do espaço público, projetos estratégicos, cultural, turismo, geração de renda, área ambiental, saúde, educação e até a condução política foi destruída, não é a toa que corre risco de impeachment. Crivella destruiu a reputação do Rio e isso é muito sério pois é uma cidade misturada com sua imagem. Realidade e delírio são entrelaçados no Rio, desde o século XVIII uma cidade com função simbólica, de representação nacional. É muito sério o que está acontecendo e o conserto vai demorar, pois a cidade retrocedeu no tempo. A máquina pública tem capacidade de resposta mas o dano é sistêmico.
O maior problema é portanto de gestão de administração, da escala do cotidiano, ou seja, o trabalho de síndico, até a escala do horizonte futuro, de construção de uma visão compartilhada com os cariocas. Qual era a marca do Crivella mesmo? “Cuidar das pessoas”, lembra? Então, onde está isso? Não existe. Ele deixa um legado de caos. Omissão e incompetência são suas marcas.

Diário do Rio: Você acredita que o impeachment do prefeito Marcelo Crivella passa?
Washington Fajardo: Não acredito, mas seria importante acontecer, pois seria uma ação de mitigação de danos. Os erros já estão aí e se repetindo. Precisa estancar o descontrole. Seria talvez mais digno uma renúncia, mas ele não tem essa dignidade. Não pensa no interesse público. É um egoísta. Prefere conduzir a sociedade ao precipício. Os cariocas precisam sair da sonolência, causada pela descrença na esfera pública, e reclamar mais, gritar mais, endereçar de modo claro e objetivo suas queixas.

Diário do Rio: A falta de habitação é uma questão que, de acordo com algumas análises, vem piorando no Rio de Janeiro. Assunto que você conhece bem. O que fazer para corrigir esse déficit?
Washington Fajardo: Este é um assunto crítico, no Brasil e no Rio, que paradoxalmente sempre inovou no passado neste setor, mas há vinte anos não faz mais nada. O resultado é que para muitas pessoas, o trabalhador mais simples, a família que tem sua renda na informalidade, as jovens famílias, não há solução de moradia. O único modo é viver dentro de uma área informal em condições de habitabilidade precárias. E assim, fica preso em um ciclo perpétuo de reprodução de miséria e vulnerabilidade social. Penso que política habitacional é uma prioridade máxima, mesmo que suas repostas não apareçam no curtíssimo prazo, mas sim para assegurar que em 20 anos todo mundo que precisar tenha uma opção de moradia digna. Logo, trata-se de planejar um sistema completo, não apenas um projeto ou programa. A primeira coisa a ser feita é inventariar os imóveis públicos na cidade e obedecer o Plano Diretor que diz que a prioridade urbana está na área Central e na Zona Norte. Tanto reocupar o Porto com moradias assim como estimular mais produção residencial nos bairros da Leopoldina e Central. E produzir moradias para diferentes necessidades, da família mais carente à jovem família periférica que ir mais próxima do trabalho até a família do trabalhador. É necessário ser criativo e solucionar o desafio das pessoas que vivem com renda informal e como comprová-la. Um resposta é o aluguel social. A produção habitacional tanto precisa de um Estado como de mercado. Não se pode ter amarras ideológicas neste quesito. O compromisso é em dar solução para o povo. Ao mesmo tempo é necessário combater imóveis vazios assim como ter subsídios para empreendimentos imobiliários. Bem trabalhada, tanto pode dar resultados econômicos de médio prazo como pode reverter o quadro de crescimento desordenado do território urbano. A casa é a célula fundadora da cidade. Sempre falamos muito das empresas, mas a cidade é antes de um lugar de morada e de conquista da vida. Mais pessoas vivendo juntas e em melhores condições atrairão mais negócios e investimentos. Essa é a base de uma boa cidade. Política habitacional é construir bairros, espaços públicos, endereços e bons lugares.

Diário do Rio: Qual sua análise sobre o Minha Casa Minha Vida, que no Rio de Janeiro passa por diversos problemas, inclusive envolvendo milícias em certas regiões?
Washington Fajardo: É um erro absoluto com comprovação científica. O Brasil gastou mais de 300 bilhões de reais em um programa de construção que aumentou as periferias e piorou as condições urbanas. Como pode? Hoje precisamos investir mais ainda do que antes. E o déficit habitacional é o mesmo. Foi apenas para algumas construtoras. Como sempre.

Diário do Rio: Recentemente, você comentou em uma rede social sobre a grave situação do desemprego no Rio. Em uma cidade como o Rio, que parece não ter mais como crescer no momento, o que deve ser feito para solucionar isso?
Washington Fajardo: Obviamente precisamos recuperar a imagem da cidade. A sazonalidade ajuda o Rio. Os eventos se repetem na cidade, do Réveillon ao carnaval ao Rock in Rio, por exemplo. O turismo tem uma capacidade de oferecer retorno econômico em pouco tempo. Para tanto é necessário ordenar o espaço público e é possível fazer isso sem agredir o trabalhador da rua, mas a ordem para todos deve prevalecer e beneficia também aquele que precisa do espaço público para sobreviver. Não usamos tecnologia. Não temos presença de autoridade no espaço público. Precisamos acabar imediatamente com a ideia de cidade do oba-oba. Outro setor com capacidade de dar resposta rápida é a cultura, que define o Rio, mas é ainda é tratada de modo alegórico pelas políticas públicas. No rio seria possível unir urbanismo com cultura como em nenhum outro lugar do mundo. O setor da memória, os arquivos, os centros de pesquisa, os polos tecnológicos, ou seja, o conhecimento é um destaque do Rio e pouco é trabalhado de modo coordenado ou sequer tem um planejamento apropriado. E o espaço público. O espaço público é um território vital para fortalecer a sociedade e a economia ao mesmo tempo, mas, repito, não pode ser tratado como área residual da cidade, é o amalgama que dá sentido à experiência de viver na cidade. Investimentos chegam quando a cidade é justa no espaço público.

Foto: Ana Branco/Agência

Diário do Rio: Vem sendo ventiladas notícias sobre a criação do de um cassino na Zona Portuária do Rio de Janeiro. O que você acha sobre isso?
Washington Fajardo: Sou contra. Precisamos resolver a segurança primeiro e avançar na nossa mentalidade coletiva.

Diário do Rio: E quanto à possível volta da Fórmula 1 ao Rio de Janeiro, qual sua opinião?
Washington Fajardo: Já me manifestei publicamente: acho que é um tipo de entretenimento que não ajuda o Rio. Veja, a cidade é uma potência de valores humanos, culturais e naturais. Diversidade, expressão artística e potencial para integração social genuína. Por que trazer um evento, caro, que está ligado à cultura automobilística do passado. Nem todo entretenimento vale a pena. Se fosse uma ação exclusiva do mercado, tudo bem, mas como sempre querem que todos paguem por algo para poucos.

Diário do Rio: Você, que é muito atuante com suas ideias, análises, opiniões, pensa em voltar, diretamente, a aplicá-las na política, concorrendo ou aceitando algum cargo público nas próximas eleições municipais?
Washington Fajardo: Eu tive a honra e a sorte de trabalhar dentro de uma gestão exitosa, de 2009 a 2016, com um homem público que eu admiro e respeito muito que é o Eduardo Paes. Aprendi muito com ele. Na verdade todos nós que atuamos próximos dele pudemos enxergar o que é um bom gestor dedicado ao interesse público. E ele sempre nos estimulou a perseguir nossos sonhos com afinco e determinação. O serviço público foi uma experiência fantástica, onde como arquiteto e urbanista, pude compreender completamente o sentido da palavra propósito. Tenho ideias e visões para o Rio e pretendo colocá-las em prática. Sei como fazer e implementar. Tenho perfil executivo e domino as técnicas do planejamento urbano e do bom design. O Rio pode evoluir com um design sistêmico. Servir é uma honra e todo mundo deveria se sentir estimulado a transformar o lugar que ama.

Diário do Rio: Para fechar, quais são seus planos pessoais e profissionais a curto e longo prazo?
Washington Fajardo: Hoje estou em Cambridge, nos EUA, como Loeb Fellow na escola de arquitetura e urbanismo de Harvard. Sou um recurso humano da universidade. Tanto estou fazendo estudos livres, como dou aulas e palestras dentro de cursos aqui, assim como no MIT, basicamente falando sobre os temas que me esforço para compreender melhor: desenvolvimento urbano brasileiro, políticas habitacionais, informalidade urbana, gestão urbana e preservação histórica. Tenho paixão pelo desafio das áreas centrais históricas.
Eu me dediquei intensamente ao serviço público de 2009 a 2016 e deixei de lado um pouco meu trabalho como projetista de arquitetura e de desenho urbano, mesmo tendo feito alguma coisa dentro da prefeitura. Sinto falta disso. Mas sinto mais falta de compartilhar o que aprendi no Brasil. Curiosamente, sempre recebi mais convites de fora do que dentro do país. No momento, quero ajudar o Rio e irei fazer isso. Estou absolutamente focado nisso.

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