William Bittar: O Largo do Boticário pelo olhar de sua criadora

D. Sylvia, a principal e mais antiga proprietária local, relembrou que aquele Largo fora pavimentado em pé-de-moleque, material oriundo de demolições na cidade

Foto: João Carlos Godoy

Seja feliz minha amiga
neste velho casarão
onde as paredes antigas
guardam meu coração
dormir escutando a fonte
e de manhã despertar
olhando o verde do monte
e ver o tiê-sangue voar
Majoy (pseudônimo de Sylvia Bittencourt)

Este fragmento de poema foi declamado por uma personagem singular: D. Sylvinha, a idealizadora do Largo do Boticário, bucólico recanto da cidade do Rio de Janeiro, localizado à altura do número 822 da Rua Cosme Velho, bem próximo à casa dos Abacaxis. Trata-se de um tradicional logradouro carioca que, por muitas décadas, recebeu errônea classificação estilística.

Em diversos guias turísticos, o largo constava como um lugar remanescente do período colonial, atraindo visitantes pela sua pitoresca singularidade, muito posteriormente identificado pelas suas reais características neocoloniais.

D. Sylvia, a principal e mais antiga proprietária local, relembrou que aquele Largo fora pavimentado em pé-de-moleque, material oriundo de demolições na cidade. Para iluminação, a companhia de energia optou pelo enterramento da fiação e incluiu quatro lampiões antigos. Complementando o cenário, um chafariz reproduzia o primeiro que houve no Largo da Carioca, vertendo água por uma torneira de bronze, presente de Antônio Prado Júnior, ex-prefeito do então Distrito Federal.

Devido às suas características e principalmente ao seu aparente isolamento do burburinho urbano, constantemente tornava-se cenário para pinturas de cavalete e desenho artístico de observação, disciplinas dos cursos de Arquitetura e Belas Artes.

Foi durante uma dessas aulas, em 1974, que, conheci D. Sylvia, uma senhora quase octogenária que por ali circulava, conversando com alguns, demonstrando elegância, firmeza e muito conhecimento de todo o local. Uma versão carioca da célebre Sinhá Olímpia, das ruas de Ouro Preto.

Alguns anos depois, em 1979, já formado em Arquitetura, trabalhando naquele local num projeto de recuperação desenvolvido pelo escritório do Professor Olinio Coelho, surgiria uma singular amizade entre um jovem de vinte e poucos anos e Sylvia de Arruda Botelho Bittencourt, que em longas e esclarecedoras conversas revelou que era neta de Antônio Carlos de Arruda Botelho, conde do Pinhal, fundador da cidade paulista de São Carlos. D. Sylvinha, como ela preferia ser chamada.

A história daquele Largo e suas casas se apresentava vívida, descrita por sua real protagonista. Devidamente autorizado, efetuei uma gravação em áudio, com plena liberdade para exposição da entrevistada, um valioso material que fundamentou artigos, capítulos de livros e esta coluna.

Nas primeiras décadas dos oitocentos, naquela região do Cosme Velho estabeleceu-se o boticário Joaquim Luiz da Silva Souto, conhecido na antiga Rua Direita, inclusive pela seleta clientela que incluía a própria família Real.  Em 1831, construiu ali sua residência de concepção neoclássica, conforme o gosto vigente, às margens do Rio Carioca ou Rio das Caboclas, pois era ali que as caboclas vinham lavar a roupa. Isto aqui, evidentemente, eram tabas. Porque onde há água que nasce, habita o homem, como contava D.Sylvinha,o córrego que descia dos contrafortes da serra e cortava o largo. Sua descrição revelava os aspectos da casa original:

E aqui tinha um frontispício muito bonito, Império, aquelas casas… clássica casa império, com as estátuas, as quatro estações em cima.

Ao final daquele século, o largo já contava com outras edificações, algumas delas adotando o repertório eclético para suas fachadas, muito comum até as primeiras décadas dos novecentos.

Ao final da década de 1920, Edmundo Bittencourt, fundador do jornal Correio da Manhã, periódico de muito prestígio na capital federal, adquiriu sucessivamente casas e lotes no largo, iniciando uma grande reforma dos edifícios, conferindo-lhes posteriormente o gosto neocolonial.

Posteriormente, o largo foi ocupado por seu filho e esposa, Paulo e Sylvia Bittencourt, ambos jornalistas e envolvidos com a causa nacionalista. Sylvia, que assinava seus artigos sob o pseudônimo de Majoy (segundo ela, a denominação tupi para andorinha), alinhava-se com as propostas de José Marianno Filho, o patrono do movimento neocolonial.

O largo, naquele tempo, era uma praça em declive, de terra batida. No meio, em vez desse monumento, tinha um arco voltaico com duas lâmpadas e os fios saíam por cima para cada casa. A Light concedeu a meu marido, fizeram os fios subterrâneos, elétricos. Tirou a rede. Veio imediatamente o passado.

Provavelmente, por indicação de Marianno Filho, Majoy contratara o jovem arquiteto Lucio Costa para promover a reforma e integração das casas números 20 e 22 em um único edifício, no início da década de 1930.

Após alguns meses da obra em sua residência, Majoy constatou, na assinatura das plantas, que Costa mantinha uma sociedade com o arquiteto russo, radicado no Brasil, Gregori Warchavchik, um dos mais importantes pioneiros da arquitetura moderna nacional, e relatou:

Nesse ano decidiu-se que Lucio, Lucio Costa, que tinha se posto com junto com Warchavchik, viesse fazer a casa. Warchavchik era todo moderno, mas Lucio tinha saído justamente da técnica dele antiga, colonial, pra entrar na moderna. Então ficou, nós chamamos aquilo de estilo tropical. Foi daqui que saiu.

O assumido temperamento autoritário da proprietária afastou Warchavchik da obra. Logo depois, Lucio Costa também era dispensado e Marcelo Roberto, outro jovem arquiteto que também se tornaria um dos nomes mais importantes do modernismo carioca, assumiu os trabalhos. A atuação de Roberto também pouco durou e alguns meses depois também foi afastado. A partir daí, D. Sylvinha procurou quem a executasse. E procurou muito. Dez pessoas tentaram. Mas foi a décima primeira, um João da Silva, que acertou. E passou a viver em função do Largo. As coisas foram vindo de casas demolidas: uma grade da Lapa, uma porta da Avenida Presidente Vargas, uma torneira de São Cristóvão. A casa número 20, residência de D. Sylvia por muitos anos, abrigava diversas peças dos séculos XVIII e XIX, incluindo um elegante frontispício para uma fonte, arrematada por uma estátua de louça e um arco de granito de excelente acabamento gravado com os olhos de Santa Luzia, oriundo do antigo Largo do Capim, extinto para a abertura da Avenida Presidente Vargas.

Ao longo dos anos 1930, praticamente todo o Largo, com exceção para a residência Rudy Siqueira, foi reformado pela família Bittencourt, dentro do gosto neocolonial, pelas mãos do Sr. Silva, mestre-de-obras português, de muita confiança e longa convivência, que permaneceu como o efetivo construtor do largo por várias décadas, sob a tutela permanente de D. Sylvinha:

Então tinha o salão – tudo com material de demolição, hein. Não tem uma coisa comprada. As madeiras que estão na parede foram tiradas de demolições na cidade. Porque a cidade naquele tempo parecia um bombardeio. Estava demolindo pra fazer Getúlio Vargas.

Em 1978, enquanto Majoy estava na Europa, a residência número 20 foi alugada para um empresário italiano, que praticamente demoliu internamente a edificação.

Diante da destruição do imóvel, a obra foi embargada pela prefeitura. Para retomada dos trabalhos, oi exigido um projeto de restauração e revitalização, que durou alguns anos, mas aquela residência jamais retomou sua configuração original, tal o estado de descaracterização encontrado.  Diante das condições do imóvel, realtou D. Sylvinha o diálogo com o locatário:

Embargaram a obra. Não fui eu que embargou a obra. Eu não embarguei a obra porque eu estava entre a cruz e a caldeira. Como é que eu vou receber… Ele disse: – Eu entrego, eu entrego pra você a casa como está. Eu disse: – Entrega a casa como está? Você vai me entregar um cadáver mutilado e ninguém pode fazer ressuscitar um cadáver.

Com a morte de Sylvia Bittencourt, em 1995, a casa número 20 foi cedida para uma edição do evento Casa Cor, que pouco contribuiu para recuperação do imóvel. Posteriormente, o Largo do Boticário, abandonado pela herdeira, entrou em franca decadência, chegando a sofrer invasões entre 2006 e 2008 por um grupo do movimento dos sem-teto, promovendo danos, alguns irreversíveis.

Em 2011, o jornal O Globo descrevia o estado de abandono dos imóveis, mesmo com o tombamento efetuado pelo INEPAC em 1990, pois a herdeira, Sybil Bittencourt, alegava falta de recursos para obras de conservação ou restauração.

No entanto, tal proteção nem seria efetivamente necessária, pois o Largo do Boticário já recebera uma legislação especial no Código de Obras do Distrito Federal, em julho de 1937, porém com a equivocada interpretação sobre a época da construção de seus imóveis, atribuindo-lhes o repertório colonial:

na construção ou reconstrução dos prédios dos logradouros em questão, inclusive os prédios da rua Cosme Velho que fazem face com o beco e os que dão fundos para o largo, será obrigatoriamente adotado o aspecto das construções do tempo da colônia (o chamado estilo colonial), não sendo permitidas para todos esses prédios, a construção, a reconstrução ou o acréscimo com mais de dois pavimentos.

Pelo Decreto nº. 36.910, de 18 de março de 2013, a prefeitura do Rio desapropriou os imóveis de números 20, 26, 28 e 30, todos pertencentes à única herdeira, tornando-os de utilidade pública, com objetivo de implantar programas de hospedagem, certamente sem seu genius loci, apenas uma iniciativa comercial      que investe na atração que aquele endereço exerce na memória afetiva da cidade.

No centro do Largo talvez ainda permaneça gravada numa placa de bronze aquela mensagem de sua mais ilustre moradora:

Vós que morais neste recanto,

sob a benção da água e do silêncio,

 lembrai-vos que de vós

depende o encanto daqui

Majoy

Carioca, arquiteto graduado pela FAU-UFRJ, professor, incluindo a FAU-UFRJ, no Departamento de História e Teoria. Autor de pesquisas e projetos de restauração e revitalização do patrimônio cultural. . Consultor, palestrante, coautor de vários livros, além de diversos artigos e entrevistas em periódicos e participação regular em congressos e seminários sobre Patrimônio Cultural e Arquitetura no Brasil.
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2 COMENTÁRIOS

  1. Amo o Largo do Boticário,sempre que vou ao Rio de Janeiro vou até e atravéz do tempo senti e vi o abandono que se instalou por lá…Que Bom que está recebendo nova roupagem e podendo ser visitado e apreciado como merece! Sou carioca e apesar de não morar no Rio a muito tempo me orgulho da sua arquitetura, seus prédios lindos , memória vivamos anos passados.Muito bom seu artigo além das suas informações tão precisas! Tenho um quadro que comprei de um artista de rua chamado Fernandes do Largo do Boticário e cada vez que olho para êle me sinto em casa, de volta ao meu passado e a a minha linda Cidade Maravilhosa !
    Obrigada, Jane Prujansky Hak.

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