William Bittar – Linha Amarela: uma via expressa fora de ordem

Colunista do DIÁRIO DO RIO fala sobre a Linha Amarela

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Rio de Janeiro, 17 de maio de 2023, 17h30, Linha Amarela sentido Fundão, antes do primeiro túnel, junto ao acesso da Rua Geremário Dantas. Diversas placas sobre a via informam os horários de restrições para caminhões (suspenso pela prefeitura durante a pandemia e nunca retomado), indicam que ônibus e outros veículos pesados devem circular pela faixa da direita, recomendam prudência para os motociclistas, que não pagam pedágio, ainda que sejam os principais usuários dos atendimentos e outros avisos.

Uma chuva fina complica ainda mais a circulação de veículos e ao entrarmos no túnel, uma surpresa tão frequente que não mais surpreende: as três faixas estão ocupadas por dois ônibus e um caminhão-cegonha na pista central, assim permanecendo por quase todo o túnel, sem nenhum constrangimento.

Enquanto isso, impacientes como sempre, motociclistas circulam por todas as frestas, buzinando incessantemente, como se deles fosse o privilégio único de transitar sem interrupção, sequer uma troca de faixas de algum veículo, com a devida sinalização. Nesse caso, os motoristas muitas vezes são ofendidos com palavras e gestos porque ousaram atrasar os veículos de duas rodas, isentos de pedágio.

Ao longo da via, caminhões e ônibus apressados continuam a ocupar as faixas centrais e à esquerda, com velocidade acima da permitida. Quando se aproximam da praça de cobrança, a maioria, provida de acesso automático para cabines eletrônicas, cruzam em diagonal as pistas, imprensando os veículos menores, para atingir aquelas cancelas, à direita, retornando após para as pistas não autorizadas.

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Além disso, motoristas espertos que não querem aguardar na fila convencional, passam pelas cabines eletrônicas, disparam o alarme e muitos deles já estão com o dinheiro na mão para pagar aos atendentes. Será que todos são efetivamente multados por evasão do pedágio ou ausência do “tag”? Se assim o for, trata-se de expressiva fonte de arrecadação, tal o número incessante de infratores…

Para acessar a seletiva reversível pela manhã, mais um conjunto de infrações se acumula, pois veículos cruzam indiscriminadamente a via, invadem a divisão por cones, os espertos do volante, sem qualquer intervenção dos agentes controladores que assistem, inertes, à impunidade da esperteza.

A Avenida Carlos Lacerda, popularmente conhecida como Linha Amarela, é uma importante via expressa da cidade, ligando diretamente a Barra da Tijuca à Ilha do Fundão e, consequentemente, à Linha Vermelha.

Sua origem está associada ao plano Doxiades, urbanista grego que apresentou propostas viárias para o Rio de Janeiro durante o Governo Lacerda, na década de 1960, incluindo as denominações cromáticas, algumas das quais incorporadas à vida urbana carioca.

Inaugurada em 1997 pelo prefeito Luiz Paulo Conde, quase imediatamente revelou sérios problemas de planejamento, necessitando intervenções paliativas, muitas delas apenas transferindo os congestionamentos de local, como no caso da saída da Ilha do Fundão, direção Barra. Devido ao dimensionamento equivocado das pistas de rolamento que sucessivamente recebem fluxos adicionais como Linha Vermelha e Avenida Brasil, diariamente o trânsito ali apresenta graves problemas de circulação, agravados durante incursões da segurança pública nas favelas limítrofes.

Trata-se de uma afirmativa de quem trabalhou por décadas na Ilha do Fundão, circulou diariamente por este trecho da via expressa e já ficou no meio de fogo cruzado. Um percurso que tomaria regularmente alguns poucos minutos pode se arrastar por quase uma hora nos momentos de pico, o que é inaceitável para uma via expressa com pedágio cobrado nos dois sentidos.

Logo nos primeiros anos de funcionamento, a circulação de caminhões foi restringida nas primeiras horas da manhã, sentido Ilha do Fundão e implementou-se uma faixa reversível no mesmo sentido, atestando o planejamento equivocado sobre a capacidade de veículos. O outro sentido foi drasticamente prejudicado, pois continuava a circulação de caminhões, mesmo com a perda de uma faixa de rolamento.

Após uma campanha de usuários e muitas reivindicações, a restrição a veículos de carga foi ampliada para os dois sentidos, até a recente pandemia, quando a prefeitura suspendeu tal medida e “esqueceu-se” de retomá-la, apesar de diversos pedidos e comentários da imprensa sobre o aumento progressivo de tráfego, principalmente nos horários das antigas limitações.

No sentido Barra-Fundão, após o congestionamento diário dos primeiros quilômetros da Avenida Ayrton Senna, o motorista enfrenta um gargalo perfeitamente solucionável na altura do Arroio Fundo, próximo à Vila do Pan, com a implantação de uma pequena ponte sobre o canal, facilitando a redistribuição dos fluxos com a criação de uma ou duas pistas adicionais.

No conjunto, a sensação do usuário é que não existe ordem ou controle. Cada motorista age como se dirigisse só, contando com a cumplicidade de quem deveria exercer alguma forma de fiscalização, exceto os radares arrecadadores, cujas multas dificilmente são quitadas pelas transportadoras ou empresas de ônibus, conforme amplamente divulgado pelos órgãos de imprensa.

Basta um percurso pela citada via que essa descrição será confirmada: caminhões e ônibus fora das faixas, emitindo fumaça; veículos com luzes apagadas; motocicletas sem sinalização, com escapamentos abertos, todos passam impunes pelas cabines de pedágio, nos dois sentidos.

Afinal, quem são os responsáveis pela fiscalização?

Onde estão os avisos luminosos, claros e objetivos, como no início da operação, que chegavam a impedir a circulação pelos túneis caso houvesse fluxo demasiado, aguardando seu esvaziamento progressivo?

Onde estão os recursos oriundos do pedágio nos dois sentidos, para tornar uma via segura e transitável, por vezes com iluminação deficiente? Por que motocicletas são isentas se utilizam a via e seus serviços? Estão a trabalho? Táxis e outros veículos por aplicativos também estão. Por que não tarifas proporcionais?

Questões e questões, muitas delas com respostas plausíveis e factíveis, mas os responsáveis pela mobilidade insistem em ignorar ou simplesmente calar.

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Carioca, arquiteto graduado pela FAU-UFRJ, professor, incluindo a FAU-UFRJ, no Departamento de História e Teoria. Autor de pesquisas e projetos de restauração e revitalização do patrimônio cultural. . Consultor, palestrante, coautor de vários livros, além de diversos artigos e entrevistas em periódicos e participação regular em congressos e seminários sobre Patrimônio Cultural e Arquitetura no Brasil.
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6 COMENTÁRIOS

  1. Engraçado esse cara comentando o caminhão era o salvador da pátria na pandemia agora é o vilão se liga maluco deixa o carro em casa e vai de ônibus é só vc olhar a quantidade de carros e a quantidade de caminhão pra vc ver quem está atrasando o trânsito se liga uma porrada de babaca reclamando mas foi os caminhões e motos que não pararam na pandemia e levou comida e bebida a todos.ridiculo será que esse mesmo que tá reclamando não uma das tartarugas que ficam na pista do meio falando no telefone e freiando e atrasando o trânsito.

  2. De fato, poucas “pessoas”percebem ou reclamam mas, está insuportável há muitos anos, o simples ato de dirigir, nesta cidade. Ando de moto desde 1977 e, com a agressiva condução egoística de hoje, temos alta chance de um acidente com outra, ou provocados pela imprudência generalizada. Terra de ninguém e salve-se quem puder…

  3. Impressionante como a imprensa se faz de idiota apenas para poder aparecer falando besteiras e comentários alheios a verdade o que torna a matéria algo sem nexo…

    1o. – A linha amarela é um projeto do então governador Negrão de Lima, um projeto com várias linha coloridas representando as principais futuras avenidas do estado da Guanabara.

    2o. – Via expressa é o escambau, primeiro que o CTB não denomina nenhuma via urbana com via expressa, e se não existe na lei, não existe pra nada. E se existisse no CTB a linha amarela estaria longe de ser uma via expressa. Por vários motivos, o principal é que tem apenas 15 km e liga duas AVENIDAS, depois porque não tem largura e muito menos acostamentos, e por fim por estar literalmente dentro de um perímetro urbano, avilta a lei que não permite velocidades acima de 70km em avenidas. Aliás, esse é o motivo da mentira de via expressa, o de corromper a lei.

    3o. – a LOM e a CFBR são claras em afirmar que ruas e avenidas são bens público de uso comum do povo INALIENÁVEL.

    Por fim, para não me alongar muito, vou falar o que essa matéria deveria ter falado, mas que a imprensa não fala porque come na mão dos corruptos, e os corruptos no Rio de Janeiro usam toga. ESSE PEDÁGIO É CRIME PERMANENTE E CONTINUADO DE ESTADO.

    LuizPCarlos

    • Típico reducionismo de quem quer mais avacalhar do que argumentar. Embora o pedágio cobrado na Linha Amarela seja bizarro, uma vez que, em tese, só se deveria cobrar pedágio em vias que liguem um município ao outro, o governo do estado jamais teria capacidade de operá-la nem neste nível atual. Seria horrendo. E o que atesta isto é a Linha Vermelha, Avenida Brasil (que nunca foi concluída, desde iniciaram-se as obras, em 1940). São vias horrendas, onde, a qualquer momento, ou você pode simplesmente destruir o veículo em dois em tantos remendos e buracos, ou morrer numa batida ou bala perdida. Assim, subvertendo a sua fala: ESTATIZA, QUE MELHORA!

      • O BRT.da Brasil nunca foi inaugurado graças a Deus. Porque o dia que inaugurar o Rio vai parar e pra não parar eles vão fazer como SP rodízio de placas.

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