William Bittar: Centros Integrados de Educação Pública – os brizolões na década de 1980

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Quase cinco décadas após a iniciativa do antigo Distrito Federal em implantar as escolas Platoon, com programa desenvolvido pelo educador Anísio Teixeira, surgiu uma outra proposta educacional desenvolvida pelo Vice- governador do Estado do Rio de Janeiro, o antropólogo Darcy Ribeiro, durante a gestão de Leonel Brizola. O próprio Ribeiro afirmava que não havia grandes novidades, pois segundo o professor, aquelas ideias “eram defendidas há cinquenta anos pelos melhores educadores brasileiros”, entre eles Teixeira e Fernando de Azevedo, este com suas escolas neocoloniais construídas ao longo da década de 1920.

O programa educacional era muito semelhante, principalmente pela iniciativa em manter os alunos na escola em horário integral, desenvolvendo atividades extraclasses. Com pequenas alterações, o programa arquitetônico também
correspondia àquelas propostas anteriores, mas apresentava uma significativa diferença.
Os Centros Integrados de Educação Pública – CIEP’s, implantados a partir de meados dos anos 1980, logo apelidados de ”brizolões”, partiam de um projeto padronizado, com poucas alterações relativas à implantação em lotes diferentes, distribuídos por todo o Estado do Rio de Janeiro. O projeto foi entregue a um velho amigo de Darcy Ribeiro, o arquiteto Oscar Niemeyer, que conferia notoriedade prévia àquela proposição.

Para sua construção, foi criada uma “fábrica de escolas”, no bairro de Santa Cruz, onde peças de concreto eram pré-fabricadas e depois montadas nos lotes determinados, numa proposta racionalizada.
Paralelamente, com menor propaganda, em um grande terreno localizado no Centro do Rio, junto à Igreja de Santana, onde futuramente seria implantado o Terreirão do Samba, havia uma outra fábrica de peças de concreto, trabalho desenvolvido pelo arquiteto Filgueiras Lima, para abastecer equipamentos como creches, postos de saúde, abrigos para ônibus e até mesmo escolas menores. Durante uma pesquisa sobre o processo de pré-fabricação, tive oportunidade de conhecer os dois canteiros. O segundo se mostrava mais dinâmico e eficiente, produzindo peças menores, com maior facilidade de transporte e variações nas opções de montagem, porém sem a visibilidade monumental do CIEP. Quanto entrevistei um dos responsáveis pela produção das peças, indaguei por que não havia destaque maior para esta última proposta. A resposta de um arquiteto que exercia um destacado cargo administrativo veio com certa ironia. Esses pequenos edifícios não apareciam, não faziam a propaganda esperada do governo estadual que pretendia levar os CIEP’s para todo o Brasil, principalmente se fosse eleito presidente
nas eleições de 1989.

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Os CIEP’s ofereciam, como proposta inicial, ensino integral das 8 às 17 horas, incorporando atividades como Educação Física, estudos dirigidos e outras, ligadas à cultura, como cinema, música e teatro. Além disso, haveria o atendimento às necessidades básicas dos alunos, como três ou quatro refeições completas, atendimento médico e odontológico, como ocorrera nas escolas de Fernando de Azevedo, na década de 1920.

O conjunto arquitetônico incluía alojamento destinado a crianças carentes, que poderiam residir na escola e até mesmo adotadas por “pais sociais”, funcionários públicos residentes no local, geralmente localizado sobre o pavilhão da biblioteca. Havia a intenção declarada em construir quinhentas unidades até o final do governo, mas apenas 127 foram concluídas, processo interrompido com o final da primeira gestão de Brizola, em 1987. Durante o segundo mandato, entre 1991 e 1994, houve uma retomada da proposta de Darcy Ribeiro que recuperou os edifícios anteriores e construiu outras 379 unidades em todo o estado. Com maior concentração na região metropolitana, muitos deles foram implantados em pontos estratégicos, com ampla visibilidade, junto a rodovias ou próximos a favelas e aglomerados rurais de baixa renda. Muitos edifícios ficaram incompletos e foram abandonados. Outros foram invadidos, pois não receberam a merecida atenção de governos posteriores.

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O “projeto-padrão”, desenvolvido por Niemeyer, era composto por três elementos distintos: o bloco-escola, com três pavimentos; uma quadra coberta, com arquibancadas e uma biblioteca com planta hexagonal, que abrigava os alojamentos para alunos no pavimento superior. Para atender à diversidade de alguns lotes, posteriormente foi criada uma proposta alternativa, compacta, que colocava a quadra coberta no terraço do bloco principal.

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Todos os blocos eram construídos em peças pré-fabricadas de concreto aparente, recebendo alguns panos de vidro e esquadrias de alumínio, com venezianas. Em alguns exemplares, havia uma discreta personalização do edifício principal através da aplicação de cor nas vedações sob as esquadrias. No restante, padronização. As plantas eram simples, sem grandes inovações. O pavimento térreo abrigava o refeitório, um pátio e o centro médico. Uma rampa fazia a ligação com os demais pisos, onde estavam as salas de aulas e atividades, um auditório e a
administração. Em relação à forma, o conjunto cumpriu seu papel de tornar-se um marco visual, embora raramente estabelecesse algum diálogo com a vizinhança, atitude usual em outros projetos do arquiteto. Quanto aos aspectos funcionais, o projeto apresenta diversos problemas relacionados aos controles de fluxos, conforto térmico e acústico. Como não havia uma preocupação preliminar com a insolação, as esquadrias de alumínio e a presença do concreto, inclusive na cobertura, aumentavam a temperatura ambiente. Caso fosse utilizado ar-condicionado, precisaria uma sobrecarga para conseguir o conforto necessário. O próprio alumínio, em determinadas horas do dia, apresentava a
superfície superaquecida ao tato, podendo até mesmo queimar algum aluno.

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Internamente, as paredes divisórias entre salas e circulação não atingiam o teto, para permitir alguma ventilação cruzada. No entanto, o problema não era plenamente resolvido e gerava outro, ainda pior, o excesso de ruído agravado pelas superfícies refletoras, prejudicando inclusive a saúde do corpo docente devido ao esforço aumentado para as cordas vocais, ou os alunos não escutariam.

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Após o final do segundo mandato de Leonel Brizola, em 1995, houve o abandono ou municipalização de diversas unidades, sem a adoção do programa educacional dos primeiros anos de implantação, principalmente após o falecimento de Darcy Ribeiro, em 1997, incansável defensor da melhoria das condições de ensino. O governo federal, durante a curta gestão Collor de Mello, tentou apresentar uma alternativa para edifícios escolares que representassem o Projeto Minha Gente, desenvolvido em 1991, inspirados diretamente nos CIEPs, adotando escala monumental como instrumento de auto exaltação. Provavelmente, as acusações de corrupção que levaram ao impeachment do presidente eleito, pouco mais de dois anos após a posse, comprometeram qualquer projeto coletivo de governança, incluindo educação que, mais uma vez, deveria esperar novas iniciativas.

Para saber mais: RIBEIRO, Darcy. O livro dos CIEPs. Rio de Janeiro: Bloch, 1986.

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Carioca, arquiteto graduado pela FAU-UFRJ, professor, incluindo a FAU-UFRJ, no Departamento de História e Teoria. Autor de pesquisas e projetos de restauração e revitalização do patrimônio cultural. . Consultor, palestrante, coautor de vários livros, além de diversos artigos e entrevistas em periódicos e participação regular em congressos e seminários sobre Patrimônio Cultural e Arquitetura no Brasil.
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2 COMENTÁRIOS

  1. Brizola e Darcy Ribeiro fizeram uma revolução no RJ. Um estado com analfabetismo enorme, desemprego enorme e muita miséria.

    Os CIEP em horário integral, com todas as refeições e apoio para as crianças permitiam que os pais saíssem para trabalhar e com a certeza que seu filho receberia educação e seria bem alimentado.

    Os CIEP incluíram muitos pais nas suas construções. Gerou muitos empregos.

    As mães principalmente poderam trabalhar fora. Foi um boom da classe média requisitando serviços como empregada doméstica, cozinheira, etc.

    Brizola chegou a destinar 36% do orçamento para a educação. Qual outro governante chegou perto disso na história desse país?

    Aí veio as eleições de 89 com a maior frente ampla da história (direita, esquerda, sindicalista, empresários, Lula, Globo, militares, EUA) x Brizola. Não deu para o Brizola. A frente amplissima + as anomalias da Proconsult impediram esse grandioso projeto de educação ir para frente.

    • Verdade. Ninguém nunca chegou nem perto do que Brizola e Darcy Ribeiro fizeram na educação. Que potência seria o Brasil se o Brizola fosse eleito…

      Aí veio o Collor e o resto da história do Brazil, ex Brasil a gente conhece bem.

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