William Bittar – São Francisco de Assis: devoção e templos no Rio de Janeiro

Em 04 de outubro é celebrado o dia de São Francisco de Assis, por isso, colunista do DIÁRIO DO RIO fala sobre a devoção ao santo

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Igreja de Santa Maria de Jazente, Amarante, Portugal (dir.) Acervo Particular

Em 04 de outubro é celebrado o dia de São Francisco de Assis, que nasceu Giovani di Pietro Bernardone, na Itália, em 1181 ou 1182 e faleceu em 1226, levando uma vida plena de mudanças até encontrar o caminho da religião. Dois após sua morte, foi canonizado pelo Papa Gregório IX. Existem algumas versões para o nome Francisco, entre elas o seu apreço pelos hábitos franceses, que lhe valeu o apelido atribuído pelo próprio pai.

De família abastada, após uma juventude de vida mundana e passagem por fileiras militares, quando foi ferido, Giovani retornou para sua terra, Assis. Ali, através do recolhimento e uma vida de pobreza, estabeleceu o contato com o divino, fundando a Ordem do Frades Mínimos, depois conhecida como franciscana, adotando os votos e o princípio que “ante os olhos de Deus o homem vale pelo que é”.

Aqueles poucos frades revolucionaram a Igreja com sua pregação itinerante, assistência a todos os necessitados, reverência à maravilha da Criação que tornava todas as criaturas vivas objeto do Amor, portanto irmãs.

A devoção a São Francisco expandiu-se por todo o mundo, tal a força e sinceridade de sua vida e ensinamentos. Como tratava todas as criaturas como irmãs, esse sentimento igualitário é comum à essência de diversas religiões e filosofias, como Catolicismo, Igreja Ortodoxa, Budismo, Espiritismo, Umbanda, Candomblé.

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Ao longo dos séculos, tornou-se padroeiro da ecologia, protetor dos animais e do meio ambiente e até mesmo considerado como referência pelas comunidades hippies dos anos sessenta, algumas delas envoltas no misticismo.

No Brasil, a devoção desembarcou com a esquadra cabralina, em 1500, através de frades franciscanos, como Frei Henrique Soares, responsável pela primeira missa na Ilha de Vera Cruz.

A igreja de São Francisco de Assis do Outeiro da Glória, em Porto Seguro, BA, é considerado o primeiro templo católico erguido no Brasil, em 1503, por dois franciscanos. O edifício original, de taipa, não resistiu aos ataques e intempéries, restando apenas ruínas na região.

Após um pequeno hiato de algumas décadas, os franciscanos se estabeleceram por toda a colônia, representando a igreja católica em conjunto com a Companhia de Jesus, fundando diversos conventos em toda a nova terra.

São Francisco influencia a cultura brasileira por conta de suas virtudes, simplicidade, amor às criaturas viventes e à Natureza. Está presente nas festas populares, romarias, cordel, obras de arte, tradições religiosas e até mesmo batiza um dos mais importantes rios nacionais, o São Francisco, que o povo carinhosamente trata como “Velho Chico”, descoberto e batizado em quatro de outubro de 1501.

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No sincretismo com os cultos de matrizes africanas, São Francisco é associado ao orixá Irôko, considerando as mesmas vocações de ambos para proteção da natureza e dos animais. Outras casas associam o santo ao orixá Xangô ou Omulu Tempo, mas Irôko tem domínio pela revitalização eterna dos ciclos da Natureza e trata todos com igualdade assim como o Santo.

A cidade do Rio de Janeiro conta com cinco paróquias dedicadas a São Francisco, duas em Campo Grande, Senador Camará, Anchieta, todas criadas na segunda metade do século XX, exceção para a Igreja Matriz, localizada no Rio Comprido, à Rua Caetano Martins, 42, implantada em 1945.

Este templo apresenta uma fachada muito simples, que faz referência estilizada a algumas capelas medievais. Seu interior é contemporâneo, recebendo constantes reformas.

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Além das paróquias, vinte capelas ou igrejas são dedicadas ao Santo, com destaque especial para duas delas.

A igreja de São Francisco da Penitência (Ordem Terceira), está vinculada à Paróquia Catedral Metropolitana, localizada no Largo da Carioca, anexa à igreja conventual de Santo Antônio. Originalmente o conjunto incluía hospital, botica e cemitério, depois transferido para a necrópole do Caju, mantendo apenas algumas sepulturas associadas à Família Real. Trata-se de bem tombado pelo IPHAN por sua importância histórica e artística.

Originalmente, a capela dos terceiros foi instalada ao lado da epístola (direito) da nave da igreja conventual, dedicada à Nossa Senhora da Conceição.  Em meados do século XVII conseguiu autorização para construção de um templo externo, voltado para o adro comum, inaugurado em 1733, incorporado ao templo da Ordem Primeira, sem incluir torres sineiras em sua fachada, originalmente muito simples.

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Os interiores certamente se apresentam como dos mais importantes exemplares  da ornamentação barroca e rococó no Brasil, incluindo trabalhos realizados por notáveis artífices coloniais como Manuel de Brito, responsável pelo retábulo e paredes laterais da capela-mor.

Francisco Xavier de Brito, artista que influenciou Antonio Francisco Lisboa, entalhou o arco cruzeiro e dos altares laterais antes de seguir para a Capitania das Gerais.

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Em 1743, o teto da nave principal recebeu um painel pintado por Manuel da Costa Coelho representando a Apoteose de São Francisco, considerada a primeira pintura barroca em perspectiva feita no país, completando um dos mais notáveis interiores da arte e arquitetura coloniais.

Próxima à Praça Mauá, integrando a Paróquia de Santa Rita, uma das mais antigas do Rio de Janeiro, está a igreja de São Francisco da Prainha, a poucos metros da Pedra do Sal, marco da Pequena África.

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É provável que este templo fora construído pelo Padre Francisco da Mota e legado à Ordem Terceira da Penitência, em 1704. Existem descrições que o edifício foi incendiado durante a invasão do corsário francês Duclerc, em 1710, reconstruído em 1738.

A fachada principal, implantada sobre um platô com acesso por uma escadaria perpendicular ao passeio, adotou um partido simplificado de composição, à feição de capelas portuguesas dos século XV e XVI, de matriz clássica. Apresenta um retângulo alongado, arrematado por um frontão triangular, onde estão um óculo para iluminação sob as insígnias franciscanas. A ornamentação existe apenas nas sobrevergas das janelas do coro, na portada de acesso à nave e em duas colunas nos cunhais, todos de pedra aparelhada.

Seus interiores se apresentam muito modificados em relação ao provável partido original, restando algumas imagens mais antigas, como Bom Jesus dos Navegantes, no altar-mor e a inclusão de novos púlpitos e confessionários, com linguagem diferente do partido original.

Nestas duas igrejas, de composições tão diferentes, uma semelhança sutil e singular se apresenta no altar-mor. Em ambas estão presentes a imagem de Jesus Crucificado e São Francisco, próximo a seus pés, sugerindo o momento em que o santo recebera os estigmas no Monte Alverne, já nos últimos anos de vida, onde por várias vezes meditava e conversava com o Divino: “e bem sabes que nada tenho além da túnica, da corda e das bragas”.

Para encerrar, a saudação de São Francisco, que tanto se faz necessária diante da guerra diária e as investidas do mal, proferida com sinceridade:

– Paz e Bem!

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Carioca, arquiteto graduado pela FAU-UFRJ, professor, incluindo a FAU-UFRJ, no Departamento de História e Teoria. Autor de pesquisas e projetos de restauração e revitalização do patrimônio cultural. . Consultor, palestrante, coautor de vários livros, além de diversos artigos e entrevistas em periódicos e participação regular em congressos e seminários sobre Patrimônio Cultural e Arquitetura no Brasil.
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