William Bittar: Para muitos, enfim Carnaval 2023

Existe uma expectativa criada pelo poder público e meios de comunicação, na intenção de atrair um número recorde de turistas

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Desfile das Escolas de Samba, 2022 - Abril de 22 | Foto: Rafa Pereira - Diário do Rio

Apesar do registro de várias aberturas oficiais do carnaval carioca de 2023 desde a última semana de janeiro, o calendário indica que os dias de folia começam no sábado, 18 de fevereiro.

Existe uma expectativa real e principalmente muitas criadas pelo poder público e meios de comunicação, na intenção de atrair um número recorde de turistas, abarrotando cofres oficiais e particulares.

Afinal, foram três anos (exceção para um carnaval no meio de 2022) sem a presença de blocos e do povo na rua, em todo o território nacional.

Desde a amenização da pandemia, decorrente do processo de vacinação, ainda que muitos não tenham, por motivos diversos, concluído o ciclo de imunização, há uma crescente propaganda sobre o carnaval 2023.

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Inevitável a comparação com 1919, noticiado com euforia pelos jornais, exaltando que a festa apresentou um brilhantismo sem precedentes, compatível com o término de trágicos eventos como o fim da Grande Guerra (assim era denominada a Primeira Guerra Mundial) e o abrandamento da gripe espanhola, que havia ceifado vidas por todo o planeta, incluindo o Brasil, 15 mil no Rio de Janeiro.

Havia um clima de celebração após a conscientização da finitude da vida, da efemeridade, substituído temporariamente pela aplicação direta do Carpe Diem romano. Muitos decidiram viver aquele momento como se fosse o último, um carnaval de revanche contra os tempos de vicissitudes. Os jornais estimaram cerca de 400 mil foliões só no Centro do Rio.

Ainda não existiam os grandes blocos, posteriormente profissionalizados, abandonando a energia espontânea, barata e efetivamente popular. O popular Cordão da Bola Preta fora fundado em dezembro de 1918.  Os desfiles de escolas de samba só surgiriam em 1928, agregando segmentos de classes mais baixas.

Desde meados do século XIX, as elites se organizavam em Ranchos e Grandes Sociedades, que promoviam elegantes desfiles em seus carros alegóricos, enquanto a população seguia pelas ruas, com fantasias elaboradas ou improvisadas, eventualmente participando dos entrudos coloniais.

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O desfile das Grandes Sociedades – Os Tenentes do Diabo

Revista Fon-fon, 1919

Até a década de 1960, a passarela montada na Avenida Presidente Vargas recebia públicos diversos para atrações diferentes em dias especificamente definidos: Frevos, Ranchos, Grandes Sociedades e Escolas de Samba, enquanto muitos blocos arrastavam foliões pela Avenida Rio Branco até a Cinelândia, com destaque para a conhecida rivalidade entre o Cacique de Ramos e o Bafo da Onça.

Pouco a pouco, as Escolas de Samba tornaram-se protagonistas do carnaval carioca, levando à extinção as outras agremiações, encerrando seus desfiles. O cenário mudou de endereço, por causa de grandes obras urbanas, como o metrô e ocupou a Avenida Antonio Carlos até sua transferência para Marquês de Sapucaí onde, em 1984, recebeu instalações permanentes.

Chegamos ao ano de 2020, que assistiu ao último carnaval realizado em seus próprios quatro dias, pois logo depois surgiu a pandemia que ainda assola o mundo, provocando milhões de mortes, inclusive no Brasil.

Foram três anos de dúvidas, incertezas, inseguranças, negações, notícias falsas, mas o hábito nacional de vacinação conseguiu minimizar as consequências, apesar de grandes campanhas contrárias ao processo, incluindo práticas já consagradas com ótimos resultados devidamente comprovados.

Assim como em 1919, o Carnaval 2023 se apresenta, para muitos, como a celebração da vida, a vitória contra a peste no sentido estrito e figurado, considerando o triste papel desempenhado por muitos que deveriam atuar em favor da população.

Diante do cenário prenunciado, torna-se necessário agir com cautela e vigilância, pois alguns eventos são imponderáveis, até mesmo a intolerância latente de gênero, étnica, religiosa ou política. Qualquer fantasia pode ser considerada provocação por todas as partes envolvidas, gerando conflitos em vez da confraternização.

Existem algumas diferenças cruciais entre os dois momentos, pois em 1919 a comemoração era efetivamente conjunta, a festa era comum, pois todos celebravam a vida, mesmo com muitos exageros revelados pela imprensa.

Em 2023 encontramos um país polarizado, onde o uso de uma máscara ou adereço pode ser considerado politicamente incorreto ou mera provocação, agravado pela liberação de armas nos últimos anos.

Até mesmo letras de antigas marchinhas e fantasias tradicionais que alegraram tantos carnavais estão em listas para a ação de patrulhas ideológicas de quaisquer vieses.É possível celebrar com alegria, irreverência, mas principalmente com respeito ao outro, trazendo para a festa princípios básicos de convivência devida e necessariamente adotados para TODOS, estabelecendo uma revisão essencial do convívio democrático, que este carnaval pode ressurgir como ponto de partida.

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Carioca, arquiteto graduado pela FAU-UFRJ, professor, incluindo a FAU-UFRJ, no Departamento de História e Teoria. Autor de pesquisas e projetos de restauração e revitalização do patrimônio cultural. . Consultor, palestrante, coautor de vários livros, além de diversos artigos e entrevistas em periódicos e participação regular em congressos e seminários sobre Patrimônio Cultural e Arquitetura no Brasil.
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